A Europa está sob aviso. Depois do alerta do CEO da Shell sobre a falta de combustível em abril, o antigo ministro António Costa Silva reforça a gravidade da situação. Até onde chega o escudo das energias renováveis em Portugal perante uma crise?
O mundo ficou de repente sem 15 milhões de barris de petróleo por dia. É mais ou menos isso que se perde diariamente desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão a 28 de fevereiro, com a retaliação de Teerão a lançar um pânico energético numa região que funciona quase como um coração do abastecimento mundial de petróleo e gás natural.
É por isso que, segundo António Costa Silva, um dos maiores especialistas da área em Portugal, que pede que não se ignorem as declarações do CEO da Shell, Wael Sawan, que avisou para uma possibilidade de escassez na Europa a curto prazo, entre o fim de abril e o início de maio. "Desqualificar as declarações [do CEO da Shell] é o pior que se pode fazer", alerta o também antigo ministro da Economia.
António Costa Silva reitera que a base de sustentação da afirmação da Shell passa, numa primeira fase, por compreender as consequências que se têm feito sentir com o bloqueio do Estreito de Ormuz. "Hoje continuamos, a nível do mercado mundial, com falta de 15 milhões de barris de crude por dia que não saem de Ormuz, mais 5 milhões de barris de produtos refinados (diesel e jet fuel)", diz o especialista, lembrando também que o défice está a ser colmatado por reservas estratégicas que não são suficientes a longo prazo. Logo aí é possível afirmar com alguma propriedade que a continuação da guerra vai originar escassez generalizada no mundo.
A Agência Internacional de Energia (AIE) já anunciou a maior libertação de sempre de reservas de petróleo, num esforço que também inclui Portugal, mas que era limitado no tempo. De resto, os ministros dos países do G7 vão reunir-se esta sexta-feira para discutir a possibilidade da implementação da mesma medida, o que deixaria as reservas em níveis preocupantes.
Por outro lado, e à semelhança de Wael Sawan, António Costa Silva nota que é crucial perceber em que moldes vai terminar o conflito no Irão. Sob que forma será reaberto o Estreito de Ormuz? E que capacidade de produção restará aos países do Golfo Pérsico após as hostilidades?
O Catar partilha com o Irão a maior reserva de gás natural do mundo, tornando a região crítica para o abastecimento global. “Não nos podemos esquecer de que as instalações do Catar, que fornece 20% do gás natural comercializado nos mercados mundiais, foram atingidas por milícias iranianas”, relembra o homem que liderou a Partex, uma empresa petrolífera, entre 2004 e 2021.
As autoridades do Catar afirmaram que serão necessários, no mínimo, três anos para repor totalmente a capacidade das instalações, sendo que 17% da capacidade de produção diária está afetada para pelo menos esse período. Mesmo que a Europa não dependa brutalmente do gás natural catari - em 2025 importou menos de 4% do seus gás natural daquele país, segundo a União Europeia - António Costa Silva frisa que “é importante a Europa diversificar as suas importações, se não quiser ter um problema significativo”.
Em última instância, António Costa Silva fala num fenómeno crítico e menos habitual no mercado petrolífero: a "dissonância completa" entre o mercado de futuros e o mercado físico (spot). Enquanto os indicadores de referência mundial, como o Brent ou o WTI, apresentam valores elevados mas ainda longe de recordes históricos - o valor máximo do Brent foi atingido na crise de 2008, com o barril de petróleo a custar 147 dólares -, a venda direta de barris físicos está a transacionar a preços explosivos. Pode acompanhar a evolução do preço diário neste artigo da CNN Portugal.
"Na Ásia, o barril de jet fuel já está a ser transacionado a 200 dólares", indica o especialista, acrescentando que o crude no Médio Oriente atinge os 170 dólares nas vendas diárias. Esta inversão total da lógica de mercado - um fenómeno técnico raramente visto neste mercado conhecido como backwardation - indica que o mundo está a pagar um prémio altíssimo pela entrega imediata de energia. "Hoje, temos a extrema reversão deste ciclo e isso é preocupante para o reequilíbrio futuro do abastecimento global."
"A Europa é sempre muito lenta a reagir a estas coisas"
Apesar da gravidade dos indicadores, o antigo ministro da Economia aponta o dedo à paralisia de Bruxelas. "A Europa é sempre muito lenta a reagir a estas coisas, tem sempre uma lógica mais reativa do que integradora", lamenta António Costa Silva.
