Na CNN Summit dedicada ao "mar de oportunidades", especialistas e empresários do setor ligado à economia do mar explicam como as infraestruturas portuguesas não estão preparadas para lidar com a grande procura para a construção de navios
"Há uma grande procura [para a construção de navios], não só por parte de armadores da área comercial, mas essencialmente porque a Europa vai precisar até 2031 de construir entre 800 e 100 navios de guerra para as marinhas", Mário Ferreira, Presidente e CEO Mystic Invest.
Na CNN Summit dedicada ao mar, diz que se trata de um problema transversal também a nível nacional. Por exemplo, acrescenta, "a Marinha está a construir em Portugal, mas também na Roménia e na Turquia porque não existe capacidade para construir".
Infelizmente, aponta, a Lisnave "não tem licença para construir" e acabou por perder esse know-how. Ainda assim, reitera, a capacidade de construção nacional é representada principalmente por Viana do Castelo.
Mário Ferreira destaca também que "não existe nenhum porto em Portugal onde consiga conectar" os seus navios. Destaca ainda que os testes executados para a construção de novos navios foram feitos na Alemanha e na Noruega e não no país. "Não existe ainda nenhum porto que diga venha cá fazer o teste."
No Douro, explica, a situação está "ainda pior". Mário Ferreira garante que os seus navios "têm capacidade para se ligar à terra há 20 anos", mas que essa ação continua "sem ser possível".
No painel, que juntou uma série de empresários e especialistas do setor da economia do mar, também esteve presente Carlos Martins, da West Sea, que, na mesma linha, destacou que só não se produz mais navios porque não há mais capacidade para os acomodar em Viana do Castelo. "Nós só não perdemos a capacidade de construir navios em Portugal por muito pouco."
"Quando eu cheguei a Viana do Castelo em 2014, tive de ir bater à porta de algumas pessoas reformadas para que trouxessem esta capacidade e o know-how de construção de navios". "Há muito poucas pessoas em Portugal com capacidade de construção de navios."
Há uma "perspetiva pouco realista sobre que pesca é que queremos"
Outro dos temas que esteve em análise no painel foi a sustentabilidade na pesca industrial, com o presidente da Associação dos Armadores desta indústria a sublinhar que tem havido uma "perspetiva pouco realista sobre que pesca é que queremos".
Essa indefinição, explica Pedro Jorge Batista da Silva, é ainda maior porque "Bruxelas ainda não conseguiu definir que pesca quer para a UE". Referindo que, praticamente, tudo aquilo que é pescado está dentro do rendimento máximo definido, o responsável alertou que a "autossuficiência alimentar da UE anda nos 40% e que Portugal tem níveis piores". "Poderíamos fazer mais, mas temos regras muito rígidas em termos de sustentabilidade."
Também Amadeu Soares, Diretor Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), sublinhou que é necessário ter em conta "o equilíbrio sem fundamentalismos desnecessários". "Temos que, com a investigação que vai sendo feita, conseguir compatibilizar esse equilíbrio."
Por seu lado, Luís Nunes, da PRIO Supply, acredita que opções como o biocombustível são soluções eficazes a curto e médio prazo, salientando que começam a aparecer outras alternativas como a amónia. No entanto, "será a médio-longo prazo". No caso do biocombustível, salienta, "o diferencial de preço tem vindo a cair". "O nosso compromisso é investir na capacidade produtiva em Portugal e expandir a capacidade logística."