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Sáb, 18 abr 2026
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"Ó Cristo, anda cá ver isto"
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Em que era estamos?, é o que muitos internautas querem saber ao final de uma semana de troca de galhardetes entre o líder dos EUA e o líder da Igreja Católica, com a guerra no coração da antiga Pérsia ainda sem fim à vista e o fim de 16 anos de poderio Orbán na Hungria. “O rei está zangado com o Papa e a população está a espalhar doenças facilmente evitáveis, que ano é este?”, perguntava há alguns dias um utilizador do X. “Espera que ainda melhora”, acrescentou outro rapidamente. “O Império Persa está a combater uma guerra existencial, o império austro-húngaro acabou de depor o seu líder e o Império Otomano está a despertar.”
O ano é 2026, mas, como já dizia Mark Twain, “a História não se repete, mas muitas vezes rima”. E à 15.ª semana do ano corrente, é compreensível que haja questões sobre se o mundo regressou oficialmente à Idade das Trevas ou a outro período negro do passado. Ainda sem se antecipar o cessar-fogo temporário no Irão que viria a fechar a semana, no domingo Donald Trump publicou na sua Truth Social uma imagem produzida por inteligência artificial em que surgia com uma túnica branca e um xaile vermelho, evocando imagens de Jesus Cristo.
Na ilustração, Trump surge debruçado sobre uma pessoa como um curandeiro e rodeado por quatro pessoas em perfeita adoração ao senhor, incluindo uma enfermeira e um soldado. Ao fundo, à esquerda, uma águia a voar diante da bandeira dos EUA; ao centro, o que pareciam soldados a ascender em direção a uma luz no céu; à direita, outra águia a voar ao lado de caças militares.
Não demorou muito até começarem a chover críticas, incluindo de muitos apoiantes do presidente a acusá-lo de blasfémia. E ainda antes de apagar a imagem, Trump tentou deitar água na fervura, garantindo que a intenção não era apresentar-se enquanto Jesus Cristo mas enquanto médico. Com toda a sua ironia, os internautas não demoraram a partilhar uma série de novas publicações a gozar com o presidente. “Vejam o meu médico a fazer esqui aquático nas Maldivas”, disse um deles ao partilhar uma imagem de Cristo a andar sobre a água.
Habituado a tropeçar no seu próprio ego, Trump não parou por aí. No mesmo dia em que a imagem foi partilhada, Trump dedicou um post na Truth Social a Leão XIV - o primeiro norte-americano a liderar a Igreja Católica - dizendo que gosta mais do irmão do Papa e criticando-o por pedir a paz no Médio Oriente e por ser “FRACO na luta contra o crime e péssimo em política externa”.
O Papa não demorou a responder. “O que digo não pretende, de forma alguma, ser um ataque a ninguém e a mensagem do Evangelho é muito clara: ‘Bem-aventurados os pacificadores’”, disse Leão XIV a bordo do avião papal, em rota de Roma para África, para um périplo de dez dias. “Não tenho medo da administração Trump, nem de proclamar em voz alta a mensagem do Evangelho, que é o que acredito que estou aqui para fazer, que é o que a Igreja está aqui para fazer. Não somos políticos, não lidamos com política externa com a mesma perspetiva com que ele a possa entender, mas acredito na mensagem do Evangelho enquanto pacificador.”
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Foi só o início de uma troca de críticas e acusações que, no espaço de uma semana, transformaram o Papa num símbolo maior dos críticos de Trump, um líder que “não entende realmente que está a embater de frente com uma tradição teológica com mais de 1.500 anos, um conjunto de ensinamentos morais sobre a guerra e a violência”, como ressaltou Robert Jones, fundador do Instituto Público de Investigação Religiosa, que acrescentou: “Talvez não seja a decisão mais sensata entrar em conflito com o Papa.”
Não obstante, em mais uma prova de que a sensatez não é a sua melhor conselheira, o presidente norte-americano esperou três dias para publicar uma nova imagem produzida com IA, desta feita mostrando Jesus Cristo a abraçá-lo sob a legenda: “Nunca fui um homem religioso… mas não acham, com todos os monstros satânicos, demoníacos e sacrificadores de crianças que estão a ser expostos … que Deus pode estar a jogar a sua cartada Trump!”
Enquanto isso, JD Vance tentou salvar a face do presidente, dizendo que o Papa deve “ter cuidado” nos comentários que tece e limitar-se a questões de teologia e religião, gerando a ira dos bispos católicos norte-americanos – que, num comunicado de 164 palavras, criticaram o vice-presidente dos EUA por não “compreender os princípios da guerra justa nem a posição fundamental da Igreja, que é a favor da paz”.
Ainda a poeira não tinha assentado, c, o secretário da Guerra, invocou um versículo da Bíblia durante um evento religioso no Pentágono para defender as ações da administração – só que não era um versículo bíblico, antes uma frase do guião de Pulp Fiction, um dos clássicos do cinema moderno, escrito por Quentin Tarantino. Minutos depois, foi o Papa Leão XIV que voltou à carga, escrevendo na sua conta oficial na X: “Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para obterem ganhos militares, económicos e políticos, arrastando o que é sagrado para as trevas e a imundície.”
