"Sim, estou aqui. Estou com um bebé": como um sussurro entre os escombros salvou um recém-nascido após o sismo na Colômbia

CNN , Rocío Muñoz-Ledo e Helen Regan
12 ago, 07:16
Resgate de um bebé após um sismo na Colômbia. CNN
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O sismo foi o mais forte a atingir a Colômbia em mais de uma década

Quando o sismo de magnitude 7,4 atingiu a Colômbia na segunda-feira, Brian Osorio Zuluaga saiu do seu escritório em Cali e dirigiu-se rapidamente para casa de mota.

A visão de um edifício residencial de cinco andares desmoronado obrigou-o a parar.

“Era um grande complexo, que ocupava um quarteirão inteiro”, contou Osorio à CNN.

O sismo foi o mais forte a atingir a Colômbia em mais de uma década e levou os moradores e vizinhos do edifício, La Torres del Limonar, a fugir para a rua, “alguns em roupa de dormir ou pijamas; alguns a chorar, outros em choque”, contou Osorio.

Aproximou-se dos escombros e começou a gritar para o interior, à procura de sobreviventes, apesar dos avisos sobre uma possível fuga de gás.

De repente, pediu silêncio às pessoas que estavam à sua volta. Um som ténue surgiu dos destroços — quase um sussurro.

“Sim, estou aqui. Estou com um bebé”, respondeu uma voz masculina.

Osorio descreveu como ele e várias outras pessoas começaram a retirar os escombros com as mãos para chegar aos dois. No entanto, uma grande placa de betão bloqueava o caminho.

Sismo na Colômbia (Ivan Valencia/AP)

“Na primeira tentativa, não conseguimos levantá-la”, disse. Depois, “levantámos todos juntos — um, dois, três, para cima”.

A placa era demasiado pesada para ser afastada, e Osorio receava que houvesse mais pessoas presas por baixo. Alguns voluntários mantiveram-na levantada enquanto outros abriam caminho até ao bebé.

“É possível ver a pequena cabeça do bebé ali — que, naquele momento, parecia meio arroxeada porque ele não conseguia respirar”, contou Osorio. “Assim que começámos a retirar os escombros, o bebé começou a… respirar, e a cor começou a voltar”.

Um vídeo do extraordinário resgate, filmado por Osorio, mostra o pequeno bebé, vestido com um body coberto de pó, a ser cuidadosamente retirado dos escombros. Um homem, com o braço ensanguentado, aparece deitado de lado, ainda parcialmente preso sob uma placa de betão.

Osorio disse que lhe entregaram o bebé, um rapaz, e que este foi entregue a um agente da polícia, que o levou para uma ambulância. De seguida, concentraram-se em libertar o homem que continuava preso.

Entre os escombros, Osorio disse ter visto roupa, sapatos e um peluche cobertos de pó. Pensou nas pessoas que poderiam continuar presas.

“Todos esses pensamentos passam pela cabeça”, disse.

A coragem de todas as pessoas que correram para ajudar foi determinante para salvar a vida do homem e do bebé.

“A união faz a força, porque uma só pessoa nunca conseguiria levantar aquele pedaço de escombros; era tão grande e tão pesado”, afirmou.

“É melhor agir do que ficar parado”, acrescentou Osorio. “Qualquer ajuda conta”.

Operações de resgate entram no terceiro dia

As operações de busca e salvamento entraram no terceiro dia na manhã de quarta-feira, enquanto as equipas de emergência corriam contra o tempo para encontrar mais sobreviventes depois de o poderoso sismo ter atingido o oeste da Colômbia e provocado mais de 200 mortos, segundo uma contagem da CNN baseada em informações de autoridades.

O sismo atingiu o coração da região produtora de café do país e mergulhou várias comunidades num cenário de catástrofe nacional, enquanto líderes mundiais ofereceram ajuda e assistência.

A União Europeia mobilizou o seu serviço de satélite Copernicus e está a disponibilizar financiamento para apoiar a resposta, afirmou a chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas.

Em Cali, uma mulher foi retirada debaixo de uma montanha de escombros na terça-feira, perante os aplausos das pessoas, enquanto bombeiros a transportavam numa maca após uma complexa operação de salvamento internacional.

Em Pereira, uma equipa da CNN no local viu equipas de resgate e voluntários formarem uma corrente humana para retirar os destroços e ajudar a salvar pessoas presas num edifício de apartamentos.

“Há pessoas que entraram para ajudar e é possível ver que estão vestidas com tudo, desde roupa desportiva a calções e sapatilhas — não estavam preparadas para isto”, afirmou o correspondente nacional sénior da CNN, David Culver, a partir do local. “Vimos cenas como esta espalhadas por Pereira. Esta é uma das zonas mais afetadas”.

Mas no epicentro do sismo de segunda-feira, Chocó, um líder indígena disse à CNN que a ajuda ainda não chegou à região, a mais pobre da Colômbia.

Victor Chamapuro, líder da Reserva Indígena Wounaan “Buenavista”, no Litoral del San Juan, em Chocó, afirmou que “todas as nossas casas estão no chão”.

“Onde vamos dormir agora? Temos de estar alerta, estamos a dormir lá fora”, disse.

Chamapuro apelou às autoridades para enviarem alimentos e medicamentos, indicando que uma pessoa da comunidade ficou ferida.

A reserva “Buenavista” só pode ser alcançada de barco, numa viagem de cinco horas a partir do porto de Buenaventura, na costa do Pacífico colombiano.

Um vídeo enviado por Chamapuro a partir da reserva mostra edifícios destruídos, aparentemente construídos em madeira e chapas de ferro onduladas. Outros continuam de pé, mas apresentam diferentes níveis de danos.

O sismo é um dos primeiros grandes desafios para o novo Presidente colombiano de extrema-direita, Abelardo de la Espriella, que tomou posse apenas na semana passada e prometeu combater de forma dura os grupos criminosos e os militantes de esquerda na Colômbia.

De la Espriella anunciou na terça-feira medidas de apoio económico para as pessoas afetadas pelo sismo, bem como apoio financeiro para quem perdeu a sua casa e precisa de arrendar uma habitação temporária.

Ivonne Valdes, Michael Rios, Maureen Chowdhury, Mauricio Torres, Caroll Alvarado e Gonzalo Zegarra, da CNN, contribuíram para este artigo.

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