“Isto é o Tony Carreira dos ingleses”. Rui tatuou "Fix You" no braço, Matilde faltou ao teste de Ciências, Mariana não dormiu a noite toda. Os fãs de Coldplay invadiram Coimbra

17 mai 2023, 18:45
Concerto dos Coldplay em Coimbra. 17 de maio de 2023. Foto: Wilson Ledo

When you try your best… às vezes, consegues. Os fãs de Colplay sabem isto muito bem. Porque, para verem Chris Martin e companhia, não tiveram problemas em ir de madrugada para as filas para conseguir um bilhete. Essa, dizem, foi a verdadeira maluquice. Esperar ao sol, agora, é o que custa menos. Há filhos que arrastam os pais. E pais que arrastam os filhos. E, entre a multidão, uma canção preferida: Fix You

Há canções que nos dizem tanto, ao ponto de as querermos gravar para sempre na pele. No braço de Rui Fernandes, toca sempre Fix You. Tatuou-a aos 17 anos, sem a autorização dos pais. Ele sabia porque o fazia.

“É aquela música que me acalma. Quando procuro calma, é esta. Mas em todas as músicas de Coldplay, consigo encontrar algo da minha vida”, diz. Na barriga de uma das pernas, tem tatuada outra canção da banda britânica, Yellow.

Hoje é a primeira vez que vê Chris Martin e companhia. Sara Lopes é a companhia para esta aventura. Vêm de Vizela. Há, entre os outros fãs que passam, quem lhe pergunte onde comprou a t-shirt com o mais recente álbum dos Colplay “Music of the Spheres”. “Mandei vir do site deles”, responde com um sorriso.

Rui Fernandes e Sara Lopes foram de Vizela a Coimbra para ver Coldplay. Foto: Wilson Ledo

Da barriga da mãe para os ombros do pai

A primeira vez que Matilde assistiu a um concerto dos Coldplay foi na barriga da mãe. No Estádio do Dragão. Foi há 11 anos. Na altura, a gravidez levou Ana Alves a escolher um lugar sentado no sossego da bancada. Hoje, faz questão de estar no relvado, no meio da multidão.

Ela é a principal fã, admite. “A minha filha também queria vir. Até faltou ao teste de Ciências. Faz na sexta-feira. A professora deixou”, conta. A família saiu de Vila Real às cinco da manhã. Vieram diretos para junto das cancelas, para conseguir estar o mais perto possível do palco.

As letras podem não estar todas decoradas na perfeição, mas o que conta é mesmo a energia. Os refrões simples que todos, de uma forma ou outra, reconhecem. Vale a pena todo o esforço que se faz por dias como estes. Mesmo que, a meio do concerto, Matilde queira subir para cima dos ombros do pai Fernando para, no calor da multidão e não do útero da mãe, criar esta memória.

Matilde assistiu ao primeiro concerto de Coldplay ainda na barriga da mãe. Foto: Wilson Ledo

"Não podemos morrer sem ver Coldplay"

Faz-se de tudo para chegar a horas. Até vir de véspera. Matilde Palacino e Joana Coutinho capricharam no look. Mas, com o passar das horas, numa espera longa, há que ir retocando. O carro, estacionado a poucos metros do Estádio Cidade de Coimbra serve-lhes de casa improvisada. É que elas vieram ontem à uma da manhã para guardar lugar. Mas perceberam que, afinal, não era preciso tanto.

A bagageira do carro é uma casa improvisada. As malas ocupam o espaço todo. Há garrafas de água e uns snacks para enganar a fome. Mas também desodorizante e protetor solar. Porque o sol, mesmo no glamour de um concerto, faz das suas.

“Eu não sou grande fã, mas os concertos são aquela coisa. Não podemos morrer sem ver um”, diz Joana. A amiga lembra que foi para as filas ainda o dia não tinha raiado, à custa do irmão. “Sou a fã número dois”, brinca. E, por isso, quando ouvir Fix You e Viva La Vida vai fazer de tudo para mostrar que, afinal, ela é mesmo a número um. Como todos os que entram nestas filas.

Matilde e Joana chegaram cedo demais à fila, mas abasteceram o carro para aguentar as longas horas até ao concerto. Foto: Wilson Ledo

Quem arrasta quem? Toda a gente sabe bem

Há os pais que acompanham os filhos. E há os filhos que acompanham os pais. Histórias de quem se diz “forçado” a vir ao concerto que todos queriam. Mas que no fundo, e não tão no fundo, queria mesmo estar aqui. Foi uma maluqueira para todos comprar bilhetes. Lembra-se quem ficou na cama a dormir, bem descansadinho, enquanto os outros iam para as assustadoras filas para conseguir bilhete.

Mário é o pai. Ana é a mãe. Juntos tiveram Mariana e, juntos, construíram-lhe o nome. Mário e Ana. Mariana. Ela não dormiu a noite toda. “Era um entusiasmo muito grande”. Vieram de Lisboa, diretos para a fila.

E, se não fossem as piadas, o tempo custava mais a passar. “Isto é o Tony Carreira dos Ingleses”, brinca o pai. Até se arranjam as teorias mais originais para o facto de não haver concerto dos Coldplay na sexta-feira: o regresso dos portugueses Excesso, com um concerto no Altice Arena.

