A temperatura do planeta continua a subir de forma perigosa

CNN , Rachel Ramirez
26 jan, 13:00
Em agosto, uma mulher idosa foi obrigada a abandonar a sua casa à medida que um incêndio arrasa a ilha de Evia, na Grécia. Foto: Konstantinos Tsakalidis/Bloomberg/Getty Images

O ano de 2021 foi o quinto ano mais quente de que há registo. Os últimos 7 anos têm sido os mais quentes de que há registo à medida que o planeta se aproxima de limite crítico

Novos dados revelam que os últimos sete anos têm sido os sete mais quentes de que há registo para o planeta com a temperatura da Terra a continuar a subir de forma perigosa devido aos gases com efeito de estufa causados pelas emissões de combustíveis fósseis.

Uma nova análise do Copernicus Climate Change Service da União Europeia, que rastreia a temperatura global e outros indicadores climáticos, chegou à conclusão de que o ano de 2021 foi o quinto ano mais quente de que há registo.

Embora a tendência a longo prazo seja ascendente, esperam-se flutuações anuais na temperatura global, sobretudo devido a padrões climáticos e oceânicos em grande escala como o El Niño e La Niña, o último dos quais ocorreu em 2021 e tende a conduzir a uma temperatura global mais fria.

"O que realmente importa é não ficarmos agarrados à posição de um determinado ano, mas ver o panorama geral das temperaturas sempre a subir, e isso não significa que todos os anos sejam cada vez mais quentes", disse Freja Vamborg, cientista sénior da Copernicus. "Mas foi isso que vimos até agora com cada década cada vez mais quente, o que é bastante provável que continue".

A temperatura média da Terra é de cerca de 1,1 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais médios, relata Copernicus, ou seja, 73% do caminho até ao limite de 1,5 graus, que, segundo os cientistas, não deve ser ultrapassado de forma a se evitar impactos ainda piores.

Tendências ascendentes de aquecimento global

Embora a temperatura global tenha descido ligeiramente em 2021, os investigadores continuam a preocupar-se com o aquecimento global da atmosfera terrestre.

Temperaturas globais em comparação com uma linha de base de 1850-1900

Nota: Temperaturas médias anuais do ar a uma altura de 2 metros em relação à média de 1850 a 1900. Fonte: Copernicus Climate Change Service. Gráfico: John Keefe, CNN

Kim Cobb, diretora do Programa de Mudança Global do Georgia Institute of Technology, disse que um aquecimento de 1,1 graus Celsius é uma estimativa "conservadora".

"É correto dizer-se que 1,1 graus Celsius é um valor conservador, porque a última metade da última década foi mais quente do que a primeira metade", disse Cobb – que não está envolvida no relatório – em declarações à CNN.

Mesmo com 1,1 graus, o ano de 2021 deixou bem claro que o mundo já está a sentir efeitos sem precedentes da crise climática para a qual muitos não estão preparados, incluindo eventos de degelo significativos no Ártico, cheias mortíferas, vagas de calor sem precedentes e períodos de seca históricos. Segundo Copernicus, concentrações globais de gases com efeito de estufa – a causa principal da crise climática e do agravamento das catástrofes – continuaram a aumentar.

1.1 graus Celsius

Em 2015, os líderes mundiais concordaram em prestar atenção aos avisos dos cientistas e limitar a rápida subida da temperatura da Terra a menos de 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, com um objetivo preferido de 1,5 graus.

Esse limite pode não parecer muito, mas os cientistas da NASA dizem que é como o facto de um aumento de 1 ou 2 graus na temperatura corporal poder levar a uma febre. Com cada fração de um grau de aquecimento, a doença agrava-se com uma maior probabilidade de ser necessária uma hospitalização.

Para o planeta, os cientistas estão a acompanhar o aumento da temperatura da Terra desde a linha de base do início da Revolução Industrial, de meados do século XIX, quando os seres humanos aceleraram a combustão de combustíveis fósseis como o carvão e o petróleo.

Uma área de Blessem, no município de Erftstadt, no leste da Alemanha ficou destruída pelas cheias em Julho de 2021. Foto: Sebastien Bozon/AFP/Getty Images

Cobb disse que para cada incremento do aquecimento futuro, a última investigação climática esboça consequências em cascata que ameaçariam todos os aspetos e necessidades da Terra, incluindo a biodiversidade, a água doce e o abastecimento alimentar.