"Não vejo iniciativas nenhumas a nível da Europa e isto vai deixar o continente outra vez no centro desta crise energética se ela se aprofundar", acrescenta, avisando que a União Europeia está a ignorar as “lições” de crises anteriores.
A solução, defende o especialista, passa por olhar para outras áreas do globo e diversificar urgentemente as origens de importação europeia. “Temos de olhar muito mais para o povo do México, olhar para a Trinidad e Tobago, para as Guianas, Angola e Brasil, que estão a produzir, sobretudo na área do gás”, confessa o especialista.
As restrições energéticas já afetam partes da Ásia e a Europa permanece em alerta. A possibilidade de medidas preventivas idênticas chegarem ao continente europeu é real, até porque “há indicações muito fortes" de que tal possa acontecer. De resto, isso já está a acontecer em alguns locais, até mesmo na Europa. A Eslovénia, por exemplo, colocou um limite ao que os cidadãos podem abastecer, tentando evitar aquilo que já se chama de "turismo de combustível", estando a Polónia a avaliar uma medida semelhante, já que cidadãos de países adjacentes como Alemanha ou Áustria se deslocam até àqueles países para beneficiarem dos preços mais baratos no gasóleo e na gasolina.
Como tal, António Costa Silva apela a uma “revolução dos negawatts" - um conceito que privilegia a energia que deixamos de consumir através da eficiência e otimização, em vez se focar apenas na produção. “Os negawatts são os watts que nós não utilizamos por uma melhor otimização de toda a nossa vida, quer ao nível das famílias, quer ao nível das empresas”, explica Costa e Silva. E refere que tal medida já tinha sido preconizada por ele, enquanto ministro da Economia, no ano de 2024. “Era uma das minhas recomendações mais fortes ao nível das empresas: fazer a eletrificação das suas fontes de energia para poder diminuir a sua fatura energética”, relembra.
O caso português
A leitura oficial sobre a resiliência portuguesa é, nesta fase, de confiança. "Nós não temos petróleo, nem gás, mas há uma coisa que nós temos em abundância: temos sol, temos vento e temos água". Foi o que assegurou esta quinta-feira o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), José Pimenta Machado. Este desempenho, aponta, foi impulsionado, em grande parte, pela intensa chuva que permitiu encher as albufeiras nacionais. Acaba por ser um dos poucos efeitos positivos do comboio de tempestades que devastou grande parte da região Centro.
Portugal conseguiu que mais de 80% da eletricidade nos primeiros meses de 2026 viesse de fontes limpas. "O caminho de Portugal nas renováveis é o caminho certo", sublinha o líder da APA, destacando que a abundância de água e vento permitiu "limitar os custos da energia" para o consumidor. António Costa Silva elogia a aposta eficaz do país e lembra também que Portugal tem consumos baixos de gás: “Provavelmente o mais baixo desde 2003".
Se é verdade que a luz em casa está protegida, a energia que move a economia continua vulnerável. "As energias renováveis ainda representam apenas cerca de 36% do consumo final bruto de energia", recorda o antigo ministro. O resto, o que faz funcionar os camiões, os aviões e as grandes fábricas, continua a ser os combustíveis fósseis, sobretudo o petróleo e gás. “Nós não estamos a ser capazes de acelerar o processo de eletrificação dos transportes”, reitera o especialista.
A memória do choque petrolífero de 1973, com as "bichas nas bombas de gasolina", serve de aviso para o que pode acontecer se o Governo não atuar com a rapidez que a crise exige. Apesar do pacote de medidas estruturais aprovado há cerca de uma semana pelo Executivo de Luís Montenegro, António Costa Silva considera que é preciso que a resposta seja mais apressada. “Eu acho que é só comparar com Espanha, eu penso que o Governo tem sido muito lento a tomar medidas, é muito importante acelerar essas medidas”, declara, lembrando o pacote apresentado por Pedro Sánchez.
António Costa Silva recorda o comboio de tempestades que afetou o país durante três semanas, a partir do final de janeiro, e que teve um impacto relevante na economia nacional no primeiro trimestre. “Não podemos esquecer que esta crise energética se vem sobrepor à crise que já existiu com as tempestades”, revela o especilista em mercados energéticos.
"Não se pode estar à espera que o problema se resolva por si só", conclui António Costa Silva.