Para o antigo secretário de Estado dos EUA, convidado principal da CNN Portugal Internacional Summit, “muitas vezes a melhor diplomacia não se exerce publicamente”
O plano de paz apresentado pelos Estados Unidos para resolver a guerra da Ucrânia "é legítima", mas é necessário haver cedências de todas as partes envolvidas. Esse é o entendimento de John Kerry, antigo secretário de Estado norte-americano, que foi o principal convidado da CNN Portugal International Summit, que se realizou no Montebelo Mosteiro de Alcobaça Historic Hotel.
“Qualquer acordo para obter a paz vai requerer compromisso de ambos os lados. Isso é óbvio. Quer dizer, toda a gente compreende isso. E encontrar o ponto ideal é a componente crítica”, defendeu, em entrevista a Isa Soares, da CNN Internacional. “É uma proposta legítima? Sim. É completamente balanceada? Deve ser? De um jeito ou do outro? É para isso que as pessoas vão trabalhar nos próximos dias. Todos nós aqui poderíamos imaginar e calcular um cert desequilíbrio. Certo. Então é um ponto de partida", reiterou o homem que liderou a diplomacia norte-americana no segundo mandato de Barack Obama.
Antes de analisar o plano de paz que por estes dias faz parte da agenda internacional, o antigo secretário de Estado norte-americano lembrou os momentos em que cooperou com Vladimir Putin. “O presidente Putin, com quem eu passei muito tempo, de facto, cooperou. Conseguimos que o presidente Putin trabalhasse connosco no acordo nuclear com o Irão, em retirar as armas químicas da Síria, em criar a maior preservação marinha do mundo, depois de 10 anos de procrastinação, e assim por diante.”
Apesar disso, lembrou que a Rússia apenas irá ceder perante condições favoráveis. “Ele [Putin] vai fazer um acordo, mas apenas sob as circunstâncias certas. E a questão que todos fazemos é quais são as circunstâncias certas?”
"Muitas vezes a melhor diplomacia não se exerce publicamente"
Sem mencionar diretamente o nome do atual presidente dos EUA, Kerry criticou a forma como o plano foi apresentado, poucos dias antes do Dia da Ação de Graças. A divulgação aconteceu na quinta-feira, antes mesmo de as partes terem tido conhecimento dos 28 pontos de Trump.
“Eu acredito que a diplomacia, geralmente a melhor diplomacia, não se exerce publicamente. Prepara-se, trabalha-se nos bastidores, nos canais de apoio, e constrói-se esse apoio com antecedência. Eu acho que, ao publicar algo alguns dias antes do Dia da Ação de Graças nos Estados Unidos, eu consigo compreender a motivação. Mas é difícil”, realçou na CNN Portugal Internacional Summit.
Sobre o papel da Ucrânia neste processo, foi perentório. “Foi uma invasão ilegal de outro país. É contra tudo o que todos nós construímos no mundo pós-Segunda Guerra Mundial. Isso não se faz”, defendeu, questionando se a proposta representa “uma recompensa para esse facto”, e lembrando que existe também “outro lado da argumentação”, nomeadamente a complexidade histórica de Donetsk e Lugansk.
Kerry insistiu, porém, que não há paz possível sem cedências mútuas. “Qualquer acordo para obter a paz vai requer compromisso de ambos os lados. Isso é óbvio. Quer dizer, toda a gente compreende isso. E encontrar o ponto ideal é a componente crítica”.
Antes mesmo de realçar a importância da inclusão da Europa num plano de paz, para que seja possível “estabelecer uma diplomacia inclusiva”, a partir de Alcobaça o ex-secretário de Estado quis destacar a resiliência ucraniana. “Gostaria de realçar que o povo ucraniano, apesar do sentido de injustiça, da pressão, das perdas irrecuperáveis, tem sido fantástico. Eles ganharam algo, mesmo sem saber, apenas a aguentar, e a reforçar a NATO”.
Questionado por Isa Soares sobre que conselho daria atendendo ao estado atual do conflito, tendo em conta a tensa relação do líder ucraniano com Trump, Kerry começou por recordar a política inicial da administração Biden. “O presidente Biden estabeleceu a política fundamental pela qual os EUA e a Europa abordariam a Ucrânia e a invasão. E essa política era: o que fosse preciso, no tempo que fosse preciso. Algo que tem estado ausente nos últimos anos. Há a perceção que tudo não passa de palavras”.