"Nós mal ultrapassámos o limite de 1 grau para o aquecimento e, mesmo assim, estamos a sofrer à conta de uma série quase constante de eventos extremos climáticos e meteorológicos", disse Cobb à CNN. "Salvo raras exceções, estes eventos extremos podem estar agora definitivamente ligados ao aquecimento causado pelo homem." No futuro, devemos esperar que a frequência e severidade de tais extremos aumente causando um enorme impacto nas sociedades de todo o mundo".

Diferença de temperatura em 2021 em comparação com a média dos 30 anos anteriores

Temperatura do ar a uma altura de 2 metros em relação à média de 1991 a 2020. Fonte: Copernicus Climate Change Service Gráfico: Renée Rigdon e John Keefe, CNN 

O ano de 2021 trouxe vagas de calor e cheias que causaram vítimas em massa; chuva no cume da Gronelândia pela primeira vez desde que há registo; uma seca histórica que assolou grande parte da região ocidental dos EUA e que desencadeou grandes e destrutivos incêndios florestais e uma escassez de água nunca antes vista.

Os efeitos do rápido aquecimento do planeta foram sentidos em quase todos os cantos do mundo. Os investigadores do Copernicus destacaram várias regiões que registaram as temperaturas mais acima da média em 2021, desde a região ocidental dos EUA e do Canadá à Gronelândia bem como grandes extensões da África Central e Setentrional e do Médio Oriente.

No ano passado, o verão na Europa foi o mais quente de que há registo, informou a agência, com vários eventos climáticos extremos a causar estragos em todo o continente, incluindo cheias mortíferas na Alemanha, Bélgica e Holanda, e devastadores incêndios florestais no Mediterrâneo oriental e central.

Na América do Norte, a análise feita revelou períodos de incríveis desvios de temperatura em relação à norma, incluindo uma intensa vaga de calor no Noroeste Pacífico e na British Columbia. A análise referiu também os impactos generalizados do incêndio Dixie - o segundo maior incêndio selvagem jamais registado na Califórnia - cujo fumo prejudicial assolou todo o continente.

À medida que os sintomas de um planeta febril se agravam, o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas da ONU concluiu em agosto que a única forma de travar esta alarmante tendência é reduzir de forma drástica as emissões de gases com efeito de estufa ao mesmo tempo que se eliminam os gases com efeito de estufa que os seres humanos já lançaram para a atmosfera.

Motivo 'inspirador' de esperança

Em novembro, o grupo de investigação Climate Action Tracker avisou que o mundo está no bom caminho para 2,4 graus de aquecimento, se não mais - apesar das novas e atualizadas promessas climáticas dos países, incluindo as feitas na conferência da ONU sobre o clima em Glasgow.

Os especialistas alertaram que as emissões globais de gases com efeito de estufa em 2030 ainda serão aproximadamente o dobro do que será necessário para limitar um aquecimento de 1,5 graus. Pior ainda, sob as atuais políticas - não propostas, mas sim o que os países estão de facto a fazer neste momento – as projeções de temperaturas globais feitas pelo grupo de investigação climática apontam para uns catastróficos 2,7 graus Celsius.

Nesse momento, o planeta estaria em estado crítico. O relatório Copernicus revelou que as emissões de carbono continuaram a aumentar em 2021, apesar de uma pandemia global. As emissões de metano, um gás com um efeito de estufa aproximadamente 80 vezes mais potente a curto prazo do que o dióxido de carbono, continuaram a aumentar "muito substancialmente".

Vamborg salientou que o relatório serve para lembrar que o aumento das emissões de gases com efeito de estufa é o que alimenta o rápido aquecimento do planeta, acrescentando que "a curva da temperatura global continuará a subir à medida que continuarmos a emitir gases com efeito de estufa".

A recompensa da humanidade por impedir o planeta de passar os 1,5 graus, disse Cobb, deveria ser mais do que suficiente para suscitar uma ação ousada e coletiva. Optar por limitar as emissões de combustíveis fósseis a esse ponto poderia "provavelmente arrefecer o planeta na segunda metade deste século".

"A ideia de que poderíamos viver para assistir a uma inversão do aquecimento global é inspiradora para nós, gerações que testemunharam década após década de aquecimento", disse Cobb. "É um futuro pelo qual vale a pena lutar e fazer acontecer, com uma escolha energética de cada vez."

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