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A atriz que começou os Morangos com Açúcar acha um "mistério" que a série ainda tenha sucesso hoje

22 fev 2025, 18:31

A atriz Benedita Pereira é a convidada desta semana de André Carvalho Ramos no CNN Entrevista

Bem-vindos, eu sou o André Carvalho Ramos. Esta semana a CNN entrevista Benedita Pereira. Decidi convidar-te para esta entrevista depois de ver a peça de teatro Telhado de Vidro. É um drama contemporâneo, político e tenho visto, curiosamente, também cada vez mais peças com conteúdo político. O teatro também é uma forma de fazer política? 

Claro que sim. Qualquer forma de arte é uma forma de fazer política, não tenho dúvidas nenhumas. É sempre uma forma de chegar às pessoas, não tem que ter um discurso panfletário, mas de fazê-las pensar e de as pôr no lugar do outro, que é muitas vezes o que nos falta quando temos ideias muito fixas e não temos essa clareza de ´espera aí, e aquela pessoa, o que é que ela tem a dizer sobre isto?’. E no teatro, em forma de ficção e de personagens, que nós atores temos que fazer de carne e osso e que sejam credíveis, conseguimos pôr o público nesses papéis e a fazê-los pensar, pelo menos fazê-los pensar.

Isso é arriscado, ou seja, ter uma conotação política num momento de entretém?

Não, por acaso, esta peça em específico eu acho que é muito inteligente porque não te dá uma resposta, tu não sais do teatro assim ‘ela estava certa’ e ‘ele está errado’. As pessoas, o que mais me dizem no fim é, por exemplo, as pessoas que têm tendência, mulheres que têm tendência a concordar mais com a minha personagem, mas que depois [pensam] ‘havia coisas que ele dizia que também estava certo’. E, ou seja, este autor, o David Hare, faz muito esta coisa de nos fazer pensar, de abrir o discurso, mas não o fechar, não tomar as decisões por nós e mesmo fazendo com que o público também não saia lá com uma resposta definitiva. Fá-lo pensar, fá-lo de discutir a seguir. 

Estamos a falar de duas personagens completamente diferentes, uma que poderemos dizer que é um de de vista privilegiado da sociedade e outra, que é a personagem que interpretas, que tenta lutar contra a desigualdade. É isso?

Exatamente. Sim, a Clara veio de um meio até privilegiado e até se conhece bem o meio privilegiado, porque também teve uma relação com a personagem do Diogo Infante, o Tomás, durante algum tempo ele viveu na casa dele, portanto, teve todo esse privilégio e sentiu isso e gostou, mas quando, por razões pessoais, tinha que fazer um corte com essa vida, escolheu uma vida totalmente oposta, escolheu a vida de ir ensinar, portanto também falamos do ensino e do ensino público, de ir ensinar as crianças mais credenciadas, nos bairros mais credenciados, ir viver para outro bairro também muito difícil, e fez uma escolha consciente. Agora depois há muitas questões de se ela está bem com isso ou não está, ela diz que sim e acho que tem uma noção de missão. Ou seja, ela até pessoalmente pode não estar no momento mais feliz da vida dela, mas ela sente que é ali que tem que estar, porque há muito trabalhinho a fazer.

Mas isso é um objetivo, uma luta até quase impossível. 

Sim, eu acho que ela sente, ou seja, nunca vai chegar a...

A plena igualdade? 

Sim, é muito difícil, é uma utopia. Mas o que eu acho que ela defende, e que eu acho que é bonito, é tudo o que pudermos fazer, então vamos fazer. Mesmo que nunca cheguemos a uma verdadeira igualdade, a um sítio utópico em que, de facto, toda a gente tem as mesmas oportunidades, etc. Pelo menos ajudar os que mais precisam a subir uns degraus nessa desigualdade. 

Mas ao mesmo tempo a nossa sociedade tem os níveis de escolaridade, de educação mais elevados, se compararmos com há dez, 15, 20 ou mais anos. Ainda assim as desigualdades permanecem. O que é que pode explicar isto? Sermos altamente educados, mas ainda assim não conseguirmos quebrar este ciclo?

