"Estamos numa guerra que escalou para outras dimensões". Portugal virou "hotspot" da entrada de cocaína e "a ameaça é muito séria"
Até agora já foram apreendidas mais toneladas de cocaína em Portugal do que em todo o ano passado. Sinal de várias coisas, mas também, de que o nosso país passou a ter um papel ainda relevante na entrada de droga no mercado europeu
Um helicóptero aproxima-se de um cargueiro cheio, um homem desce em rappel até ao navio e começa uma grande operação. Foi o que aconteceu esta terça-feira ao largo da costa portuguesa, mais de mil quilómetros para dentro do mar.
As imagens foram partilhadas pela Polícia Judiciária, que liderou uma operação que também contou com a Marinha, a Força Aérea e as autoridades espanholas. Tudo para apanhar cinco toneladas de cocaína que vinham escondidas num navio que tinha anteriormente atracado no porto de Colón, no Panamá, e que seguia para Tânger, em Marrocos.
A paragem em Portugal foi, portanto, um imprevisto com o qual a rede que tentava fazer entrar toda esta droga não contava. Cinco toneladas de cocaína que elevam para 28 toneladas apreendidas em 2026, o que é um valor já bem acima das 25 toneladas encontradas em todo o ano de 2025.
E como se explica isto? Simples: Portugal tornou-se um “hotspot” para a entrada de cocaína na Europa. Droga que vem da América do Sul e que, para chegar ao Velho Continente, tem Matosinhos ou Sines como portas primordiais.
Gil Carvalho nota que “começa a ser vulgar a apreensão de quantidades desta natureza”. O ex-inspetor da Polícia Judiciária recorda à CNN Portugal outros casos, como o de um submarino apanhado no início deste ano com nove toneladas de cocaína a bordo ao largo dos Açores.
Uma apreensão noticiada em primeira mão pela CNN Portugal, e que não era o primeiro caso do género. Olhando mais para trás, para março de 2025, a Polícia Judiciária e a Marinha apreenderam um outro submarino, dessa vez com sete toneladas, igualmente no arquipélago açoriano.
“As quantidades muitas vezes são relativas, porque até se desfazem delas em alto-mar quando veem que estão a ser perseguidos, mas esta quantidade faz prever que esta rede já tinha bem estudado e planeado o percurso”, aponta Gil Carvalho, lembrando que uma operação deste género tem uma grande dimensão financeira e logística.
A especialista em Segurança Estratégica e Ameaças Transnacionais Sylvie Figueiredo indica que o aumento do volume de droga apreendida confirma que a Europa é um “mercado estratégico”. Depois há Portugal, que é “uma plataforma logística de entrada dessa cocaína na Europa”.
A especialista diz que Portugal é uma autêntica porta de entrada, ainda que não a maior, de cocaína na Europa.
Gil Carvalho entende que isto acontece também porque as autoridades estão a detetar e a apreender mais droga, até porque há um outro conhecimento das organizações criminosas responsáveis por este tipo de operações.
São operações “de alto perigo, de alto risco”, mas que vão tendo resultados também pelo bom trabalho das autoridades, incluindo das Forças Armadas.
Questionada sobre se esta sucessão de casos pode ter um significado maior, Sylvie Figueiredo admite que Portugal deixe de ser simplesmente uma plataforma logística, para passar a ser também um local de implementação destas organizações.
“Já estamos a alguns passos disso. Primeiro tivemos a transposição de parte da produção da cocaína para Portugal e para outros países europeus”, aponta, verificando a existência de uma “trasladação de parte do processo”.
Isso mesmo foi detetado pelas autoridades com a identificação de cerca de uma dúzia de laboratórios que ajudam a finalizar o produto. “Isso já foi detetado em alguns países da União Europeia, incluindo em Portugal”, frisa Sylvie Figueiredo, esclarecendo que já há cocaína que chega em bruto para ser transformada em pó no nosso país.
“Aqui a ameaça é muito séria e deve ser tida em consideração. Todas as ações [das autoridades] não têm beliscado o mercado da cocaína”, reitera, referindo sempre que as autoridades estão a fazer um bom trabalho, mas que a procura do mercado de consumo faz com que continue a fluir muito produto.
“Estamos numa guerra que escalou para outras dimensões”, reitera Sylvie Figueiredo.
Gil Carvalho concorda com a boa atuação das autoridades, mas nota que, para existirem apreensões deste género, é porque “muitas outras já passaram”.
O trabalho das autoridades passa agora por conseguir ligar a droga apreendida a uma rede, o que vai permitir perceber quão problemático é o funcionamento dessa mesma rede em Portugal.
Quanto a essas conclusões, Sylvie Figueiredo admite que existam várias situações neste “ecossistema criminal” com “vários tipos de atores” que estão encadeados.
“Temos uma grande diversificação da produção, já não temos aqueles grandes cartéis, temos mais atores do lado da oferta, mais atores do lado da distribuição do lado da Europa”, vinca, afirmando que há uma grande capacidade para infiltrar o produto por “via lícita”.
O mesmo é dizer, segundo a especialista, que a empresa dona deste navio porta-contentores nem sequer deverá saber o que estava a acontecer, já que estes “especialistas criminais” conseguem atuar nas mais diversas partes do processo.
