Bruxelas aponta para forte abrandamento da economia e prevê crescimento muito inferior ao do Governo

11 nov, 10:15
Fernando Medina (Lusa/António Pedro Santos)

Previsões da Comissão Europeia apontam para um cenário mais pessimista que o que é estimado pelo Governo, não só no crescimento económico, mas também no desemprego, na inflação e no défice orçamental. A concretizarem-se as previsões de Bruxelas, Portugal não terá um ano de recessão em 2023, mas passará por uma recessão técnica

A Comissão Europeia reviu em forte baixa as previsões para a economia portuguesa e apenas prevê um crescimento de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no próximo ano quando nas últimas previsões, em julho, apontava para um crescimento de 1,9%. A previsão da Comissão aponta para um valor que fica também bastante abaixo da estimativa do Governo que consta da proposta de Orçamento do Estado para 2023 e que aponta para um crescimento de 1,3%.

A confirmarem-se as previsões de Bruxelas, Portugal deverá mesmo passar por uma recessão técnica no primeiro trimestre do próximo ano. A Comissão prevê que o crescimento trimestral da economia seja negativo no último trimestre de 2022, com a economia a recuar 0,1%, e que o mesmo aconteça no primeiro trimestre de 2023, com um novo recuo de 0,1%, o que levará a dois trimestres consecutivos de crescimento negativo, ou seja, a uma recessão técnica. 

Nos restantes trimestres do próximo ano, a economia volta a terreno positivo e, assim, permite alcançar um crescimento anual de 0,7%, escapando a uma recessão no conjunto do ano. Para 2024, a Comissão prevê uma nova aceleração da economia nacional, com o PIB a crescer 1,7%. Em termos de crescimento económico, Bruxelas prevê ainda para este ano que o crescimento seja de 6,6%, ligeiramente acima dos 6,5% previstos pelo Ministério das Finanças.

Após uma forte recuperação, prevê-se que a economia portuguesa abrande substancialmente a curto prazo, limitada pela fraca procura externa e pelos elevados preços da energia”, sublinha a Comissão nas previsões divulgadas esta sexta-feira. Bruxelas adianta, de seguida, que se espera uma recuperação do crescimento “a partir do próximo Verão”, mas lembra que “os riscos permanecem do lado negativo”.

E um dos riscos apontados por Bruxelas, para além do ambiente internacional incerto, passa pela seca na Península Ibérica. Os riscos para as perspetivas de crescimento “continuam a ser significativos do lado negativo, à luz da incerteza global”, mas também existem riscos específicos do país relacionados com a “grave seca na Península Ibérica que podem ter repercussões prolongadas sobre o abastecimento alimentar doméstico”, lê-se no documento da Comissão Europeia.

Desemprego, inflação, défice. Bruxelas mais pessimista que Governo

As previsões da Comissão Europeia não são apenas mais pessimistas que as do Governo em termos de crescimento económico. Olhando para as várias variáveis que é possível comparar, Bruxelas mostra-se mais pessimista que o Governo português na maioria delas.

Começando pelo desemprego, enquanto o Governo português aponta para uma manutenção da taxa de desemprego num patamar de 5,6% este ano e no próximo, Bruxelas aponta para uma taxa de desemprego de 5,9% este ano e no próximo e para uma descida para os 5,7% em 2024. Ainda assim esta é a boa notícia das previsões, uma vez que aponta para a manutenção da taxa de desemprego numa altura quem que se verifica um enorme abrandamento do crescimento da economia.

E se a boa notícia é o desemprego, a má notícia é a evolução da inflação.

Portugal acredita que a taxa de inflação este ano ficará nos 7,4%, Bruxelas aponta para os 8%. No próximo ano, a Comissão aponta para uma subida dos preços de 5,8%, enquanto a equipa liderada pelo ministro das Finanças, Fernando Medina, acredita numa taxa de inflação de 4%. E em matéria de preços, Bruxelas volta a lembrar que a seca na Península Ibérica também teve efeitos ao nível da inflação, nomeadamente nos preços dos bens alimentares não processados.

Para 2024, Bruxelas aponta para uma taxa de inflação de 2,3%.

Em matéria de Finanças públicas, mais uma vez a Comissão Europeia mostra-se mais pessimista que o Governo português. Depois de um défice de 1,9% do PIB este ano, em que Bruxelas e Lisboa estão alinhados, o Governo português prevê uma descida para 0,9% no próximo ano, mas a Comissão apenas acredita numa descida para 1,1%. Para 2024, Bruxelas prevê uma nova descida do défice, desta vez para 0,8% do PIB.

Já no que diz respeito à evolução da dívida pública, as Finanças apontam para uma descida da dívida de 115% do PIB este ano, para 110,8% no próximo, a Comissão Europeia aponta para uma descida de 115,9% este ano para 109,1% no próximo e 105,3% em 2024.

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