MUNDIAL 2026

Saiba tudo aqui
Mais sobre o Mundial 2026

Bioenergia reclama um lugar na estratégia da descarbonização

Conteúdo Patrocinado
1 jul, 17:48
B + Summit
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Governo, empresas e especialistas convergem na mesma ideia. A eletrificação continuará a ser decisiva para cumprir as metas climáticas, mas não chegará para descarbonizar setores como a indústria, a aviação ou o transporte marítimo. Na B+ Summit 2026, o desafio passou a centrar-se na capacidade de acelerar investimento, simplificar processos e criar estabilidade regulatória.

A eletrificação continuará a ser um dos principais motores da transição energética, mas já não responde, por si só, aos desafios da descarbonização. A necessidade de reduzir emissões na indústria, na aviação, no transporte marítimo e na mobilidade pesada colocou os combustíveis renováveis no centro da B+ Summit 2026, conferência organizada pela CNN Portugal e pela Associação de Bioenergia Avançada (ABA), que reuniu representantes do Governo, empresas, reguladores e especialistas para debater o futuro da bioenergia em Portugal.

Ao longo da conferência ficou patente um consenso entre setor público e privado. Portugal reúne condições para assumir um papel relevante na produção e utilização de combustíveis renováveis, mas essa oportunidade dependerá da capacidade de acelerar projetos, garantir previsibilidade regulatória e transformar investimento em capacidade industrial.

Da ambição à ação

Na abertura da conferência, a presidente da ABA, Anabela Antunes, defendeu que o setor está preparado para contribuir para a transição energética e para a competitividade da economia nacional, apelando a uma maior capacidade de execução.

"Estamos aqui preparados, estamos prontos, mas precisamos da sua ajuda", afirmou perante a ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho. A responsável recordou que a associação, criada em 2019, representa hoje toda a cadeia de valor da bioenergia, reflexo de um setor que considera ser "um pilar essencial da transição energética e da competitividade da economia". Para Anabela Antunes, chegou o momento de "transformar ambição em ação".

Pedro Morais Leitão, CEO da Media Capital, enquadrou a importância do encontro num contexto em que a energia ultrapassou a dimensão ambiental e passou a influenciar a economia, a indústria e a competitividade. A partir de Cascais, manifestou o desejo de que a conferência trouxesse "bons ventos e muita inspiração" para uma discussão sobre o futuro energético do país.

Eletrificação e bioenergia de mãos dadas

Maria da Graça Carvalho defendeu que a descarbonização é hoje uma política económica e de soberania. A ministra do Ambiente e da Energia salientou que o acesso a energia limpa e competitiva constitui um dos principais fatores de diferenciação da economia portuguesa, lembrando que Portugal apresenta preços de eletricidade inferiores à média europeia, cerca de 35% mais baixos para consumidores industriais e 20% para consumidores domésticos. Sublinhou ainda que o país está hoje mais protegido de choques internacionais, uma vez que a produção de eletricidade depende cada vez menos do gás natural. A governante reconheceu, contudo, que a eletrificação não responde a todos os desafios da descarbonização. "O que é possível eletrificar, eletrificamos", afirmou, defendendo que setores como a indústria, a aviação, o transporte marítimo e parte dos transportes rodoviários terão de recorrer ao biometano e aos biocombustíveis. Neste contexto, destacou a meta de substituir 9% do consumo de gás natural por biometano até 2030 e 19% até 2040, através da simplificação do licenciamento, de incentivos ao investimento e da utilização da atual rede de gás natural.

O investimento precisa de previsibilidade

A necessidade de criar um enquadramento estável para acelerar o investimento marcou igualmente o debate. Pedro Patrocínio, Oil & Biofuels Director da Galp, considerou que existe interesse do setor privado em investir, mas alertou para a falta de previsibilidade regulatória. "Cabe ao Governo e ao Estado criar o enquadramento certo. O investimento privado tem interesse", afirmou, associando também a discussão à crescente importância da segurança energética.

A mesma preocupação foi partilhada por Javier de Argumosa, CEO da Prio, que defendeu um enquadramento regulatório estável como principal fator de confiança para o investimento. "Não peço que os governos me ajudem com dinheiro, peço que os governos me ajudem com regulação", afirmou, considerando que Portugal reúne condições para desempenhar um papel relevante na descarbonização dos transportes através da bioenergia.

