O Health Forum by CNN Portugal, na Fundação Champalimaud, com o tema "Ciência e Tecnologia ao Serviço da Saúde" reuniu especialistas, Governo, hospitais, reguladores e indústria farmacêutica para discutir os desafios da saúde em Portugal. O debate centrou-se na inovação, inteligência artificial, investigação clínica e acesso a medicamentos, mas também na lentidão burocrática que continua a travar o sistema de saúde e o acesso dos doentes a novas terapêuticas
A saúde tornou-se a principal preocupação dos portugueses. Mais do que a inflação, a habitação ou a instabilidade internacional. O dado, citado durante o Health Forum by CNN Portugal com o tema "Ciência e Tecnologia ao Serviço da Saúde", realizado na Fundação Champalimaud no âmbito das comemorações dos 60 anos da Bristol Myers Squibb em Portugal, acabou por resumir o peso de um debate que atravessou praticamente todas as conversas do encontro: Portugal já produz ciência, investigação e inovação de nível internacional, mas continua demasiado lento a transformar esse conhecimento em respostas concretas para os doentes.
A abertura esteve a cargo de Leonor Beleza, sublinhando a importância de discutir o futuro da saúde num momento de profunda transformação científica e tecnológica. Ao longo da conferência, a palavra “velocidade” repetiu-se de painel em painel. Velocidade da investigação. Velocidade do diagnóstico. Velocidade da aprovação dos medicamentos. Velocidade da decisão política. Velocidade da digitalização do Estado. Porque se há ideia que acabou por unir Governo, investigadores, indústria farmacêutica, reguladores e gestores hospitalares foi precisamente esta: a ciência está a avançar mais depressa do que a capacidade dos sistemas públicos para acompanhar essa evolução. E essa distância começa cada vez mais a ter consequências concretas.
O Estado está preparado para a velocidade da inovação?
Na conversa de abertura com Anselmo Crespo, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, procurou recentrar o debate da reforma administrativa não apenas na burocracia, mas na capacidade do Estado responder a uma realidade tecnológica completamente diferente daquela para a qual foi desenhado. "O maior inimigo da reforma do Estado foram 50 anos sem reforma do Estado.”
A frase acabou por definir boa parte da discussão. Para o ministro, o problema não está apenas no excesso de procedimentos ou na existência de estruturas redundantes. Está sobretudo na incapacidade do Estado adaptar-se à velocidade atual da tecnologia, da economia e das expectativas dos cidadãos.
“Hoje as empresas privadas incorporam inteligência artificial nos seus modelos de negócio e entregam um serviço com uma qualidade que os cidadãos depois não encontram no Estado.”
A saúde tornou-se um dos exemplos mais evidentes dessa dificuldade. Gonçalo Matias insistiu várias vezes na ideia de que os processos públicos continuam demasiado lentos para uma área onde a tecnologia evolui em ciclos cada vez mais curtos. “Não podemos demorar dois anos a comprar um equipamento médico com inteligência artificial. Quando chegar, já está obsoleto.”
A crítica estendeu-se à contratação pública, aos modelos de fiscalização prévia e à morosidade dos processos administrativos. O ministro referiu o caso do Hospital de Todos-os-Santos para defender que determinados mecanismos de controlo acabam por atrasar decisões sem necessariamente garantirem maior eficácia. Ao mesmo tempo, a reforma digital do Estado foi apresentada como uma condição essencial para a sustentabilidade futura do sistema de saúde. E foi precisamente aí que surgiu um dos temas mais repetidos ao longo do fórum: a fragmentação da informação clínica.
Porque continua um doente a repetir exames e histórico clínico?
A ligação entre os diferentes sistemas de saúde foi um dos temas mais debatidos ao longo do encontro. Apesar da evolução tecnológica, hospitais, centros de saúde e unidades privadas continuam muitas vezes sem partilhar informação clínica entre si. Na prática, isto significa que um doente pode realizar exames no privado e chegar ao SNS sem que esses dados estejam acessíveis. Em muitos casos, acaba por repetir análises, relatórios ou até o próprio historial clínico em diferentes instituições. “O cidadão chega ao sistema como se estivesse ali pela primeira vez”, resumiu Gonçalo Matias. O ministro revelou que o Governo está a preparar legislação para tornar obrigatória a integração de dados numa rede pública já existente, mas ainda pouco utilizada pelas várias entidades.
A questão voltou a surgir mais tarde no debate sobre inteligência artificial e investigação clínica. Porque à medida que a medicina se torna mais personalizada, mais preditiva e mais dependente de dados, a fragmentação da informação transforma-se num bloqueio estrutural. Foi precisamente essa ideia que atravessou as intervenções sobre inteligência artificial.
A inteligência artificial deixou de ser futuro
Ao longo do fórum, a inteligência artificial deixou de surgir como uma hipótese distante. Foi apresentada como uma ferramenta já integrada em áreas como investigação farmacêutica, diagnóstico precoce, imagiologia, cirurgia digital e desenvolvimento terapêutico.
Emma Charles, Vice-Presidente da BMS Europe, explicou que a inteligência artificial já está a ser utilizada pela indústria farmacêutica para acelerar a descoberta de moléculas, prever probabilidades de sucesso terapêutico e reduzir o tempo necessário para desenvolver medicamentos. “Desenvolver um medicamento pode demorar entre 15 a 20 anos.” Segundo a responsável da BMS Europa, a utilização de inteligência artificial permite acelerar diferentes fases da investigação, sobretudo em áreas como oncologia, hematologia e doenças cardiovasculares.
