Cole Thomas Allen planeou durante semanas o ataque armado ao jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, onde estava Donald Trump. O suspeito entrou armado no hotel, disparou na direção do salão, falhou o alvo e acabou detido após agentes dos serviços secretos abrirem fogo. Um dos agentes disparou cinco tiros e falhou todos
Um agente dos serviços secretos viu um suspeito que empunhava uma caçadeira disparar na direção das escadas do hotel que levavam ao salão onde o presidente Donald Trump, membros do seu governo e alguns dos principais jornalistas do país se tinham reunido no sábado para o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca. A alegação foi feita por procuradores federais numa nova acusação apresentada em tribunal esta quarta-feira.
A acusação, que expôs o argumento dos procuradores para manter o alegado atirador Cole Thomas Allen detido enquanto aguarda julgamento, ofereceu uma cronologia mais detalhada do tiroteio do que era anteriormente conhecido, juntamente com uma descrição exaustiva do armamento que tinha reunido.
Os procuradores argumentaram que não existia "nenhuma combinação de condições que razoavelmente assegure a segurança da comunidade" caso o suspeito fosse libertado, apontando para os seus extensos preparativos e para a possibilidade - evitada por "boa fortuna" - de poder ter morto pessoas e causado danos graves.
Chamaram ao plano um ato de "violência política extrema".
"A escolha dos alvos pelo arguido demonstra a natureza profundamente perigosa da sua conduta", escreveram os procuradores. "A tentativa de homicídio é sempre um crime grave, mas quando a vítima pretendida é o presidente dos Estados Unidos, bem como outros altos membros do governo dos EUA, as potenciais consequências são vastas."
Mais tarde no mesmo dia, os advogados de Allen queixaram-se numa apresentação ao juiz responsável pelo caso de que estão a ter dificuldades em reunir-se com ele, uma vez que o diretor da prisão de Washington, DC, o mantém em confinamento.
Até agora, Allen falou com os advogados apenas através de um telefone da prisão, a partir de uma cela trancada, onde está fisicamente restringido de várias formas, segundo os seus advogados.
"Como o Tribunal sabe, a Cadeia de DC acolheu muitos arguidos de elevado perfil. Mas nenhum - do conhecimento da defesa - viu negado este direito essencial da forma como os advogados experienciaram a 28 de abril”, escreveram. "O prejuízo para a sua defesa cresce a cada hora que passa."
Os defensores públicos que o representaram na primeira audiência no início desta semana referiram em tribunal que não tinha antecedentes criminais.
Um mês de preparação
Allen, de 31 anos e natural da Califórnia, está acusado de tentar assassinar o presidente e de outros crimes relacionados com o tiroteio. Ainda não apresentou qualquer declaração no processo.
Os procuradores federais alegaram que chegou a Washington, DC, após uma longa viagem de comboio através do país, aproximando-se depois do salão de baile do Washington Hilton no sábado à noite com aquilo que descreveram como um "verdadeiro arsenal". Isso incluía uma caçadeira de ação por bombeamento calibre 12, uma pistola calibre .38, várias facas e punhais e uma quantidade significativa de munições para recarregar, segundo a nova acusação.
Segundo a versão dos procuradores federais, o planeamento de Allen começou semanas antes do jantar. A 6 de abril, pouco mais de um mês depois de Trump anunciar que iria estar presente, Allen procurou informações sobre o evento e depois reservou uma estadia de duas noites no Washington Hilton durante o fim de semana em que este se realizaria.
Os procuradores federais alegaram que pesquisou o jantar, o horário, o anfitrião e os participantes esperados.
Quatro dias antes do ataque, a 21 de abril, Allen partiu de Los Angeles num comboio de passageiros da Amtrak que o levou até Chicago, segundo a acusação judicial. A 23 de abril, diz a acusação, embarcou num segundo comboio para Washington, DC.
Durante a viagem de Chicago até à capital do país, Allen passou o tempo a ler um artigo de um jornal de DC intitulado "Social Scene: Your Guide to the 2026 White House Correspondents Dinner Weekend", segundo a acusação judicial. Chegou à Union Station a 24 de abril, depois de apanhar o metro até Dupont Circle e fazer o check-in no Hilton - que acolhia o jantar - aproximadamente às 15:15, segundo a acusação.
O dia do jantar
No dia do jantar, de acordo com a acusação, Allen saiu várias vezes do quarto e pesquisou no telemóvel o horário do presidente.
Aproximadamente às 20:03, tirou uma fotografia a si próprio refletido no espelho do quarto de hotel, onde mostra armas presas ao corpo.
Depois de verificar pela última vez o horário do presidente, Allen saiu do quarto aproximadamente às 20:15, diz a acusação. Cerca de 12 minutos depois, estava a ver vídeos em direto em sites de meios de comunicação que mostravam a chegada do presidente ao hotel. Os procuradores federais disseram que programou previamente um email a explicar as suas intenções para chegar às caixas de entrada de familiares, amigos e de um antigo empregador às 20:30.
O ataque
Minutos depois de ver no telemóvel a chegada do presidente ao hotel, aproximadamente às 20:30, Allen aproximou-se do posto de controlo de segurança um piso acima do salão onde o presidente, membros do governo e elementos da comunicação social estavam sentados, segundo a acusação. Antes de chegar ao posto de controlo, despiu o casaco comprido preto, revelando a caçadeira que transportava, diz o documento. Depois correu através do posto de controlo em direção ao salão - uma investida captada através de um vídeo divulgado por Trump na noite do tiroteio.
Enquanto corria para as escadas, ergueu a caçadeira e um agente dos serviços secretos relatou que observou o homem "disparar a caçadeira na direção das escadas que conduziam ao salão". O documento diz que o mesmo agente "e outros no posto de controlo ouviram o disparo".
O agente disparou cinco vezes contra Allen, sem que nenhuma das balas o atingisse. Allen caiu no chão e foi pouco depois detido, conclui o documento da acusação.