A CNN Portugal International Summit 2025 celebrou o quarto aniversário da estação sob o mote “Embrace the Future: Change & Evolve”, transformando a antiga biblioteca do Mosteiro de Alcobaça num palco de debate inovador e internacional. O evento reuniu personalidades de referência, como John Kerry, antigo Secretário de Estado norte-americano, e, pela primeira vez, os quatro candidatos presidenciais portugueses, Henrique Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes, António José Seguro e André Ventura.
Ao longo da conferência, houve debates estruturantes sobre geopolítica, economia, inovação e liderança, com cobertura em tempo real, painéis temáticos e intervenções exclusivas, sublinhando o momento de redefinição vivido por Portugal e pelo mundo, numa emissão conduzida por Anselmo Crespo, Pedro Santos Guerreiro, João Póvoa Marinheiro e Ana Guedes Rodrigues.
Investir na inovação: qual o papel de Portugal na competitividade europeia?
A inovação é cada vez mais apontada como um dos principais motores da competitividade europeia, e o posicionamento de Portugal neste contexto tem sido tema de reflexão por parte de figuras de liderança de empresas, entidades municipais e organismos governamentais, como ficou patente no debate que reuniu Nuno Marques, CEO do Grupo Visabeira, Leonor Sottomayor, Diretora de Assuntos Internacionais da Tabaqueira e Gonçalo Lopes, Presidente da Câmara Municipal de Leiria, durante a CNN Portugal International Summit.
Desafios estruturais do crescimento e internacionalização
Portugal enfrenta o desafio de convergir com o resto da União Europeia ao nível do crescimento económico. Com um mercado interno pequeno, é fundamental para o país apostar fortemente na internacionalização e exportação, sobretudo através das médias e grandes empresas, que detêm a escala, talento e capacidade de investimento essenciais para liderar este processo. O testemunho do grupo Visabeira ilustra este caminho: quadruplicou o seu volume de negócios na última década, operando globalmente a partir de Viseu, mantendo a origem nacional como ponto de comando e valorizando a prestação de serviços de valor acrescentado em mercados como os Estados Unidos,
Europa e África. Segundo Nuno Marques, Portugal enfrenta o duplo desafio de aumentar o Produto Interno Bruto e convergir com os parceiros da União Europeia, destacando que “o mercado interno pequeno não alimenta a ambição de crescimento”. Salienta, por isso, o papel indispensável das médias e grandes empresas, que “têm escala, talento e capacidade de investimento” para impulsionar a internacionalização. O Grupo Visabeira constitui um exemplo “crescemos quatro vezes numa década, mantemos o centro de comando em Viseu e oferecemos serviços de valor acrescentado em todo o mundo”. A aposta na modernização industrial e na internacionalização são, assim, vistos como pilares imprescindíveis para impulsionar o Produto Interno Bruto (PIB) português.
Atração de multinacionais e investimento estrangeiro
O exemplo da Tabaqueira, afiliada da Philip Morris International, demonstra como Portugal pode ser eleito pelas multinacionais como destino de investimento, desde que cumpridas certas condições-chave. Desde a privatização, a empresa já investiu mais de 420 milhões de euros, duplicou o número de trabalhadores e converteu-se num dos maiores hubs industriais e tecnológicos do grupo a nível mundial. Este caso sublinha a importância dos pilares “talento, vontade e compromisso”, bem como da estabilidade regulatória e fiscal, para atrair e reter investimentos relevantes em território nacional. Leonor Sottomayor valoriza o contexto nacional para captar investimentos multinacionais, e sublinha que “o talento nacional, a estabilidade fiscal e regulatória e a vontade de inovar são essenciais para consolidar Portugal como destino de investimento”.
Municípios: motores para uma economia descentralizada
A promoção do crescimento económico descentralizado depende do papel ativo dos municípios, especialmente daqueles com forte vocação industrial e capacidade de inovação, como Leiria. “É preciso que municípios como Leiria sejam também grandes motores económicos”, afirma Gonçalo Lopes, presidente da Câmara Municipal de Leiria, reforçando que não basta centrar o desenvolvimento em Lisboa e Porto.
Políticas locais focadas na criação de confiança junto dos investidores, na melhoria da oferta habitacional e numa forte ligação ao ensino superior são essenciais para atrair e reter talento qualificado. Para Gonçalo Lopes, “os municípios têm um papel decisivo na criação de confiança para que o investidor possa investir nos territórios e para que se consiga fixar e atrair talento”. A melhoria das acessibilidades, nomeadamente com a construção de linhas de alta velocidade ferroviária, será transformadora. Como sublinha o autarca, “Leiria vai ter uma estação que a irá colocar a 38 minutos de Lisboa e a 50 do Porto. Isto vai ter impacto na economia, na habitação e na atração de conhecimento e talento”.
Economia da Incerteza e o Futuro
O Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, analisou “a economia da incerteza”, sublinhando que “apesar da pandemia, surto inflacionista e tarifas, a economia mundial tem resistido”, mas alerta para a necessidade de lideranças capazes de responder de forma pragmática e adaptada às múltiplas crises globais. Paulo Rangel, Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, abordou a nova ordem mundial e o papel da Europa nas cadeias comerciais, afirmando que “a Europa pode não ser gigante, mas se
souber exercer a sua influência pode liderar” e acrescenta “o que a União Europeia conseguiu é notável, o problema da governação é muito complexo, mas os passos que demos nos últimos anos são gigantes”. António Lagartixo, CEO da Deloitte, provocou o público com um pitch inspirador: “Não vai haver tecnologia do futuro sem energia do futuro”.
