Menos consultas, internamentos, cirurgias e rastreios. Como a covid-19 "infetou" o SNS

11 jul, 00:00
Vítor Rodrigues, da Liga Portuguesa Contra do Cancro, diz que os profissionais de saúde e o próprio Serviço Nacional de Saúde estão "estoirados". (AP Photo/Jae C. Hong, File)

O relatório do Conselho Nacional de Saúde confirma aquilo que os portugueses vivenciaram: com a pandemia, a resposta do SNS piorou na assistência não-covid. A “dimensão real” do impacto, avisam os investigadores, é difícil de apurar. Até porque muito do trabalho de rastreio e prevenção ficou por fazer

Doenças do aparelho respiratório, doenças do sistema nervoso e dos órgãos dos sentidos, doenças mentais e doenças da pele. O que têm em comum? Em 2020, assistiram a uma redução na ordem dos 30% no número de internamentos, quando comparado com a média do período 2016-2019. Ou seja: muitos dos problemas nestas áreas acabaram por se agravar, ou ficar mesmo sem resposta – com um impacto nestas especialidades que só o tempo poderá confirmar.

Este é apenas um dos elementos que constam no relatório onde o Conselho Nacional de Saúde (CNS) faz um balanço do impacto dos anos de pandemia no funcionamento do Serviço Nacional de Saúde. Confirma-se um cenário que deixou a saúde dos portugueses ainda mais frágil: menos consultas, menos internamentos, menos cirurgias, menos atividades de acompanhamento e prevenção. Veja-se então o que diz o estudo, campo a campo.

Menos internamentos e consultas, mais espera

Em 2020, “houve uma redução de 18,5% do número de internamentos hospitalares” e de “14,4% no total de dias de internamento”, quando comparado com a média dos quatro anos anteriores à pandemia.

No mesmo sentido seguiram as consultas: o estudo do CNS refere uma quebra nos cuidados de saúde primários e hospitalares. No primeiro contexto, há dois indicadores a destacar: a diminuição de 1,1 pontos percentuais da cobertura da população inscrita com médico de família atribuído em 2019 e 2020; e a redução de 2,6 a 5,2 pontos percentuais da proporção de utentes com acesso a consultas.

Já nos hospitais, onde a resposta à pandemia foi concentrada, o cenário é ainda mais preocupante: em 2020 “houve uma redução de 12,2 a 21,6% das primeiras consultas hospitalares”.

Nesse ano, apenas 71,5% das consultas externas decorreu em tempo adequado – um indicador que ainda assim, admite o estudo, registou melhorias em 2021, com a progressiva adaptação da vida em contexto de pandemia.

Nem cirurgias urgentes escaparam

Cinquenta mil. É este o número de cirurgias urgentes que não tiveram lugar em 2020 à custa da pandemia. Mas depois há as outras que não têm esse caráter premente. Números redondos: foram praticamente 700 mil as cirurgias que estavam programadas e acabaram por não se realizar.

“Houve uma redução marcada do número de intervenções cirúrgicas realizadas, seja das programadas, em ambulatório, convencionais e urgentes, e uma redução da percentagem de inscritos em cirurgia com Tempo Máximo de Resposta Garantida”, resume o estudo do CNS.

Algarve e Lisboa e Vale do Tejo são apresentadas como as regiões onde “a percentagem de inscritos com cirurgia no tempo máxima de resposta garantido foi especialmente reduzida”.

Centenas de milhares de rastreios por fazer

Com os profissionais de saúde focados na resposta à covid-19 – e a outras situações consideradas urgentes, que não deixaram de existir -, muitas atividades diárias acabaram, naturalmente, relegadas para segundo plano.

“A resultar em impacto negativo no diagnóstico e acompanhamento dos doentes não COVID-19, um efeito cuja dimensão real permanece por determinar”, considera a entidade liderada por Henrique Barros.

É o caso da vigilância de pessoas diabéticas, dos rastreios ao cancro, ou do tratamento de dependências. E os seguintes números, que representam pessoas em risco, são a prova disso mesmo: em 2020, praticamente menos 102 mil foram rastreados para a retinopatia diabética, menos 174 mil mulheres para o cancro da mama e 125 mil para o cancro do colo do útero. Houve ainda quase menos 35 mil pessoas rastreadas para o cancro do cólon e reto.

Impacto também na saúde oral, com uma quebra no número de cheques-dentista a serem emitidos e efetivamente utilizados.

“A desorganização das tarefas assistenciais lato sensu pode traduzir-se em manifestações e modificações no curso de doenças em muitos indivíduos que, por medo do contágio (não convenientemente dissipado), evitaram os serviços, ou porque viram adiados os cuidados preventivos ou curativos de que necessitavam por ausência de resposta profissional”, lê-se no estudo.

SNS reforçado (mas os portugueses a procurar seguros)

Apesar dos sucessivos constrangimentos no SNS, que ainda hoje marcam a ordem do dia, o Conselho Nacional de Saúde atesta um reforço no número de profissionais.

“Entre 2018 e 2021 verificou-se um aumento de 16,3% no número de trabalhadores no SNS, sendo que o grupo com maior aumento foi o dos assistentes operacionais (24,2%), seguido do dos técnicos de saúde (22,1%) e do dos técnicos de diagnóstico e terapêutica (20,9%). O número de médicos (sem considerar internos de especialidade) cresceu 11,9% e o de enfermeiros 16,8% entre 2018 e agosto de 2021”, pode ler-se.

Em 2018, o SNS dava emprego a 127.917 pessoas. Os dados disponíveis em 2021, aquando da realização do estudo, apontavam para 148.817 profissionais.

A análise, que critica o facto de o SNS não ter sabido tirar partido da pandemia para estreitar e criar novas relações com o setor privado, faz também uma referência aos seguros de saúde.

“Os seguros privados de saúde tiveram uma evolução significativa durante a pandemia. Atualmente, em Portugal 3,3 milhões de cidadãos têm apólices do ramo de doença. Foi durante estes dois anos de pandemia que se registou um maior crescimento dos seguros de saúde: entre 2019 e 2021 cresceram 22% no segmento de grupo (contratados por empresas no âmbito da relação laboral) e 38% no segmento individual (pessoas que, de moto próprio, decidem ter cobertura de seguro de saúde)”.

Crítica: falta informação

Numa fase final do estudo, os investigadores do Conselho Nacional de Saúde não deixam de apontar o dedo às diferentes entidades que gerem os dados do setor em Portugal, falando num “problema”, “contrariamente ao que sucede em outros países europeus”.

“Assim, a ausência de dados oficiais, como a relativa às causas de óbitos em Estabelecimentos Residenciais para Pessoas Idosas, à incidência de internamentos Covid-19, ou às causas de morte não relacionadas com a Covid-19, limita o acesso a informação sobre o peso da Covid-19, e outras patologias, na população”, exemplificam.

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