Combustíveis foram só o princípio. Esta é "a perspetiva realista" e prepare-se porque a vida está prestes a ficar mais cara

6 mar, 15:11
Corrida aos combustíveis (Lusa/Mário Cruz)

Os consumidores foram acordados esta sexta-feira com uma notícia pesada: o gasóleo vai subir 23 cêntimos de uma vez só. Contudo, apesar de acordados, o pesadelo foi-se adensando. Associação Nacional de Transportadores Públicos e Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição: "É inevitável que haverá um aumento" com impacto "no cabaz de produtos que os consumidores normalmente utilizam"

O pior dos cenários da guerra no Irão para Portugal está lentamente a cumprir-se. As previsões do Automóvel Club Portugal apontam para um preço médio do gasóleo de 1,864 euros por litro e da gasolina simples 95 de 1,780 no início da próxima semana, aumentos de 23 e 7 cêntimos respetivamente. E pode ser apenas um preocupante princípio de uma crise maior.

Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), defende que "é preciso alguma frieza para analisar o que se está a passar", mas não esconde a apreensão perante o rumo económico provocado pelo conflito no Médio Oriente. "Quanto mais tempo o conflito durar, mais se poderão sentir os seus efeitos", explica, lembrando que será inevitável que estes sucessivos aumentos não acabem por ser pagos pelos consumidores através da inflação do preço de vários bens que vão sofrer "aumento progressivo que, não vai ser imediato, mas vai poder ser sentido nos próximos dois meses".

"Todas as empresas do retalho em Portugal estão a sofrer com este possível impacto do aumento do preço dos combustíveis", enaltece Gonçalo Lobo Xavier, que lembra que "os combustíveis são uma componente importante dos custos de transporte".

Preço dos combustíveis tem "um impacto muito significativo"

André Matias de Almeida da Associação Nacional de Transportadores Públicos (ANTRAM) começa por dizer que esta é apenas "mais uma situação que se vem repetindo ao longo dos anos”, no entanto, apesar de não ser algo novo para as mais de duas mil empresas de transportes representadas pela associação há "uma nuance importante": "Assistimos a um aumento de mais de 20 cêntimos por litro apenas numa semana" e este aumento brusco "tem um impacto muito significativo".

O advogado e porta-voz da ANTRAM explica que o gasóleo representa, em média, 35% da sua estrutura de custos das transportadoras e "tem um peso elevadíssimo para todas estas empresas" que acabará por ser pago pelos consumidores. "Não é difícil compreender que com o aumento substancial do preço do gasóleo tenha de haver naturalmente uma repercussão nos clientes", resume Matias de Almeida que esclarece que este aumento do preço dos produtos não será "exatamente similar". 

"Não é por haver um aumento de 15% no gasóleo que vai existir um aumento de 15% no preço dos alimentos e dos bens disponível. Mas, é inevitável que haverá e tem de haver um aumento para estas empresas responderem", diz.

Na terça, o economista Ricardo Ferraz anteviu, num artigo publicado pela CNN Portugal, dizia que esta catadupa de aumentos - originada pelo conflito no Médio Oriente e, sobretudo, pelos constrangimentos no tráfego de cargueiros e petroleiros no Estreito de Ormuz - que vai atingir a carteira dos portugueses iria começar por refletir-se no preçário das gasolineiras e confirmou-se. Ricardo Ferraz lembrava que esta não seria uma subida única ou esporádica, porque sempre que "se intensificar ou haja um escalar de tensões" haverá um novo eco nos preços dos combustíveis. O gasóleo e a gasolina são, no entanto, apenas o começo, sendo que a segunda réplica da subida de preços será "um conjunto de outros bens", tal como aconteceu na sequência da invasão da Ucrânia, quando "os preços dispararam e nunca voltaram a ser os mesmos". "Houve uma taxa de inflação e não houve deflação, os preços subiram e estabilizaram os preços", explica o economista.

A "perspetiva realista": vêm aí aumentos generalizados nos próximos meses

Gonçalo Lobo Xavier reconhece que a subida do preço dos combustíveis são um problema alargado e geral a toda a "cadeia de valor". APED lembra que este aumento brusco vai impactar os produtores agrícolas, a agroindústria, a rede logística e os transportes e atingir integralmente a cadeia de distribuição como um todo "têm impacto na constituição do preço de um produto".

Face ao estado de sítio, a APED acredita que a "inflação este ano vai ser superior a 2%" e adianta "a perspetiva realista" para os próximos tempos: "Nos próximos meses podemos vir a sentir um aumento no cabaz de produtos que os consumidores normalmente utilizam". 

Quanto a possíveis falhas de abastecimento nas prateleiras dos supermercados, Gonçalo Lobo Xavier defende que é, neste momento, "um cenário completamente fora de questão". "O que acontece é que há rotas globais que vão ter de ser revistas", explica.

Para a ANTRAM as medidas já anunciadas pelo Governo também não vão travar esta subida generalizada de preços. "As medidas são muito bem-vindas, mas o que acontece é que para este setor não têm nenhum impacto", porque, como explica André Matias de Almeida, o preço do gasóleo profissional continua abaixo do valor estabelecido pelo Governo que será alvo do desconto no ISP.

A exacerbar toda esta situação está ainda o facto de "Portugal não ser autossuficiente em matéria de alimentação". Gonçalo Lobo Xavier recorda que vivemos "num mundo em que dependemos todos das cadeias de valor de outras geografias".

"Não há o risco, como não houve na guerra da Ucrânia, de falha de produtos nas prateleiras. Houve sim a necessidade de toda de logística da distribuição de retalho em Portugal e na Europa de se ajustar. O que evidentemente tem custos", culmina o diretor-geral da APED.

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