Porque é essencial proteger o planeta para prevenir futuras pandemias

CNN , Opinião de Marco Lambertini, Gim Huay Neo e Elizabeth Mrema
2 fev, 22:00
Vista aérea da rede que vai buscar a energia à central hidroelétrica de Mutwanga, na República Democrática do Congo, e que atravessa as montanhas Rwenzori. Foto: Alexis Huguet/AFP/Getty Images

Há décadas que a ciência sobre os efeitos em cascata dessa perda está em discussão e, agora, observamos o seu impacto na vida real, incluindo o aparecimento de novas doenças infecciosas, com cada vez mais frequência. É importante que os governos e empresas colaborem na conservação e reabilitação dos ecossistemas, defendem os autores deste artigo

Nota do editor: Marco Lambertini é diretor-geral do Fundo Mundial da Vida Selvagem, o WWF. Gim Huay Neo é diretora do Fórum Económico Mundial. Elizabeth Mrema é secretária-geral da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica. As opiniões expressas neste comentário são dos próprios.

Quase dois anos após o início da pandemia de covid-19, os avanços científicos impulsionados pela colaboração internacional ajudaram-nos a criar vacinas e outros tratamentos que nos podem ajudar a enfrentar a crise na saúde. Mas a nossa relação fraturada com o mundo natural continua a deixar-nos vulneráveis a pandemias e isso é algo que os governos e as empresas a um nível global têm de resolver.

Tanto a perda de habitat como o comércio da vida selvagem aumentam a probabilidade de as doenças passarem dos animais para os humanos. Os nossos sistemas agrícolas e alimentares cada vez mais intensivos exigem um maior uso da terra e mais criação de animais, e são um dos principais impulsionadores da deflorestação. Isso reduz o habitat dos animais selvagens, o que implica que eles entrem mais em contacto com as pessoas, aumentando as oportunidades para os agentes patogénicos aparecerem. E muitas doenças zoonóticas prosperam nas condições cada vez mais quentes e húmidas provocadas pelas alterações climáticas induzidas pelo homem.

Ao mesmo tempo, a perda de biodiversidade está a prejudicar a capacidade da Natureza de providenciar coisas como água potável e um clima estável. Há décadas que a ciência sobre os efeitos em cascata dessa perda está em discussão e, agora, observamos o seu impacto na vida real, incluindo o aparecimento de novas doenças infecciosas, com cada vez mais frequência.

O mais recente Relatório Global de Riscos do Fórum Económico Mundial revela que os líderes mundiais classificam agora a perda de biodiversidade como um dos riscos mais graves que a humanidade enfrentará na próxima década, juntamente com a falta de atuação a nível ambiental e os eventos climáticos extremos. Com mais de metade do PIB global a resultar de indústrias que dependem da Natureza, como a construção e a alimentação, as empresas também pedem ações para proteger e restaurar a Natureza, o que é essencial para uma economia global resiliente.

Infelizmente, a consciência destes riscos associados à Natureza não se traduziu em ações que ajudariam a evitar futuras pandemias. Até agora, demasiados planos de recuperação da covid-19 falharam comprovadamente em colocar o meio ambiente no centro da recuperação económica mundial da pandemia; um exemplo seria incentivar os agricultores e os trabalhadores rurais a adotarem uma agricultura produtiva e regenerativa, o que reduziria a perda de habitat e, consequentemente, as oportunidades de desenvolvimento de doenças zoonóticas. E, embora os líderes mundiais se tenham comprometido a reverter a perda de biodiversidade até 2030, a ação no terreno continua a ser fragmentada e está muito longe do ritmo e da escala necessários.

Os líderes empresariais e governamentais precisam de tomar medidas ousadas agora para garantir uma abordagem regenerativa da Natureza e reduzir o risco de futuras pandemias globais. Eis algumas coisas que podem fazer.

Um compromisso ao apoio financeiro

Os ecossistemas como as florestas e os mangais são essenciais tanto para a diversidade da vida selvagem como para a resistência das comunidades vizinhas. É por isso que é tão importante que os governos e as empresas colaborem no financiamento de esforços de conservação e reabilitação.

O Quénia, por exemplo, encorajou a inovação do setor financeiro desenvolvendo um mercado doméstico de obrigações ecológicas, que promove os investimentos verdes em áreas como a agricultura sustentável e as energias renováveis.

Outras iniciativas, como a task force das Informações Financeiras Relacionadas com a Natureza, estão a ajudar as instituições financeiras e as empresas a lidar com os respetivos impactos e dependências da Natureza. E, nas Montanhas Rwenzori do Uganda, o WWF trabalhar com o governo, o setor privado e outras organizações da sociedade civil para apoiar o reflorestamento e a criação de empregos sustentáveis. É importante sublinhar que o projeto incentiva a gestão comunitária dos recursos naturais.

Definir metas

As empresas também podem ajudar a reverter a perda de biodiversidade estabelecendo metas científicas para a Natureza e tomando medidas que garantam que as cadeias de abastecimento não contribuem para a desflorestação.

Os líderes políticos têm a obrigação de mostrar que estão empenhados em providenciar uma resposta integrada à nossa emergência planetária e de saúde, agindo sobre os compromissos existentes com a Natureza, incluindo o Leaders' Pledge for Nature, que exige aos signatários uma abordagem aos fatores diretos e indiretos da perda de biodiversidade e uma resposta ecológica à crise da covid-19, entre outras ações.

Este ano, os governos do mundo inteiro vão reunir-se em Kunming, na China, para elaborar um novo plano de ação para a biodiversidade. Isto representa uma oportunidade importante para garantir um futuro saudável para as pessoas e para o planeta. Mas os chefes de estado devem passar das palavras à ação, incumbindo os seus negociadores da tarefa de garantir um acordo de biodiversidade forte e abrangente, enquanto são tomadas medidas no terreno.

Os líderes não podem continuar a ignorar a crescente crise da Natureza. Devem lembrar-se que proteger a biodiversidade e garantir um mundo positivo para a Natureza é mais do que uma responsabilidade moral: é fundamental para reduzir o risco de pandemias e para cumprir as metas do Acordo de Paris. Precisamos de quebrar coletivamente a inércia de um modelo económico que não tem em consideração o nosso impacto no meio ambiente e criar novos incentivos e inovações para um planeta onde as pessoas possam viver em harmonia com a Natureza.

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