Telma tentou ir de comboio para o trabalho. Voltou para casa: nas estações encontrou elevadores avariados e a cadeira de rodas não cabia noutro

4 jan, 13:00

O destino era Roma-Areeiro, mas avisaram-na que o elevador estava avariado. Na alternativa, em Entrecampos, estaria “tudo bem”. Telma Mendes começou a fazer o caminho inverso. E acabou em casa. A Infraestruturas de Portugal explica que equipamentos foram afetados pelas cheias em Lisboa e não tem data fechada para a reparação.

Era o primeiro dia de trabalho de Telma Mendes em 2023. Como é hábito, nesta terça-feira, dia 3, esta técnica de apoio a investidores de uma empresa da área de energia, apanhou o comboio na estação do Fogueteiro para rumar ao escritório em Lisboa. A saída habitual era a estação de Roma-Areeiro.

Mas, a meio do caminho, foi avisada pelo operador da Fertagus de que o elevador daquela estação estava avariado. Pensou logo na alternativa: a estação anterior, de Entrecampos.

“Pedi para confirmar se o elevador de Entrecampos estava a funcionar. Porque a 21 de dezembro, quando precisei de ir a uma consulta no Hospital Curry Cabral, estava avariado. Disseram-me que, em princípio, estava tudo bem”, conta.

O problema é que não estava. “Quando chego ao elevador, tinha lá o cartaz de avariado”. Sem alternativa, ficou no cais à espera que algum segurança a viesse auxiliar. Só que essa ajuda demorou a aparecer - só após várias tentativas, uma delas com um maquinista de um comboio. "Sente-se um bocadinho de pânico", confessa.

Telma Mendes, 48 anos, teve de esperar que chegasse outro comboio. O plano era tentar a outra alternativa, a estação de Sete Rios, começando a recuar no percurso que tinha feito. Com ajuda, entrou no comboio, mas foi avisada pelo operador da CP de que a saída em Sete Rios poderia ser conturbada, devido ao espaço entre o cais e o comboio. “Com a ajuda dele e de outra pessoa, lá consegui sair”.

A história não termina aqui. Ao chegar ao elevador, percebeu que a cadeira de rodas, com um propulsor elétrico, não cabia no interior. Ainda tentou girar a roda do propulsor para chegar mais à frente e até tirou a mochila das costas. Mas o elevador não fechava.

Procurou um contacto telefónico para pedir ajuda, mas não encontrou. Nenhum segurança apareceu para a ajudar. Então, só havia uma coisa a fazer: voltar para casa. Mal passou um comboio da Fertagus, com paragem no Fogueteiro, entrou, com a ajuda de um passageiro.

Desde 2019 que Telma Mendes utiliza este transporte público para chegar ao trabalho. Elogia a atenção e o apoio de todos os técnicos com quem se foi cruzando em todos estes meses. À entrada de cada viagem, diz, avisa sempre os técnicos, para que no destino saibam que ela segue no comboio e lhe possam prestar a ajuda necessária no destino. Porque, mesmo quando o elevador avariava em Roma-Areeiro, havia tempo para ir para a alternativa, em Entrecampos.

Telma Mendes ainda ponderou fazer cerca de três quilómetros em cadeira de rodas entre Sete Rios e a Avenida Estados Unidos da América, onde trabalha. “O problema são só as pernas. Eu ando numa cadeira de rodas, mas consigo raciocinar e fazer escolhas”. Desta vez, nem essa opção teve.

Afetados pelas cheias

Contactada, a Infraestruturas de Portugal, que gere as estações de comboio, “lamenta esta situação” e explica que os equipamentos foram afetados pelas cheias de dezembro em Lisboa.

“Atualmente encontram-se imobilizados cinco elevadores nas estações referidas (Sete Rios, Roma-Areeiro e Entrecampos)”, confirmou. A empresa admite que, apesar dos esforços na reparação, “dada a gravidade dos danos, o tempo de imobilização será prolongado”.

Já sobre a dimensão do elevador de Sete Rios, garante que “todos os elevadores instalados nas estações têm cabines que obedecem ao dimensionamento legalmente previsto para acesso a cadeira de rodas”.

A empresa insiste que foi afixada informação junto dos elevadores, admite que esses cartazes possam ter sido vandalizados, mas promete “reforçar a informação”.

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