Mas a discussão foi muito além da indústria farmacêutica. Na Fundação Champalimaud, o investigador e cirurgião Pedro Gouveia descreveu a inteligência artificial como “infraestrutura” e não apenas como tecnologia. “A inteligência artificial não é um produto. É infraestrutura.”
Pedro Gouveia explicou que o trabalho desenvolvido na Fundação Champalimaud parte sempre de um problema clínico concreto antes de procurar soluções tecnológicas. Foi nesse contexto que surgiu, em 2022, um laboratório de cirurgia digital focado no cancro da mama e, mais recentemente, uma clínica dedicada a terapias digitais do cérebro. Mas também aqui surgiu um problema recorrente ao longo do fórum: Portugal consegue criar inovação, mas continua a ter dificuldade em transformá-la rapidamente em acesso generalizado. “Temos provas de conceito muito relevantes, mas depois não conseguimos democratizar a tecnologia”, afirmou.
O atraso já não é científico. É administrativo
Se houve tema consensual ao longo do encontro, foi a lentidão no acesso aos medicamentos inovadores em Portugal. Os números repetiram-se em vários painéis: entre 840 e 900 dias entre a aprovação europeia de um medicamento e a sua disponibilização efetiva aos doentes portugueses.
A questão tornou-se particularmente sensível na oncologia. "Dois anos é um tempo que um doente oncológico não pode esperar”, afirmou Vítor Veloso, Presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Também Juan Carlos Portasany, Diretor Comercial BMS Portugal insistiu que Portugal continua demasiado lento quando comparado com outros países europeus. “Algo está a acontecer em Portugal que não acontece na Alemanha.”
O responsável da BMS Portugal defendeu que o problema já não pode ser analisado apenas do ponto de vista regulatório, mas também como questão estratégica e económica. Segundo referiu, Portugal continua abaixo da média europeia em investimento público em saúde e os cidadãos portugueses suportam uma fatia significativa da despesa diretamente do próprio bolso.
Do lado do regulador, Eduardo Costa, Vogal do Conselho Diretivo do INFARMED, reconheceu os atrasos, mas insistiu na necessidade de garantir sustentabilidade financeira do sistema. “O desafio é garantir o tratamento dos doentes de hoje sem comprometer o tratamento dos doentes amanhã.”
O responsável explicou que os tempos médios incluem várias etapas diferentes: submissão inicial dos processos, avaliação técnica e científica, análise económica e negociação final. Ainda assim, revelou que o Infarmed já reforçou equipas e reduziu tempos médios de avaliação entre 2024 e 2025.
Portugal está finalmente a ganhar dimensão na investigação clínica?
Apesar das críticas à lentidão do sistema, o fórum deixou também sinais positivos sobre a evolução da investigação clínica em Portugal. Júlio Oliveira, Presidente do IPO Porto, destacou que Portugal está atualmente a aumentar o número de ensaios clínicos iniciados anualmente, numa altura em que parte da Europa perde competitividade nesta área.“Cada ensaio clínico representa acesso antecipado dos doentes a terapêuticas que só chegariam anos mais tarde.” Segundo explicou, os hospitais portugueses começaram a ganhar maior relevância internacional graças à melhoria dos tempos de aprovação, maior articulação institucional e crescente experiência das equipas clínicas.
Mas Júlio Oliveira deixou igualmente um alerta: Portugal continua excessivamente dependente de investigação promovida por entidades estrangeiras. “97% dos ensaios clínicos em Portugal continuam dependentes de promotores internacionais.”
A vice-presidente da AICIB, Paula Macedo, defendeu precisamente a necessidade de uma estratégia nacional integrada para investigação clínica. “Portugal não pode continuar fechado em silos.” Ao longo da intervenção, insistiu várias vezes na necessidade de trabalhar em rede, aproximando hospitais, investigadores, profissionais de saúde e cidadãos.
O SNS consegue responder à pressão crescente?
Na conversa final do fórum, dedicada ao Serviço Nacional de Saúde, o diretor executivo do SNS, Álvaro Almeida, procurou recentrar o debate sobre eficiência e financiamento. “A despesa aumentou, mas também aumentaram os ganhos em saúde.” Álvaro Almeida rejeitou a ideia de que Portugal esteja a gastar excessivamente em saúde, lembrando que o país continua abaixo da média europeia em despesa pública no setor. Contudo, reconheceu que o SNS continuará a enfrentar pressão estrutural sobre recursos humanos, urgências e capacidade de resposta hospitalar. Na sua perspetiva, o desafio atual passa por equilibrar proximidade e diferenciação, reforçar os cuidados de saúde primários, mas concentrar respostas mais complexas em unidades hospitalares com escala suficiente para garantir qualidade clínica.
“A inovação é responsabilidade presente”
No encerramento do encontro, a secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, apresentou várias das medidas atualmente em desenvolvimento pelo Governo, incluindo o novo acordo com a indústria farmacêutica, o reforço da investigação clínica, a revisão do Sistema Nacional de Avaliação de Tecnologias de Saúde e a criação de uma infraestrutura nacional de dados em saúde. Segundo revelou, o investimento da indústria farmacêutica em investigação e desenvolvimento ultrapassou os 100 milhões de euros em Portugal.“A inovação bem introduzida não é apenas um custo adicional. É uma fonte de eficiência.” Mas a frase que acabou por resumir melhor o espírito do encontro surgiu já no final da intervenção. “A inovação é muitas vezes vista como futuro. Eu vejo-a como responsabilidade presente.”