Porque nós não vimos todos no mesmo sítio, por isso é que a meritocracia para mim não... Sei lá, quando eu era miúda achava que isso fazia sentido, porque eu também vim de um sítio de privilégio. Mas eu sei que eu não saí do mesmo sítio de outras pessoas que, até podem ter escolaridade, mas estão em escolas péssimas condições, não têm condições nenhumas para estudar, têm casas em bairros em que não têm condições mínimas, em que em casa vivem imensas pessoas em poucos metros quadrados, ou vivem em discussões, ou vivem com violência doméstica, e portanto, [para] essas pessoas, obviamente, é muito mais difícil chegarem a um em em que eu, que vim de uma família em que estava tudo bem e saudável, não extremamente privilegiada, mas que tinha as condições para florescer, para crescer, para vingar.

É quase como se essas pessoas não tivessem tempo de vida suficiente para atingir os mesmos objetivos? 

Sim, eu acho que isso na verdade é a base de todas as desigualdades, porque se nós não dermos oportunidade às pessoas que não são privilegiadas ou que vivem na parte debaixo da sociedade, vamos estar sempre aqui. Nunca damos oportunidade para que elas cresçam, pelo menos, até à nossa base. E por isso é que é muito difícil chegar a essa utopia de sermos todos iguais. Mas podemos, pelo menos, construir uns degraus. E eu acho que é essa a vontade da personagem e acho que é essa a luta de tanta gente que dedica a sua vida, não só os professores como ela, a Clara também faz um discurso bastante difusivo sobre os assistentes sociais, em que, por exemplo, no Porto bateram muitas palmas a esse discurso. E em Inglaterra, quando faziam a versão do espetáculo, ela era sempre ovacionada quando fazia esse discurso, porque é muito forte, são pessoas que de facto dedicam a sua vida aos mais carenciados e ninguém liga nenhuma a este trabalho.

Falta reconhecimento…

Falta reconhecimento, faltam condições, claro que deve haver muita gente que desiste pelo caminho, porque a certa altura, obviamente, se nós também queremos o melhor, e é essa a grande discussão: ‘porquê é que tu queres ser infeliz?’, ‘Porquê é que tu assim nunca vais ser feliz?’, ‘Porque nunca vais atingir os teus objetivos?’, ‘Porque isso nunca vai acontecer?’- Estas crianças vão ser sempre carenciadas. E porquê é que não pensas um bocadinho em ti? Então há um bocadinho o eu e a sociedade. 

Ao mesmo tempo, enquanto estás a representar nesta peça esta personagem, o país entra numa convulsão social, uma onda de violência nos bairros periféricos da cidade de Lisboa, como o bairro do Zambujal. Isto entrou de alguma forma no teu pensamento enquanto estavas em palco? 

Sim, por acaso lembro-me perfeitamente, houve um dia específico em que isso me surgiu e não foi planeado, ou seja, não fui fazer o espetáculo a pensar neles. Eu levei com as notícias, já estavam há alguns dias os tumultos, tudo o que tinha acontecido, as injustiças todas, mas eu não estava conscientemente a relacionar com o trabalho, porque já estava a fazer a peça há algumas semanas, não estava focada nisso. Tenho um um discurso sobre os assistentes sociais e há outro discurso sobre os empreendedores e as pessoas com quem a personagem passa a vida, que são as pessoas que não têm nada de nada e que só estão a tentar sobreviver e que, portanto, tudo o que os empreendedores fazem para elas não significa nada e que é muito mais difícil sobreviver do que fazer do que aumentar as exportações, que isto é uma das coisas que ela diz, ou está no governo. E aí eu senti.. De repente essas imagens todas vieram à cabeça e eu senti uma emoção que diferente dos outros dias, porque de repente aquilo veio, é uma das coisas que não se consegue explicar, de repente tudo aquilo que o meu cérebro tinha estado a registar veio-me naquele momento e eu senti que estava a fazer aquilo para aquelas pessoas naquele dia. Claro que elas, coitadinhas, não estavam a ouvir nada daquilo, mas para mim eu estava a fazer para aquelas pessoas.