A filha não entra tanto na brincadeira. Mas sabe explicar bem o que têm os Coldplay de especial: “têm uma relação muito grande com o público. São muito verdadeiros”.

Mário é o pai. Ana é a mãe. Juntos tiveram Mariana e, juntos, construíram-lhe o nome. Mário e Ana. Mariana. Foto: Wilson Ledo

Coimbra ou Barcelona? A cidade do encanto, claro

Há um sotaque especial na fila. Espanhol. Damos com David Pérez, no meio das filas, com um guarda chuva aberto. É para protegê-lo, a ele e aos amigos, do sol. Quando deram por si, eram 50 num autocarro. Vêm da Galiza e só esperam que o espetáculo “seja bom”.

Da Galiza, veio um autocarro com 50 fãs. Foto: Wilson Ledo

Escolheram Coimbra porque sempre era mais perto do que Barcelona, outro dos pontos da digressão europeia da banda de Chris Martin. Tal como Iván Zafra e os amigos, vindos de Madrid.

Sentam-se em círculo, atiram as cartas, à espera de que a grande hora chegue.

“Para Barcelona são sete horas, para aqui seis”. E o que os leva a um caminho tão longo? “A música dos Colplay relaxa-me”. Eles são mais fãs das antigas, “são as melhores”. The Scientist, Yellow, Fix You.

Coimbra fica mais perto de Madrid do que Barcelona. Estes fãs vieram da capital espanhola. Foto: Wilson Ledo

On/off

Pelas 15:30 ouvem-se os primeiros testes de som. You, you are, my universe… E a multidão agita-se. Estão mais perto, cada vez mais perto. Há água, há cerveja, há Coca Cola, há protetor solar.

“Alguém tem de ser o agueiro”, diz Tiago Neves. O bilhete para o concerto foi a prenda do dia do pai “atrasada”. Mas é uma prenda que traz água no bico: é ele quem tem de olhar pelas filhas e pelas amigas.

As raparigas esperam que o concerto as faça “chorar”. “Emocionar”, corrige Tiago Neves. “Para ficar mais bonito no artigo, diz-se emocionar”. E elas sabem o momento ideal para isso. A Sky Full of Stars, quando a banda as vai desafiar a desligar os telemóveis e viver o momento. À boa moda antiga, como no tempo dos pais.

Tiago Neves, por sua vez, quer ver a tecnologia a entrar no concerto. Quando se ouvirem os primeiros acordes de Yellow, é a pulseira que vai levar num dos braços que ele quer ver acender-se e tornar-se na cor deste clássico da música.

Presente envenenado? A prenda do dia do pai de Tiago Neves foi acompanhar as filhas e as amigas ao concerto. Foto: Wilson Ledo

"Merchandising" caseiro

Quando não se está em casa, pode ser mais difícil encontrar a entrada. É que Mónica Maia e a família vêm do Porto. “Ela é que veio ao arrasto da mãe. Eu estou numa ansiedade tal. É o meu primeiro concerto”, diz.

Pelo menos, o primeiro concerto desta dimensão. Porque, nas festas da terra, sempre que pode está lá. Vieram todos vestidos a rigor, cada um com a sua t-shirt. Não há uma igual à outra. Uma chegou ontem dos Estados Unidos, mesmo a tempo do concerto. Mas as outras foram feitas numa gráfica, para serem mais baratas. Ninguém nota a diferença. Porque, para investimento, já bastou o bilhete.

Nesta família, só uma das t-shirts faz parte do "merchandising" oficial dos Coldplay. Foto: Wilson Ledo

Na espera para um concerto, o chão e a sombra podem ser os melhores aliados. Os Barbosinhas e os Afonsinhos sabem disso bem. Fugiram da confusão das filas. Afinal, há lugar para todos, entre-se a que horas for.

Ainda trabalharam umas horas esta manhã em Braga. Primeiro a obrigação, depois a devoção. Gisela sabe as letras de cor, foram muitos anos a treiná-las. "Os Coldplay são os novos U2. O que têm de especial é a simplicidade e a humildade. Eles estão na linha do povo”, diz.

Os Barbosinhas e os Afonsinhos vieram, sem pressa, de Braga. Há lugar para todos dentro do estádio. Foto: Wilson Ledo

Seguir o dinheiro

Longe da envolvente do estádio, há uma outra Coimbra que foge a esta confusão. No caminho a pé, do Mondego ao Estádio Cidade de Coimbra, há ruas vazias e restaurantes cheios de lugares para ocupar. Passam os autocarros especiais, marcando a diferença do dia.

Porque este não é um dia como o outro. Ao volante, Marcus sabe que não é. O sotaque é brasileiro mas ele vive na Nazaré. Hoje, trabalha em Coimbra, a conduzir um TVDE. Há muita gente que, apesar de toda a rede de transportes públicos reforçada, não abdica do conforto do carro. “Em meio dia aqui, faço o mesmo de um dia lá. Temos de vir para onde está o dinheiro”.

Hoje o dia só acaba quando não houver mais ninguém para transportar. Na rádio vão passar muitas vezes as canções de Colplay. E ele espera assistir ao sorriso daqueles que viveram a experiência. Quando a obrigação fala mais alto, é o mais perto que se pode estar.

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