Depois do "choque interno" em Leiria, Portugal pode estar perto de um novo "choque externo". O economista Ricardo Ferraz garante que "há riscos e preocupações fundamentadas"
A cerca de 5 mil quilómetros do Irão, Portugal não viu, ouviu ou sofreu qualquer dano provocado pelo ataque dos EUA e Israel na madrugada de sábado. Contudo, a distância não vai ser capaz de travar o impacto de mais um conflito mundial na economia nacional e a vida dos portugueses pode estar prestes a ficar mais cara, sobretudo para quem tem créditos.
O economista Ricardo Ferraz diz que, para já, é "impossível quantificar" a extensão do impacto económico em Portugal, mas é possível antever possíveis desfechos com base no que já aconteceu no passado naquela região.
"Para já, há efeitos imediatos a nível global. Temos o preço do crude a subir acima de 80 dólares e não é de descartar que possa ultrapassar os 100 dólares. O preço do gás natural também já está a subir. As bolsas estão no vermelho, o que mostra que os investidores estão nervosos", enumera Ricardo Ferraz, alertando: "Se este problema não for resolvido rapidamente, poderemos aqui ter grandes problemas para a economia mundial e, consequentemente, para a europeia e também para a portuguesa."
O Irão está entre os grandes produtores de petróleo mundiais, mas talvez até mais decisivo para este eventual impacto económico à escala global sejam os 53,5 quilómetros marítimos que separam o Irão de Omã e dos Emirados Árabes Unidos. Pelo Estreito de Ormuz passam 20,1 milhões de barris de petróleo por dia ou, exposto de outra forma, a cada 24 horas passam por aquele canal 1,29 mil milhões de euros de petróleo. O problema é que, nestas 48 horas, o tráfego marítimo de petroleiros e cargueiros diminuiu cerca de 70% no Estreito de Ormuz, de acordo com o Marine Traffic.
Strait of Hormuz traffic drops sharply amid regional escalation
— MarineTraffic (@MarineTraffic) March 2, 2026
Vessel activity in the Strait of Hormuz has shifted materially following recent US strikes on Iran and the subsequent regional escalation. According to real-time traffic analysis, transits through the chokepoint… pic.twitter.com/COoh0W9jfk
Para Ricardo Ferraz, é inegável que "há preocupações fundamentadas" perante a instabilidade na região. O especialista destaca que já houve navios atacados por munições iranianas e isso é uma mensagem clara de Teerão para os capitães das embarcações. "Isto faz com que, a nível de seguros de navios e de carga transportada, os custos disparem, o que tem logo impacto nos preços", detalha.
"Havendo constrangimentos ao tráfego marítimo ou encerramento parcial há problemas para as várias economias, incluindo para a portuguesa que é uma pequena economia aberta e leva por tabelo", afirma.
A catadupa de aumentos que vão atingir a carteira dos portugueses vai começar por refletir-se no preçário das gasolineiras e, lembra Ricardo Ferraz, sempre que "se intensificar ou haja um escalar de tensões" haverá um novo eco nos preços dos combustíveis. A segunda réplica de aumentos será "um conjunto de outros bens", tal como aconteceu na sequência da invasão da Ucrânia, quando "os preços dispararam e nunca voltaram a ser os mesmos". "Houve uma taxa de inflação e não houve deflação, os preços subiram e estabilizaram os preços", explica o economista.
Perante a possível "inflação muito significativa", Ricardo Ferraz antecipa que os bancos centrais - o Banco Central Europeu (BCE) e a Reserva Federal dos EUA (FED) - vão ter a mesma resposta: "Voltar a aumentar as taxas de juros numa tentativa de controlar os preços." "Isto vai naturalmente impactar e trazer constrangimentos nos custos dos empréstimos", justifica.
Ricardo Ferraz salienta que é para já impossível definir-se se é o peixe, a carne ou os ovos que vão ficar mais caros, mas é certo que haverá um aumento de preços. A inflação generalizada começa nos combustíveis, para um conjunto alargados de bens, segue-se o aumento das taxas de juro do BCE, a prestação da casa fica mais cara e abre-se a porta para um novo período de menor crescimento económico à escala global.
"Se isto se prolongar no tempo, eventualmente se intensificar, se houver uma escalada a envolver outros países, há de facto aqui um sério risco de termos um novo aumento de preços, tal como sucedeu no caso da invasão da Ucrânia", refere o economista, alertando que tudo isto acontece numa altura em que "na Europa as coisas já não estão bem, com a Alemanha praticamente estagnada e a Zona Euro a crescer 1%".
Apesar do petróleo e gás natural do Médio Oriente não serem importações expressivas para Portugal, a economia nacional será indiretamente afetada, porque, apesar dos combustíveis fósseis nacionais advirem essencialmente de Nigéria, Argélia e Brasil, menos oferta faz com que o preço do barril aumente. "Temos o preço do crude a subir acima dos 80 dólares e pode vir a ultrapassar os 100, se continuar a subir isto necessariamente também afeta o preço do mercado e afetará Portugal por essa via", explica.
Apesar do pior dos cenários estar em cima da mesa, Ricardo Ferraz acredita que Portugal não está sob qualquer tipo de risco de entrar em recessão, lembrando ainda que há sempre uma pequena chance de todo este reboliço económico se dissipar. "Se se antecipar que isto vai ser sanado rapidamente, este problema ficará resolvido e, provavelmente, não teremos aqui uma grande subida e amanhã ou depois os preços até podem voltar a descer", diz.
Para Portugal, ainda assim, este acontecimento não podia ter vindo em pior altura. "Portugal sofreu um choque interno [com as recentes tempestades] em que as empresas da região de Leiria, muitas que são exportadoras, foram fortemente afetadas e agora temos um possível choque externo. Há aqui uma elevada incerteza. É difícil adivinhar se isto vai já gerar inflação. Agora, que há riscos há", garante Ricardo Ferraz.