E acreditas que quem está a assistir a esta peça tem consciência desta realidade ou acaba por ser alertada pela peça para esta realidade? Ou seja, o teatro hoje em dia é acessível a todas as pessoas, incluindo as que são afetadas ou mais afetadas pela desigualdade?

Não. Há muita gente que não tem acesso ao teatro e que nem sequer, vamos ser sinceros, nem sequer tem tempo ou dinheiro, nem sequer lhes passa pela cabeça ir ao teatro, têm que sobreviver. Eu tenho plena consciência, portanto, também é um ato privilegiado poder ir ao teatro. Agora, tive muita gente, [como] assistentes sociais e professores de escola pública que vieram falar comigo e agradecer e dizer que é exatamente aquilo que se passa e é giro porque isto é um texto que até é originalmente inglês e que foi adaptado para Portugal, mas que é perfeitamente adaptável e pelos vistos está tudo certo na adaptação que foi feita e algumas pessoas bastante emocionadas por se sentirem finalmente vistas e representadas ali. Agora, a verdadeira massa de pessoas que vive o problema, infelizmente, acho que a maior parte não foi ver. 

Tens semelhanças com esta personagem? Ou seja, tens algum combate pessoal, alguma causa eventualmente impossível também, ou não? 

Bom, eu considero-me feminista, estou muito atenta a todo o tipo de desigualdades e também obviamente que a desigualdade social está na base disso tudo, como também o feminismo está na base das desigualdades, muitas desigualdades, na minha opinião. Ou seja, estou atenta, não posso dizer que sou uma ativista, porque não sou, teria que dedicar muito mais tempo da minha vida. Mas quando acontecem pequenas injustiças ou que eu vejo que alguém está a ser prejudicado no trabalho, por exemplo, atores mais novos [em] que abusam deles porque sabem que eles não vão dizer que não e vão-lhe pedir mais isto ou mais aquilo ou menos horas de descanso ou tal. Se vejo isso acontecer, vou falar sobre isso. Acho que já me prejudiquei algumas vezes em relação a isso. Porque acho que tenho o dever de avisar, que já estou aqui há uns anos, eu própria já estive nesse papel, de dizer, olha, ‘não aceites isso, isso não é normal, não te podem pedir isso’. Pronto, e sou capaz de ir falar também com a pessoa.

Mais de proximidade…

Sim, sim, é importante também não julgar. ‘Tu aceitaste isto esta vez, tudo bem, mas não voltas a aceitar’. Isto não é normal. Faz parte da própria aprendizagem, provavelmente. ‘Eu percebo porque é que tu aceitaste, porque eu também já o fiz. Mas agora está aqui o aviso que não te deixes levar outra vez’.

Porque começaste muito cedo a trabalhar enquanto atriz. Para me preparar, fazer a minha pesquisa para esta entrevista, vi muitas outras entrevistas que pudeste. E há um ponto que é os Morangos com Açúcar. Porquê é que achas que os entrevistadores vão sempre ao tema Morangos com Açúcar?

Felizmente, porque eu acho que foi uma coisa que marcou uma geração e pelos vistos já são várias. Ainda agora estava na maquilhagem a falar sobre isso [risos]. De certeza que também se vai falar dos Morangos com Açúcar. Mas vem sempre de um ponto de partida. Ou seja, esse foi o grande ponto de partida da minha carreira na televisão e tive sorte. A verdade é que foi uma sorte fazer uma coisa que marcou tanta gente, tanto os mais novos como havia gente mais velha que também via.

E que ainda hoje ainda vê…

Isto é que para mim é um mistério. Eu não entendo. [risos] Porque com a quantidade de coisas incríveis e com produções muito mais elaboradas e com mais dinheiro e com mais condições e com histórias de hoje em dia, coisas que não são datadas, porque obviamente os Morangos [com Açúcar] da minha altura estão datados. Como é que as miúdas, eu acho que se calhar vêm em modo vintage, não sei, mas de facto ainda agora estávamos a falar sobre isto, a minha filha tem 14, tem 16 vê tudo e voltam a ver e eu penso ‘uau’, para mim é mesmo um mistério, porque eu acho que há imensas coisas muito melhores hoje em dia, não é?

Mas revês também? Já foste fazer esse trabalho? 

