Da preparação do Serviço Nacional de Saúde à resposta operacional da Proteção Civil, passando pela inovação tecnológica e pelas políticas públicas, a CNN Portugal Summit reuniu especialistas e decisores para discutir como tornar o sistema de saúde mais resiliente perante emergências cada vez mais complexas.
As alterações climáticas, os incêndios rurais, os sismos, as pandemias, os ciberataques ou as falhas energéticas colocam novos desafios aos sistemas de saúde e de proteção civil. Perante um contexto marcado por riscos cada vez mais interligados, a CNN Portugal Summit "Resiliência da Saúde perante Emergências Complexas", organizada em parceria com a Egas Moniz School of Health & Science, reuniu responsáveis institucionais, especialistas e decisores políticos para debater soluções capazes de reforçar a capacidade de resposta do país.
Na abertura da conferência, José João Mendes, presidente da Direção da Egas Moniz School of Health & Science, defendeu que a resiliência constrói-se antes das crises acontecerem e não apenas quando estas surgem. O responsável sublinhou a importância da investigação, da formação e da cooperação entre diferentes áreas do conhecimento, defendendo uma abordagem integrada para responder a ameaças cada vez mais complexas. Também Filipe Pacheco, vice-presidente da Câmara Municipal de Almada, destacou o papel das autarquias na prevenção e na gestão das emergências, recordando a experiência recente do concelho perante fenómenos meteorológicos extremos e reforçando a importância da articulação entre todas as entidades envolvidas.
Um sistema preparado para responder
A necessidade de reforçar a capacidade de antecipação marcou as várias intervenções dedicadas à resiliência do sistema de saúde.
Adalberto Campos Fernandes, professor de Saúde Pública e antigo ministro da Saúde, defendeu que o país precisa de "um Estado resiliente" e não apenas de um sistema de saúde resiliente. Para o especialista, crises como pandemias, incêndios, ciberataques ou fenómenos climáticos extremos exigem planeamento permanente, liderança e coordenação institucional. "O improviso mata", alertou, defendendo que a preparação para situações de emergência deve constituir uma prioridade estratégica e assentar no conhecimento científico, na literacia da população e na valorização dos profissionais.
A mesma visão foi partilhada por Rita Sá Machado, diretora-geral da Saúde, que apresentou o trabalho desenvolvido para reforçar a preparação do setor da saúde. Entre as medidas em curso destacou a elaboração de um plano nacional para emergências complexas, a criação de uma matriz de risco específica para a saúde, o reforço da formação dos profissionais e a constituição de reservas estratégicas de medicamentos e dispositivos médicos. A responsável defendeu ainda a importância de retirar ensinamentos de cada crise para melhorar continuamente a capacidade de resposta.
Também Luís Mendes Cabral, presidente do INEM, sublinhou que a resposta à emergência médica depende de um trabalho permanente de preparação e organização. O responsável lembrou a dimensão da atividade diária do instituto e salientou a necessidade de reforçar os recursos e a capacidade operacional para responder a cenários cada vez mais exigentes.
José Manuel Moura, presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, destacou, por sua vez, a importância da coordenação entre os diferentes agentes de proteção civil, defendendo que a resiliência resulta do trabalho desenvolvido diariamente e da capacidade de articulação entre instituições antes, durante e após cada emergência.
Adaptar o SNS a novas ameaças
A evolução dos riscos obriga igualmente o Serviço Nacional de Saúde a adaptar a sua organização.
Álvaro Almeida, diretor executivo do SNS, defendeu que a capacidade de resposta depende da existência de organizações flexíveis e preparadas para enfrentar cenários distintos. O responsável explicou que as experiências recentes, da pandemia ao apagão elétrico e aos fenómenos meteorológicos extremos, levaram à revisão de planos de contingência, ao reforço da coordenação entre unidades de saúde e à identificação das infraestruturas críticas do sistema, com o objetivo de garantir uma resposta mais integrada.
Liderança, coordenação e proximidade
A preparação para emergências complexas exige também modelos de governação capazes de mobilizar rapidamente diferentes entidades.
Henrique Gouveia e Melo centrou a sua intervenção na importância da liderança, da organização e da confiança entre instituições. O antigo Chefe do Estado-Maior da Armada defendeu que as crises atuais tendem a ocorrer em simultâneo e exigem estruturas capazes de responder de forma coordenada, valorizando o fator humano e a capacidade de decisão. "As crises deixaram de vir uma de cada vez. Vêm em grupo", afirmou, defendendo que incêndios, pandemias, falhas energéticas, alterações climáticas e ciberataques devem ser encarados como fenómenos interligados. Para o antigo Chefe do Estado-Maior da Armada, Portugal dispõe de profissionais qualificados, instituições sólidas e capacidade científica reconhecida. O desafio passa agora por reforçar a coordenação entre estruturas que continuam, muitas vezes, a funcionar de forma isolada. "O problema nunca foi a falta de talento. Foi sempre a fragmentação", sintetizou.
A dimensão operacional foi aprofundada por André Fernandes, coordenador operacional municipal de Proteção Civil e diretor do Serviço Municipal de Proteção Civil de Lisboa, que destacou a relevância da descentralização e da proximidade aos territórios na gestão das emergências. Marco Serronha, vice-presidente da Direção Nacional da Cruz Vermelha Portuguesa, reforçou a importância da articulação entre entidades públicas, organizações humanitárias e voluntariado, considerando que a resposta eficaz depende da cooperação entre todos os intervenientes.
Tecnologia ao serviço da resiliência
A transformação digital e a inovação tecnológica surgiram igualmente como pilares da resposta às emergências.
Paulo Viegas Nunes, presidente do SIRESP, abordou o papel das comunicações de emergência na coordenação operacional, defendendo que a fiabilidade das infraestruturas tecnológicas constitui um elemento crítico em qualquer cenário de crise. A necessidade de integrar tecnologia, informação e capacidade de decisão foi igualmente destacada no painel dedicado à transformação digital, onde foi sublinhada a importância de soluções tecnológicas capazes de apoiar a resposta operacional e reforçar a resiliência do sistema.
Políticas públicas para reforçar a capacidade de resposta
A conferência terminou com uma reflexão sobre o papel das políticas públicas na preparação do país para futuras emergências.
Luís Neves, ministro da Administração Interna, defendeu uma abordagem integrada entre saúde, proteção civil, forças de segurança e administração pública, sublinhando que o reforço da resiliência nacional depende de planeamento, investimento e cooperação institucional. A preparação para crises complexas, salientou, exige respostas coordenadas, capazes de proteger as populações e assegurar o funcionamento dos serviços essenciais.
Ao longo da conferência, a necessidade de antecipar riscos, reforçar a coordenação entre instituições, investir na inovação e promover uma cultura de preparação surgiu como um dos principais desafios para o futuro. Num contexto em que as emergências tendem a tornar-se mais frequentes e complexas, os participantes defenderam que a capacidade de resposta do país dependerá cada vez mais da forma como Estado, instituições, profissionais e sociedade trabalham em conjunto para prevenir, preparar e responder.
