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Economista; Professor Associado e Coordenador na Universidade Europeia; Investigador Integrado no CETRAD

Abril e a Europa em alerta energético

27 mar, 17:47

Com as forças em conflito e a fragilidade das cadeias de abastecimento, é natural que nos preparemos para enfrentar o pior

A Europa entra numa fase em que a energia deixa de ser um dado adquirido. Com as tensões geopolíticas a aumentar e cadeias de abastecimento cada vez mais frágeis, a segurança dos combustíveis já não é garantida. Abastecer o carro, aquecer a casa ou transportar mercadorias pode tornar-se um desafio concreto nos próximos meses.

O alerta chegou de Wael Sawan, líder da Shell. Sawan avisou que o continente enfrenta vulnerabilidade real no abastecimento de combustíveis refinados. Não é uma ameaça imediata. Não há filas visíveis nas bombas. Mas há sinais claros de erosão na margem de segurança que até aqui parecia sólida.

No epicentro da tensão está o Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde circula grande parte do petróleo mundial. Um bloqueio prolongado ali não afeta apenas o crude. Afeta o ritmo com que as refinarias europeias recebem matérias-primas e a velocidade com que o diesel, a gasolina e o combustível de aviação chegam ao mercado.

Abril surge no horizonte como o mês crítico. Se a perturbação persistir, os preços do diesel continuarão a escalada, pressionando ainda mais transporte e logística. Logo a seguir, a aviação sentirá os efeitos, com custos mais altos e voos mais caros. O transporte rodoviário sofrerá impacto redobrado, refletindo-se nos preços de produtos essenciais. E a gasolina doméstica continuará a encarecer significativamente, atingindo direta e severamente os consumidores.

Apesar da posição atlântica, Portugal acompanha a mesma dinâmica que agita o resto da Europa. Um aumento sustentado nos custos internacionais traduz-se rapidamente em pressão sobre as bombas, nos fretes marítimos e nos custos de produção. Em energia, a perceção conta tanto quanto a realidade. A simples expectativa de menor oferta desencadeia compras defensivas, ajustamentos de stocks e volatilidade nos preços.

Hoje, ainda nenhum operador europeu fala em necessidade inequívoca de racionamento. Mas poucos garantem estabilidade absoluta no curto prazo. O que parecia garantido pode tornar-se volátil. Abril pode não trazer uma crise visível, mas poderá assinalar o início de uma nova era: em que a energia deixa de ser apenas uma questão de preço e volta a ser um tema de segurança económica.

Quando os líderes do setor usam essas palavras, os mercados escutam antes dos consumidores. E essa escuta silenciosa começa automaticamente a moldar decisões, preços e comportamentos em toda a Europa.

Com as forças em conflito e a fragilidade das cadeias de abastecimento, é natural que nos preparemos para enfrentar o pior.

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