Não, sou obrigada a ver quando há algum vídeo no Instagram que passa, [como] no outro dia, [em que] era um [vídeo] sinistro com [a minha personagem] a bater no Diogo Amaral com uma garrafa, a partir de uma garrafa na cabeça, uma discussão. Quem é que devia escrever isso hoje em dia?

Mas tens esse papel de proximidade com os novos atores. Hoje, se pudesses olhar para a Benedita Pereira dessa altura, o que é que lhe dirias?

Ai, havia várias coisas. Eu acho que fui posta em situações que me puseram desconfortável. E eu na altura não conseguia dizer que não, porque diziam um ator tem que estar despido de preconceitos e isso significa quase também estar despido, não é? Na primeira semana de gravações estava sem sutiã na parte de trás de uma carrinha. Eu já falei sobre isto, quer dizer, e foi falado. Na altura era tipo, ‘pronto, tem que ser, vá’. Nem sequer houve o mínimo cuidado. E eu sei que hoje em dia isso já não acontece. 

Já há algum cuidado…

Ou seja, havia um critério diferente. Sim, é tipo, ‘olha, não sabes beijar na boca. Tens que abrir a boca, não sei o quê, não sei o quê’. E eu também não tinha coragem de dizer ao colega que se calhar não era assim. Não havia abertura, havia muitos tabus. E, portanto, eu metia para dentro e queria agradar a toda a gente. 

Permitia-se muito mais do que hoje. Até que ponto é que caminhamos para o extremo exatamente oposto? Ou seja, até recorrendo à experiência nos Estados Unidos, onde viveste, tenho lido vários artigos que apontam para um debate muito intenso sobre a representatividade nas artes também nos Estados Unidos. De que forma é que a representatividade levada a um extremo pode tornar-se perversa? 

Eu percebo essa questão, pode tornar-se perversa, mas eu acho que para nós de facto caminharmos para um sítio de real representatividade, temos que se calhar ser um bocadinho [de] extremos para depois voltar a tudo a ser normal. Não é que eu tenha estudado muito sobre o assunto, mas há questões de representatividade racial, de corpos diferentes, também se falou muito da questão de atrizes transgénero ou atores transgénero, e as pessoas dizem, ‘ah, mas também quer dizer, não há assim tantas personagens’, ou agora ‘um ator não trans já não pode fazer trans?’. Isto é uma questão super delicada para a qual eu não tenho resposta. Agora, que eu sei que para se fazer uma mudança, que às vezes se tem que, de facto, impor limites, impor quase aquela coisa de ter uma percentagem de, isso é muito estúpido nas artes. Mas, se calhar, tem que começar por aí para depois retirar isso e já ser uma coisa normal. Já não se pensar em raça e já não se pensar em identidade de género ou isso tudo. Mas agora não vamos fingir que isto não existe. 'Ai o racismo não existe'. Existe. Há um problema de representatividade. E como é que se combate isso? Se calhar é de uma forma que não é orgânica. Isto não é orgânico. Ter percentagens e o agora temos que ter os mínimos de coisas. Claro, e depois há gente a aproveitar-se disso. Claro que sim, mas claro que temos que ser inorgânicos para depois já ser uma coisa só normal e já acabou. E agora somos de facto todos o mesmo. Mas não é realista dizermos que ‘ah, eu não vejo raças’. Claro que vemos raças, toda a gente vê. E toda a gente vê no mundo e tudo o que está a acontecer. Acho mesmo um discurso perigoso quando dizemos que não vemos.

Mas tendo trabalhado no estrangeiro, nos Estados Unidos, de alguma forma a experiência enquanto imigrante também já a colocou dentro de uma caixa?

Sim. 

Uma categoria? 

