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"Temos de saber porquê": foi feito um pedido "não muito recomendável" ao avião que acabou por colidir com helicóptero em Washington, D.C.

30 jan 2025, 18:00

Morreram todas as pessoas que seguiam a bordo do avião (64) e do helicóptero. Eram 20:47 (01:47 em Portugal Continental) quando um avião comunicou com a torre de controlo de tráfego áereo: "Torre, viu aquilo?" "Aquilo" era uma explosão depois da colisão entre um avião comercial da American Airlines, com 64 pessoas a bordo, e um helicóptero militar Black Hawk do Exército dos EUA, com três pessoas a bordo

“Tudo me leva a crer que houve um erro do controlo de tráfego aéreo” que resultou na colisão entre um avião comercial e um helicóptero militar no aeroporto Ronald Reagan, em Washington, D.C., EUA.  Esta é a análise preliminar de José Correia Guedes, antigo comandante da TAP e especialista em aviação, e do especialista militar Isidro de Morais Pereira, ressalvando à CNN Portugal que ainda há muitas questões por esclarecer.

Entre essas questões está o porquê de o controlo de tráfego aéreo ter ordenado ao avião comercial, que seguia com 64 pessoas a bordo, que aterrasse na pista 33 em vez da pista 1, para a qual estava destinado inicialmente. “Temos de saber porque é que ele pediu ao avião para mudar de pista, porque o avião ia aterrar na pista maior e ele [controlador de tráfego aéreo] pediu para aterrar na pista mais pequena”, diz José Correia Guedes, argumentando que, apesar de este “não ser um procedimento anormal”, “não é muito recomendável, principalmente à noite”, uma vez que “uma mudança destas só se faz em contacto visual”.

“De noite isto cria muitos problemas porque há muitas luzes ali à volta e fica difícil identificar a pista, outros aviões, etc. Portanto, não é muito boa a ideia”, argumenta o antigo comandante da TAP. Sendo assim, acrescenta, “terá de haver uma razão para que essa ordem tenha sido dada - temos de saber porque é que isso foi feito”. 

José Correia Guedes explica que “a responsabilidade” do tráfego aéreo é “do mesmo controlador”, ou seja, foi a mesma pessoa que comunicou com o avião da American Airlines e com o helicóptero Black Hawk do Exército dos EUA, que seguia com três pessoas a bordo. “Cada controlador tem uma determinada área sob a sua jurisdição. Portanto, ele sabe que está lá o helicóptero”, diz, lembrando a gravação em áudio da comunicação feita ao helicóptero, que designou por PAT25.

É neste ponto que surgem mais dúvidas, uma vez que, segundo José Correia Guedes,  PAT25 é “um código que quer dizer Priority Air Transport”, ou seja, para “o transporte de VIP ou material de urgência”. Só que também há relatos de que o helicóptero estaria numa missão de treino, algo que José Correia Guedes diz não compreender. “Acho espantoso fazer um voo de treino às 20:00 sobre a cidade mais vigiada e mais segura do mundo. Acho muito estranho, mas quem sabe? Pode acontecer.”

Na gravação, já depois de ter dado ordem ao avião comercial para aterrar na pista 33, o controlador de tráfego aéreo comunica com o helicóptero. “PAT25, tem um CRJ à vista? PAT25, passe atrás do CRJ”, ouve-se no áudio, às 20:47 de quarta-feira (01:47 em Portugal Continental).

Mas o controlador de tráfego aéreo não recebe resposta. Segundos depois, um outro avião comunica com a torre de tráfego aéreo: “Torre, viu aquilo?”.

“Aquilo” foi a explosão em pleno ar sobre o rio Potomac, decorrente da colisão entre o avião da American Airlines e o helicóptero Black Hawk. No total, os dois transportavam 67 pessoas. À hora do acidente, ouve-se do controlo de tráfego aéreo: "Crash, crash, crash, este é um alerta três”.

“Há aqui certamente algum erro humano”, acredita o major-general Isidro de Morais Pereira, salientando que o Black Hawk “é um dos helicópteros mais fiáveis do mundo”.

“O que me parece estranho é como é que o piloto do helicóptero não se conseguiu aperceber de que estava um avião a aproximar-se e vice-versa”, acrescenta o especialista militar.

José Correia Guedes diz que, com a informação existente, “não havia nada que os pilotos pudessem ter feito para evitar a colisão”, sublinhando que o avião comercial seguia a uma “velocidade na ordem dos 250km/h” e, uma vez que estava a aproximar-se do aeroporto, seguia “a baixa altitude, a 200 pés, sensivelmente”. Os aviões comerciais têm um dispositivo chamado TCAS “que alerta para a possibilidade de colisão”, explica o antigo comandante. “Só que esse sistema fica inibido abaixo dos 1.000 pés de altitude, quando o avião vai a aterrar”, acrescenta.

O Departamento de Defesa dos EUA iniciou de imediato uma operação de busca e salvamento no rio Potomac, mas sem sucesso. Horas mais tarde, as autoridades confirmaram que não há sobreviventes. Tendo em conta que a temperatura exterior na altura do acidente era de cerca de 4ºC, a hipótese de sobrevivência na água seria de cerca de 20 minutos, segundo a Guarda Costeira dos EUA.

Entretanto, uma equipa de mergulhadores conseguiu recuperar uma das caixas negras do avião comercial. “Estas caixas negras estão equipadas com um emissor que é automaticamente ativado quando entra contacto com a água e transmite um sinal que permite aos mergulhadores encontrá-la”, explica José Correia Guedes, sublinhando que “o que mais importa ouvir são as instruções dos controladores e o que é que os pilotos responderam”. “Porque não me parece que tenha ocorrido uma avaria mecânica, pelo menos da parte do avião.”

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