Como o clima extremo está a tornar mais móvel, persistente e perigosa a poluição por plástico

CNN , Laura Paddison
13 dez 2025, 12:00
Um canal de escoamento entupido com resíduos de plástico após inundações causadas pelas monções no Paquistão, em agosto (Asif Hassan/AFP/Getty Images)

Na fotografia principal deste artigo vê-se um canal de escoamento entupido com resíduos de plástico após inundações causadas pelas monções no Paquistão, em agosto

A crescente onda de microplásticos já é uma ameaça ao ambiente e à saúde. Contudo, à medida que o mundo aquece, levando a condições meteorológicas cada vez mais extremas, está a transformá-los em “poluentes mais móveis, persistentes e perigosos”, segundo um novo estudo, que apela a uma ação urgente.

A ligação entre o plástico e as alterações climáticas costuma concentrar-se na forma como o plástico é responsável, em parte, pela crise: mais de 98% do plástico é feito com combustíveis fósseis, poluindo durante todas as etapas do seu ciclo de vida, do fabrico ao descarte.

Uma abordagem menos frequente está na forma como as próprias alterações climáticas, ao alimentarem ondas de calor, incêndios e inundações mais frequentes e intensas, acabam por aumentar a poluição por plástico, espalhando-o ampla e perigosamente.

Uma equipa de cientistas analisou centenas de estudos e encontrou “evidências suficientes” de que as alterações climáticas estão a agravar a poluição por plástico na água, no solo, na atmosfera e na vida selvagem, segundo uma análise publicada na revista Frontiers in Science.

“A poluição por plástico e o clima são crises que se intensificam uma à outra”, refere o autor principal do estudo, Frank Kelly, professor da Escola de Saúde Pública do Imperial College London.

As ligações são múltiplas e complexas.

O aumento da temperatura, da humidade e da luz solar decompõe o plástico, tornando-o frágil, o que acelera a sua desintegração em pequenos fragmentos. Um aumento de 10 graus Celsius na temperatura durante uma onda de calor extremo pode duplicar a taxa de degradação do plástico, observa o estudo.

Tempestades extremas, inundações e ventos também aceleram a decomposição do plástico, movendo-o e espalhando-o mais rapidamente. Os tufões em Hong Kong, por exemplo, aumentaram em quase 40 vezes a concentração de microplásticos nos sedimentos das praias, segundo um estudo recente.

Outra reviravolta estranha está no facto de as inundações também puderem ajudar a formar “rochas plásticas”, que são criadas quando rochas e plásticos formam uma ligação química, fundindo-se. Tornam-se pontos críticos para os microplásticos.

Uma “rocha plástica” no laboratório da Universidade do Paraná, no Brasil (Rodrigo Fonesca/AFP/Getty Images)

Os incêndios florestais, alimentados por temperaturas altas e secas, queimam casas, escritórios e veículos, libertando na atmosfera microplásticos e outros compostos altamente tóxicos.

Há depois os microplásticos que já existem. Quando se forma, o gelo marinho retém e concentra microplásticos, transformando-se num depósito de poluição por plástico. Contudo, à medida que as temperaturas aumentam e o gelo marinho derrete, pode tornar-se uma importante fonte destes materiais.

A análise concluiu que as alterações climáticas também podem tornar o plástico ainda mais prejudicial.

Os microplásticos atuam como “cavalos de Tróia”, transportando substâncias como pesticidas e produtos químicos que não se decompõem facilmente no ambiente. As temperaturas mais altas podem ajudar os plásticos a absorver e a libertar mais facilmente esses contaminantes prejudiciais, além de aumentarem a sua capacidade de libertar produtos químicos nocivos contidos no próprio plástico.

À medida que as crises da poluição por plástico e das alterações climáticas colidem, os impactos nos animais, especialmente na vida marinha, podem ser significativos, conclui o estudo.

Investigações sobre corais, caracóis marinhos, ouriços-do-mar, mexilhões e peixes descobriram que a poluição por microplásticos deixou estes animais  menos capazes para lidar com o aumento da temperatura e a acidificação dos oceanos, ambos fenómenos alimentados pelas alterações climáticas.

Alguns animais que se alimentam por filtragem, como os mexilhões, ficam cheios de microplásticos, transferindo-os depois para os seus predadores, fazendo a poluição subir na cadeia alimentar. “Predadores de topo, como as orcas, podem ser especialmente vulneráveis”, refere o coautor Guy Woodward, professor de ecologia no Imperial College London.

Alguns animais que se alimentam por filtragem, como os mexilhões, ficam cheios de microplásticos, transferindo-os depois para os seus predadores, fazendo a poluição subir na cadeia alimentar. “Predadores de topo, como as orcas, podem ser especialmente vulneráveis”, refere o coautor Guy Woodward, professor de ecologia no Imperial College London.

Poluição por plástico e conchas marinhas na costa da Ilha da Liberdade, em Manila, Filipinas (Ezra Acayan/Getty Images)

O estudo sugere várias soluções para esta crise, incluindo a necessidade de reduzir o uso de plástico, bem como de o reutilizar e reciclar. Além disso, sugere que sejam reformulados os produtos e eliminados os plásticos descartáveis desnecessários.

A “maior esperança” para o sucesso passaria por um tratado global, juridicamente vinculativo, sobre os plásticos, com o objetivo de acabar com a poluição, afirma o relatório. Contudo, anos e anos de negociações ainda não conseguiram produzir qualquer acordo, uma vez que os países continuam profundamente divididos, especialmente sobre a imposição de limites à produção de plástico – algo que muitos especialistas ambientais consideram essencial para conter a crise.

Encontrar soluções torna-se cada vez mais urgente, argumentam os autores do relatório, uma vez que a situação tende a piorar. A produção global anual aumentou em 200 vezes entre 1950 e 2023. Prevê-se que continue a aumentar, mesmo que o mundo avance para a energia limpa e que as empresas petrolíferas transfiram os seus investimentos.

“Temos de agir agora, porque o plástico descartado hoje ameaça perturbar, à escala global, os ecossistemas no futuro”, refere Stephanie Wright, autora do estudo e professora associada da Escola de Saúde Pública do Imperial College London.

Tamara Galloway, professora de ecotoxicologia da Universidade de Exeter, que não participou no estudo citado, destaca a importância desta pesquisa, sobretudo por olhar para o futuro para identificar o que pode acontecer se os seres humanos continuarem a aquecer o planeta.

“Há claramente uma falta de estudos que considerem conjuntamente estes dois desafios globais de saúde”, diz à CNN. “Na base de ambos está a necessidade de reduzir os padrões excessivos de consumo que estão a impulsionar tanto as alterações climáticas como a poluição por plástico”.

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