Claro, não, pior, queriam colocar-me dentro de uma caixa e não sabiam que caixa é que me queriam pôr. Porque na altura em que eu vivi nos Estados Unidos Portugal não estava bem no mapa. Também há um problema de cultura geral nos Estados Unidos, apesar de em Nova Iorque as pessoas tendessem a ter um bocadinho mais mundo e de serem pessoas de todo o mundo, mas Portugal era assim uma coisa que não existia. Então qual era a caixa? Eras brasileira ou eras hispânica-latina? Para latinos há muitos papéis, mas eu não era bem aquilo, não era bem a latina sul-americana, ou da América Central, ou das Caraíbas, que é o que eles estão a pensar. Mas ao mesmo tempo eu não era nada, porque o meu sotaque português não existe, mas tive que começar a fazer sotaques, a fazer a brasileira, a fazer a espanhola, a francesa, mas havia ali um problema de mas quem és tu realmente?  Hoje em dia sinto, e vai um bocadinho contra essa ideia de que a representatividade é uma coisa que fecha, sinto que há uma abertura de que é bom ser de um sítio que não é preciso dizer de que sítio é que é. E se for de Portugal, até se muda no texto e escreve-se que é portuguesa. Portugal agora já é um sítio onde toda a gente quer ir e já é um sítio mais…

Sim, entretanto mudou, não é? 

Mudou bastante a percepção do que é Portugal. 

E o que é que mudou na Benedita Pereira esta experiência nos Estados Unidos? Que é outro tema que recorrentemente vem nas entrevistas. 

Sim, obviamente mudou muita coisa porque eu passei lá a maior parte dos meus vintes [anos]. Obviamente que eu mesmo estivesse onde estivesse, eu iria evoluir enquanto pessoa. 

Mas aí evoluiu mais a atriz ou a pessoa?

Foi um bocadinho de tudo. Estudei muito com professores diferentes e em escolas diferentes para ser atriz e trabalhei também como atriz e percebi a dificuldade que é lá conseguir um casting, quanto mais um trabalho. E depois também aprendi muito sobre burocracia, por causa dos vistos, e aprendi a ser mais paciente e a perceber que as coisas demoram tempo. Isto é uma coisa difícil, às vezes, porque nos nossos vintes um ano é imenso tempo. E hoje em dia olho para trás e é tudo muito rápido. E dizemos, agora se calhar tenho que esperar um ano. E eu, ‘não, esperar um ano, não vou esperar um ano, vocês estão malucos’. Depois aprendes também muito sobre diversidade porque estás numa cidade em que toda a gente é muito diferente de ti e toda a gente fala mil línguas diferentes e têm religiões diferentes e tu aprendes a lidar com isso tudo e aprendes um bocadinho sobre cada coisa e depois até aprendes coisas sobre gastronomia que depois são ligadas a religiões, que são ligadas a certos feriados. E isso fascina-me e, no fundo, como as pessoas convivem,como essa história de que há e não há raças ao mesmo tempo, porque eles estão muito segmentados, está ali um segmento que está muito naquele sítio, o outro segmento que está muito naquele sítio, mas ao mesmo tempo a certa altura de facto já não vês, já não vês de onde é que as pessoas são.

Mas isso permite criar raízes de alguma forma ou não ficaram? 

Ficaram, sim, ficaram. Percebo que seja difícil, eu passei lá tempo suficiente para criar raízes, apesar de, por exemplo, uma das minhas melhores amigas já não viver lá, mas ainda tenho amigos lá a viver, tenho uma professora com quem eu trabalhei mais, que é tipo a minha mestre, que ainda lá vive, e sinto, quando lá vou, já não vou há mais de dois anos, que ainda pertenço ali. Foi muito tempo. E é uma cidade que, apesar de as pessoas acharem, às vezes, que é um bocadinho fria por ser uma cidade tão grande, eu acho que também nos integra muito rapidamente, porque está habituada a receber pessoas. Então, eu acho que há ali uma coisa de nos sentirmos em casa muito rapidamente. 

Há um lado difícil de viver fora do país? 

Há muitos lados difíceis. Eu imagino quando não havia estas tecnologias, porque eu já fui com, na altura, skypes e telemóveis e tudo isso, e eu mandava e-mails semanais e tal, e sentia-me a alguma proximidade. Mas é difícil não termos essa presença constante das pessoas que nos apoiam constantemente. dia a dia, seja a família, como é o meu caso, sejam alguns amigos também, mas também nos ajuda, também é importante esse corte, não é um corte radical porque eles continuam presentes, mas é importante esta coisa do vamos sobreviver, um bocadinho esta coisa da sobrevivência, claro que de um de de vista sempre um pouquinho privilegiado, mas como é que sobrevivo neste sítio, como é que eu conheço a língua, mas não tenho as referências culturais destas pessoas, isso foi uma das coisas que me preocupou imenso, como é que eu vou ter piada em inglês? A nossa personalidade muda, isso é uma coisa que eu tenho como garantida, nós mudamos um bocadinho conforme a língua que estamos a falar.