A nível europeu, Simone Burgin, editora de European Biofuels na Argus Media, alertou que a aplicação da diretiva RED III aumentará a procura por biocombustíveis, mas também a pressão sobre matérias-primas como gorduras e óleos de origem animal e vegetal, admitindo que a disponibilidade destes recursos poderá tornar-se um dos principais desafios do setor.

Uma estratégia assente em várias soluções

Jean Barroca, secretário de Estado Adjunto e da Energia, defendeu uma estratégia baseada na neutralidade tecnológica, afirmando que "a transição energética não se faz apenas com eletrões, faz-se também com moléculas renováveis". O governante sustentou que eletricidade renovável, hidrogénio, biometano, combustíveis avançados e biomassa devem ser encarados como soluções complementares e não concorrentes. Defendeu ainda que previsibilidade, neutralidade tecnológica e valorização dos recursos nacionais são fatores determinantes para captar investimento e reforçar a independência energética do país.

A aplicação prática destas soluções foi demonstrada por vários exemplos apresentados durante a conferência. A Portway revelou que a utilização de biocombustível em equipamentos de assistência no aeroporto do Porto permitiu reduzir a pegada carbónica em 20%. A Mota-Engil Ambiente e Energia destacou o potencial do biometano na valorização de resíduos, enquanto Mário Ferreira, presidente do Grupo Mystic Invest, alertou para o elevado custo e a reduzida disponibilidade dos biocombustíveis no transporte marítimo. Já Pedro Lazarino, da Stellantis Portugal, recordou que a eletrificação dos novos veículos, por si só, não resolve o problema de um parque automóvel envelhecido.

O desafio passa pela execução

António Costa Silva, antigo ministro da Economia, levou o debate para a geopolítica. Alertou que é errado confundir descarbonização com eletrificação. “Descarbonizar é eletrificar, é utilizar os biocombustíveis, é usar as bioenergias, usar o biometano”, afirmou. Para o antigo governante, Portugal será um dos países mais expostos aos efeitos das alterações climáticas, o que torna a transição energética não apenas desejável, mas urgente.

Assunção Cristas, jurista e antiga ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território, colocou o dedo numa ferida conhecida. Portugal tem boas condições, mas continua preso a bloqueios administrativos. Falou em “medo de decidir” na administração pública e defendeu mais “arrojo” no quadro fiscal. A crítica foi clara. O país pode ter recursos, localização e talento, mas se a máquina pública não responder a tempo, o investimento segue outro caminho.

Na mobilidade, Mário Ferreira, presidente do Grupo Mystic Invest e Presidente do Conselho de Administração (Chairman) do grupo Media Capital, trouxe uma perspetiva pragmática. O transporte marítimo pode testar novos combustíveis, como HVO, mas a disponibilidade e o preço continuam a ser barreiras. “Tivemos que mandar vir HVO em camiões a diesel da Europa. Obviamente não é possível. E temos que falar do preço”, afirmou. Para o empresário, antes de trocar combustíveis, é preciso consumir menos, com motores mais eficientes, cascos melhores e até novas soluções baseadas no vento.

Nuno Piteira Lopes, presidente da Câmara Municipal de Cascais, trouxe a discussão para junto das pessoas. “A transição energética não se decreta apenas de cima para baixo. Faz-se de perto, com as pessoas, mas acima de tudo pelas pessoas”, afirmou. A frase ligou-se a uma preocupação várias vezes repetida ao longo do dia. Sem aceitação social, os grandes projetos atrasam-se ou bloqueiam.

A última intervenção coube a Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e Coesão Territorial. O governante resumiu o dilema português. “Boa parte da nossa vulnerabilidade é de natureza energética”, afirmou. E deixou claro que a próxima fase da descarbonização será a mais difícil, porque está na indústria, no transporte pesado, na mobilidade marítima e aérea. “O biometano e os biocombustíveis não competem com a eletrificação, complementam-na”, sublinhou.

A B+ Summit deixou menos uma conclusão fechada do que um aviso. Portugal tem sol, vento, portos, indústria, empresas disponíveis para investir e uma posição geográfica favorável. Tem também uma rede elétrica cada vez mais renovável e uma oportunidade para transformar resíduos em energia. Mas a vantagem só conta se sair do papel.