A fechar a semana, horas antes de uma brecha no impasse para acabar com a guerra no Irão, Leão XIV voltou a não poupar palavras nas críticas ao “punhado de tiranos” que estão a “devastar” o mundo. “Os mestres da guerra fingem não saber que basta um instante para destruir. Fecham os olhos ao facto de que se gastam milhares de milhões de dólares em mortes e devastação, enquanto os recursos necessários para a cura, a educação e a reconstrução não se encontram em lado nenhum.”
Até ao fecho desta edição, o rei Trump ainda não tinha respondido ao Papa. Mas tinha feito mais uma publicação sobre o quão pristina é a sua presidência: "Os EUA são o país mais 'BADALADO' do Mundo neste momento. Há bem pouco tempo, sob o comando do sonolento Joe Biden, ESTAVAM MORIBUNDOS, ERAM ALVO DE CHACOTA EM TODO O MUNDO!!! Mas já não são - Ninguém se está a rir!!!"
Desde o rol de imagens do presidente Trump a dormitar em eventos oficiais até à sondagem recente que mostra a abrupta queda de popularidade dos EUA entre vários aliados, as piadas fazem-se sozinhas.
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Não é só essa sondagem que pinta de negro a presidência Trump. Com a guerra no Irão a arrastar-se, levando os preços dos combustíveis a subirem 21% nos EUA em março – o maior aumento mensal no país desde 1967 – uma série de sondagens divulgadas nas últimas semanas mostram um crescente descontentamento com o conflito.
Num inquérito de opinião recente do Ipsos, 51% dos entrevistados disseram que os custos da guerra não justificam os benefícios alcançados, com outra sondagem da Amherst a mostrar que apenas três em cada 10 norte-americanos acreditam que a guerra no Irão vai tornar o mundo mais estável.
Uma outra sondagem do início do mês também traz más notícias para a administração, mostrando uma quebra brutal de popularidade do presidente Trump entre uma faixa do eleitorado que foi crucial para o eleger no final de 2024 – eleitores brancos sem grau académico. O inquérito segue uma tendência de vários meses, que piorou com o ressurgir do escândalo relacionado com o milionário pedófilo Jeffrey Epstein no início do ano – um caso que envolve Trump e que, segundo um seu ex-aliado Joe Rogan, foi o que levou o presidente norte-americano a atacar o Irão.
Na segunda-feira, em mais uma derrota envolvendo uma imagem incómoda, um juiz federal anulou o processo de difamação de Trump contra a News Corp, detentora do Wall Street Journal, pela divulgação de uma carta com a sua assinatura que enviou a Epstein pelo seu 50.º aniversário, em 2003, em que a mensagem surge enquadrada pelos contornos de uma mulher nua.
O presidente acusava os jornalistas do WSJ de “má-fé”, mas o juiz Darrin Gayles considerou que não conseguiu demonstrar intenção maliciosa. “A queixa está muito longe de cumprir este critério – muito pelo contrário”, escreveu Gayles. “Em suma, a queixa e o artigo confirmam que os réus tentaram investigar [o caso].” E o caso não vai desaparecer.
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Uma guerra que se arrasta
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A semana terminou com o Irão a declarar a “total abertura” do Estreito de Ormuz, depois de vários dias de aparentes avanços e recuos nas negociações de um cessar-fogo para pôr fim à guerra que Donald Trump decidiu iniciar, aparentemente sem estratégia, no último dia de fevereiro. E depois Trump veio dizer que o Irão aceitou suspender o respetivo programa nuclear.
A semana tinha arrancado com Trump a declarar que os EUA iam bloquear o estreito por onde passa 20% do petróleo mundial, depois de semanas a tentar, sem sucesso, acabar com o bloqueio imposto por Teerão em resposta aos ataques conjuntos norte-americanos e israelitas.
Sete dias depois, entramos em mais um fim de semana de incerteza sobre quando – e, acima de tudo, como – é que esta guerra vai acabar. Com o anúncio da reabertura do Estreito de Ormuz, Trump fez mais uma publicação aparentemente contraditória a declarar que “está completamente aberto e pronto para negócios e passagem total, mas o bloqueio naval vai permanecer em toda a força e efeito no que toca ao Irão”.
Durante a semana, os democratas tentaram fazer aprovar no Congresso uma resolução para limitar os poderes bélicos do presidente, mas a maioria republicana do Senado chumbou o projeto-lei com o voto a favor de um democrata. Também esta semana, a oposição apresentou uma proposta de destituição de Pete Hegseth na Câmara dos Representantes, acusando o secretário da Guerra de ter iniciado um conflito não autorizado contra o Irão pondo em risco a segurança dos EUA.
Também esta tentativa democrata de pôr travões à administração Trump deverá ser travada pela maioria republicana – pelo menos até às intercalares de novembro. E enquanto isso, mesmo com um cessar-fogo temporário em vigor no Médio Oriente, a guerra no Irão continua a arrastar-se.
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Admirável Mundo Trump
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