E com atriz também, ou seja, a forma de trabalhar muda consoante a língua? 

Não sei se é a forma de trabalhar, mas é a forma como nós nos sentimos quando estamos a fazer uma personagem. Basta mudar um sotaque, que para mim eu já sinto que é qualquer coisa diferente. Eu acho que é uma ferramenta fundamental, que por acaso em Portugal eu acho que se usa muito pouco. Tem-se muito medo de usar os sotaques, e nós temos sotaques lindíssimos. E acho que é uma ferramenta dos atores que lá, por exemplo, é muito valorizada, de saber fazer aquele sotaque específico daquele sítio, daquele estado, ou seja, ou australiano, ou inglês... ou seja o que for. E eu acho que é uma ferramenta muito gira e acho que nos dá um bocadinho esta coisa de ‘sou um bocadinho diferente aqui’. Não sei, há qualquer coisa na maneira de pensar ou na maneira como o nosso corpo reage à língua, não sei explicar. 

Esse caldeirão cultural, sobretudo em Nova Iorque, que será muito específico dentro dos Estados Unidos, pressupõe tolerância. Hoje em dia isso ainda existe na sociedade norte-americana? 

Eu acho que está muito pior, sim. Eu fui-me embora mesmo antes do Trump ser eleito outra vez. Outra vez não, a primeira vez. Outra vez foi agora. E sinto quando falo com as pessoas, com os meus amigos lá, eles dizem, ‘não se pode falar de política’. Não se pode, porque há ali um tabu. Portanto, ou és uma coisa ou és outra. Portanto, essa coisa bipolar... 

Portanto, não dialogam de todo. 

É muito difícil dialogar. Eu acho que isto está a acontecer aqui também, um bocadinho.

Sim. 

Mais lá, mas aqui, sendo que temos vários partidos e temos várias direitas e várias esquerdas, nós podemos encontrar aqui uns meios, caminhos mais fáceis. Lá ou é direita ou é esquerda. Apesar de que eu acho que a esquerda lá nem se compara à esquerda daqui, é muito diferente. E eles dizem mesmo assim, eu não falo sobre política, porque eu sei que não é possível o diálogo. E há amigos que deixam de se falar, há pessoas que deixam de se falar, ou porque de facto falam e a coisa corre muito mal, e não há espaço para ver ‘se calhar tu tens razão nisto’, aquela coisa que eu estava a falar da peça, ‘se calhar tens um de de vista’, eu também percebo, porque há ali um sítio que...

Onde os argumentos são mais difíceis de... 

É muito difícil tolerar certas coisas. Eu percebo, eu também entendo. Ainda bem que não estou lá.

Mas quando dizes, por exemplo, numa entrevista, não tolero a intolerância, até onde é que isto pode ser também intolerante?

Pois, eu também levei com isso. Quando tens um discurso claramente racista, quando dizes que há uma raça que é superior à outra, eu não posso tolerar isso. É isso que eu estou a dizer. Não posso. Não consigo. Não há argumentos. Eu até posso argumentar. 

Quando fere a integridade do outro.

Sim. Quando, sei lá, quando é uma coisa contra as mulheres, de tipo, ‘ah, o espaço da mulher na cozinha’, ou ela ‘estava mesmo a pedi-las’ sobre as violações. Pronto. Aquele tipo de... Esse tipo de discurso, para mim... 

Mas esse discurso já entrou cá também no discurso político.

