Prazeres Culpados: como é que eu gosto de comédias românticas? Deixem-me falar-vos da Meg Ryan, do Hugh Grant, da Julia Roberts e de todos os outros que me partiram o coração

20 jul 2025, 16:00
Meg Ryan e Billy Crystal em "When Harry Met Sally" (DR)

Gostar de comédias românticas não é cool. Pois, pecadora me confesso, este é um dos meus guilty pleasures

Era um jantar de amigos, a comida estava ligeiramente picante, havia vinho, a conversa fluía. Falava-se de política, do extremismo, alguém referiu a peça de teatro do Tiago Rodrigues, outra pessoa aconselhou um filme “extraordinário” que estava em exibição. “Já o vi três vezes e de cada vez que o vejo encontro algo diferente.” Não me lembro que filme era, mas lembro-me que já devia ter bebido um copo de branco, talvez dois, estava descontraída e soltei uma gargalhada: “O único filme que fui ver três vezes ao cinema foi o ‘Quatro Casamentos e um Funeral’”. Fez-se silêncio. Os olhos de todos viraram-se para mim, tentando perceber se estaria a falar a sério ou a dizer uma piada. Percebi imediatamente que tinha dito algo ridículo. Senti-me a corar e tentei justificar-me. Foi há muito tempo, balbuciei, estava na faculdade, os filmes também são os contextos em que os vemos, quero dizer, fui primeiro sozinha, gostei tanto que quis levar o meu namorado e depois ainda arranjei maneira de ir com as minhas amigas, porque era tão fixe, não era?, ai, caramba, como é que se explica isto?, não é que seja um filme extraordinário, eu sei, não precisam dizer-mo, mas se o apanhar no zapping, ainda hoje, não lhe consigo resistir, o que querem?, é daqueles filmes que nos dão um certo conforto, sabem?, e está tão bem feito, é uma comédia romântica, quem é que não gosta de comédias românticas?

Aparentemente, muita gente, percebi então. Gostar de comédias românticas não é cool. Pois, pecadora me confesso, este é um dos meus guilty pleasures.

As comédias românticas são filmes que falam de amor, que nos fazem rir e chorar, que têm um final feliz e nos dão uma versão muito delicodoce da vida. Não, não são, quase de certeza, filmes que ganhem prémios em festivais ou que fiquem para a história do cinema. Mas uma boa comédia romântica é uma espécie de porto seguro. Um sítio onde nós, os pecadores, gostamos de voltar, uma e outra vez.

Hoje em dia é difícil encontrar uma boa comédia romântica e o género, temos de admitir, caiu num rame-rame “netflixizado” que até a mim me enerva com os seus diálogos cheios de clichés e interpretações banais. Mas, nos tempos áureos, que [eu não sou crítica de cinema, portanto vou ser absolutamente parcial nisto] foram ali entre os anos 80 e 90 do século passado, as comédias românticas eram uma coisa séria. Basta evocar aquele que é unanimemente considerado o melhor exemplar de todos, “When Harry Met Sally”. Era 1989 e Meg Ryan e Billy Crystal discutiam com humor e acutilância se seria ou não possível uma amizade verdadeira entre homens e mulheres, sem sexo à mistura. Esse “Um Amor Inevitável”, como tristemente se chamava em português, realizado por Rob Reiner, dá dez a zero em qualidade de argumento e interpretação a muitos filmes ditos intelectuais. Além de ter um dos melhores orgasmos da história do cinema (eu também quero comer o mesmo do que ela, por favor).

Há outros bons exemplos. Assim de cabeça, ainda com a marca da grande Norah Ephron, temos “Sintonia de Amor” (1993) e “Você Tem uma Mensagem” (1998), que aproveitavam bem a química entre Meg Ryan e Tom Hanks. A doce Meg, aliás, foi a rainha das romcoms, e fez também “French Kiss: O Beijo” (1995) e “Viciados no Amor” (1997). Já Julia Roberts protagonizou o clássico “Pretty Woman: Um Sonho de Mulher” (1990) e o incontornável “Notting Hill” (1999) - só os corações de pedra não se comovem com aquele momento em que ela aparece na livraria: “Sou apenas uma rapariga em frente de um rapaz, pedindo-lhe que a ame” (chuif, chuif). Aqui, Julia estava ao lado de Hugh Grant, que foi também um dos atores de “Quatro Casamentos e um Funeral” (1994), o tal que vi três vezes no cinema e provavelmente outras tantas na televisão, em todas elas lacrimejando um pouco com o poema do W.H. Auden. Num estilo mais jovem, Heath Ledger e Julia Stiles eram o par romântico de “Dez Coisas que Odeio em Ti” (1999). A Sandra Bullock também fez a sua parte com “Enquanto Dormias” (1995). Não sei será legítimo chamar comédia romântica a “Alta Fidelidade” (2001), com o John Cusack, mas se for é das minhas preferidas. Há outros, obviamente, mas a ter que escolher, esta seria a minha amostra, muito pessoal, muito do meu tempo. 

Os filmes românticos em geral, e as comédias românticas em particular, são culpados por muitos dos estereótipos sobre relacionamentos que nos enformam (e deformam) enquanto nos tornamos jovens adultos e nos põem a sonhar com príncipes encantados que vão chegar para salvar as princesas das suas solidões e depois viverem juntos “happily ever after”. Há extensa literatura sobre isto e não serei eu, feminista informada, que vai defender o contrário. O final feliz - leia-se, com um casamento - faz parte do pacote. As comédias românticas terminam exatamente no momento em que a vida a dois começa: “Quando percebemos que queremos passar o resto das nossas vidas com alguém, queremos que o resto das nossas vidas comece o mais cedo possível”, diz Harry (Billy Crystal), precisamente na última cena do filme. O filme cristaliza esse momento do encontro. É como se se pusesse todo o esforço na procura do par ideal e, depois, fosse só desfrutar. Que ingenuidade, não é? Como se a partir daí fosse tudo um mar de rosas e não houvesse discussões nem rotinas nem filhos nem dúvidas nem noites sem dormir nem contas para pagar nem traições nem nada a perturbar o amor. 

Não, as comédias românticas não nos mostram a vida como ela é e não são filmes para nos fazer pensar ou questionar o mundo. E é daí que vem grande parte da culpa que sentimos por gostarmos de vê-los. Mas também não é isso que esperamos deles. São apenas aqueles “feel good movies” que nos fazem ficar no sofá, a ver televisão num domingo de chuva, sabendo à partida que vamos partir o coração umas quantas vezes mas no final vai ficar tudo bem. Portanto, gostar de comédias românticas é também aceitar a fantasia e acreditar, pelo menos durante aquele par de horas, que dois estranhos que tropeçam um no outro numa viagem e até se podem odiar num primeiro momento vão acabar por se apaixonar e, desafiando todas as probabilidades, vão ser felizes para sempre. É meio básico mesmo, não há volta a dar. Mas é bom assim mesmo.

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