Inteligência Artificial: o futuro já chegou
Os exemplos nacionais mostram que o país pode afirmar-se como protagonista no ecossistema europeu de competitividade, desde que mantenha o compromisso com a ambição e a adaptação permanente às novas realidades. A integração da inteligência artificial (IA) em processos produtivos é já uma realidade em várias empresas portuguesas, com impactos como a deteção automatizada de defeitos, redução de desperdício, aumento de eficiência e requalificação das funções dos trabalhadores. O Grupo Visabeira, por exemplo, investe em supercomputação e engenharia dedicada à IA, aplicando soluções. Nuno Marques, clarifica que o investimento foi realizado “na formação de engenharia específica para IA e na aquisição do supercomputador privado mais potente de Portugal”. Já na Tabaqueira, Leonor Sottomayor sublinha que “Portugal pode ser uma incubadora de tecnologia avançada, exportando inovação para o mundo”.
Um palco para o futuro político em Portugal
Pela primeira vez, os quatro principais candidatos à Presidência da República, Henrique Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes, António José Seguro e André Ventura, partilharam o mesmo painel, debatendo um “desígnio para Portugal num mundo em mudança”, moderado por Anselmo Crespo.
Gouveia e Melo destacou a urgência de reformas e “crescimento: precisamos de liderar com um plano estratégico claro, temos de crescer 3%, sem mudança de modelo o país não avança”. Defendeu ainda uma maior abertura a soluções políticas, garantindo: “Sou suficientemente aberto para apoiar qualquer uma das soluções, o que importa é que o país avance”. André Ventura afirmou o seu compromisso com a juventude, a dignidade nacional e uma reforma profunda do Estado: “Querer futuro é dizer às famílias que vamos lutar para que Portugal seja um país onde os nossos melhores queiram ficar. Eu quero ser o Presidente da República da dignidade de Portugal”. O candidato presidencial defendeu que quer que Portugal "seja uma Suécia da Europa, do que um Bangladesh da Europa".
Luís Marques Mendes apelou à ambição nacional, sublinhando que “sem crescimento, Portugal terá mais dificuldade em aumentar salários, nomeadamente dos jovens, e em aumentar as pensões. Para isso é preciso criar mais riqueza e combater a burocracia, apostar na inovação e inteligência artificial, e rever a componente fiscal”. António José Seguro assumiu a defesa de “Portugal como um país justo e de excelência”, promovendo inovação, salários dignos e sustentabilidade, e propondo compromissos nacionais entre partidos para acelerar a resolução dos principais problemas sociais. Quando questionado sobre a justiça em Portugal, o candidato presidencial defendeu que “para mantermos confiança no sistema de justiça, é desejável que, quando há fugas de informação, imediatamente o sistema de justiça venha clarificar e venha esclarecer”.
Já Marques Mendes afirmou: “Ninguém está acima da lei. Quem governa tem de ser exemplo de transparência”, enquanto Gouveia e Melo alertou para “passámos o limite do
razoável nas escutas. A opacidade faz com que se perca confiança na justiça, e preocupa-me se estamos a construir um sistema de vigilância”. Ventura abordou a questão com crítica à nomeação política do Procurador-Geral, defendendo que “o Estado de direito não se faz com sistemas opacos nem com impunidade”.
Presença internacional e reflexões geopolíticas
O antigo Secretário de Estado norte-americano John Kerry foi o keynote speaker do evento, com uma intervenção centrada na diplomacia estratégica partilhando a perspetiva de quem “acredita na mudança e na liderança inspirada”, defendendo que “a melhor diplomacia não se exerce publicamente, mas na construção paciente de pontes ideológicas e culturais entre nações”. A entrevista especial conduzida por Frederik Pleitgen, correspondente da CNN, revelou as preocupações e as esperanças de Andriy Sadovyy, Presidente da Câmara de Lviv, sobre o preço da paz na Europa, a reconstrução ucraniana e os desafios da segurança.
Da Reflexão à Transformação
A edição de 2025 da CNN Portugal International Summit consagrou-se como espaço ímpar de encontro entre personalidades, ideias e soluções para o Portugal de amanhã. A partilha de experiências, a confrontação de visões e a procura coletiva de respostas tornaram este fórum um catalisador de novas políticas e estratégias, desde a economia à justiça, da energia à diplomacia, passando pela inteligência artificial e o papel das autarquias. Mário Ferreira, presidente do Conselho de Administração da Media Capital, enalteceu o papel da confiança no jornalismo neste fórum de reflexão global enquanto Hermínio Rodrigues, presidente da Câmara de Alcobaça, realçou a escolha do Mosteiro para o evento, frisando que “Em Alcobaça mantemos a tradição, mas somos uma terra onde se pode viver e investir”, numa rara oportunidade de descentralização dos grandes fóruns nacionais e internacionais espelhando o espírito de debate aberto e plural que caracteriza o projeto da CNN Portugal.