Eu sei, eu sei. E isso é o que me preocupa. Claro que o facto de eu reagir assim também, também não ajuda, porque o certo é nós estarmos a conversar. Só que eu acho que há um sítio em que já não dá para conversar. E a polarização tem esse problema e eu acho que está nos Estados Unidos e como tudo na vida vem dos Estados Unidos e vai e depois a moda vai-se pegando. Eu tenho esperança em Portugal por termos ainda partidos e várias versões do que é a esquerda, do que é a direita, e acho que é possível dialogar ainda entre pessoas que podem ter ideias um bocadinho diferentes, mas que estão certas que aquilo é que não querem. Ou seja, ‘eu não quero isto’. Se calhar não quero o que tu queres, mas isto estamos de acordo que não queremos. E isso aí dá para conversar.

E que papel é que tem uma atriz? Porque sei que acreditas que as atrizes têm uma influência pública, são uma espécie de influencer da vida real. Como é que pretendes usar esta tua posição de privilégio para influenciar? O que é que queres influenciar com a tua presença pública?

Eu, no fundo, sinto o peso da responsabilidade. Eu não sinto que tenha o dever, eu não tenho obrigatoriamente que ser uma ativista e uma pessoa super aberta em relação às minhas opções políticas ou às minhas ideias, às minhas convicções, mas ao mesmo tempo há certas coisas que nós, pela maneira como tratamos os outros, [pela} maneira como falamos de certos assuntos, podemos influenciar as pessoas pelo exemplo e não tem que ser, não tem que evangelizar ninguém. Claro que há certos assuntos que eu se calhar tenho mais vontade de falar e hoje em dia felizmente temos plataformas em que podemos influenciar. As redes sociais, por exemplo, em que podemos falar das coisas sem filtro, mas depois também tem um lado perigosíssimo, que é as pessoas são perigosas atrás do ecrã, atrás dos telemóveis e dos computadores, porque depois as pessoas também são muito desagradáveis e gostam de ferir por ferir e gostam também de dizer coisas sem pensar, sem olhar.

Já sentiste isso em relação a ti? 

Sim.

Já te disseram coisas preferidas de não ter lido? 

Sim, preferia não ter lido, claro. Nós quando nos pomos nestas situações, por exemplo, como esta entrevista, ou outras entrevistas que damos e [em] que falamos sobre assuntos que podem ser um bocadinho mais sensíveis. 

Mais polarizados. Daí a minha pergunta inicial, qual é o risco de trazer a política... 

É arriscado e eu também não tenho uma resposta muito certa para isso. Às vezes não tenho que ser político de estar a dizer ‘eu acredito nisto e eu acredito naquilo’, mas na maneira como eu me comporto, a maneira como eu trato as pessoas, como sigo a minha vida…

Gera uma crítica só por isso? 

Sim. Sim, isso é também, exatamente. Eu não sei bem qual é o caminho, eu só tento é não fazer nada que seja uma má influência para as gerações que vêm aí, pessoas que olham para mim como um exemplo para alguma coisa. Eu estou neste lugar porque sou atriz, não porque eu sou um exemplo para alguma coisa, mas na verdade é que depois acabo por ser um exemplo. E então é uma situação delicada, porque eu não escolhi exatamente ser o exemplo. Mas tenho essa responsabilidade. Por isso é que eu vivo nestas coisas. Eu quero dizer algumas coisas, mas ao mesmo tempo... Eu não andei a estudar política, eu não sei tudo sobre tudo, antes pelo contrário, eu tenho muito medo de falar sobre coisas que eu não conheço porque depois [as pessoas] vêm... ‘Ah, mas não leste não sei o quê’.

E hoje em dia quase tudo é politizado. A verdade é essa. Qualquer posição que se possa tomar pode ser tomada como posição política.

Claro, claro. Quando eu dei uma entrevista a um podcast e saíram coisas nas redes sociais, bem, aquilo... Eu não disse nada de especial! E de repente era tipo insultos, e depois porque não sequer liam, diziam que eu tinha 22 anos, porque no início diziam, ‘aos 22 anos ela mudou-se para Nova Iorque’, e depois eu falava sobre a ditadura da juventude, e diziam, ‘como é que ela sabe se ela só tem 22 anos?’ E eu assim, ai, muito obrigada, mas não tenho. É só ler a frase. 

Uma última questão, preferes ser tratada por Benedita ou por Beni?

A pista é tratada por Beni, porque quer dizer que já temos alguma intimidade. 

Obrigado por teres aceitado estar aqui connosco.

Obrigada eu.

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