Um encontro com um desconhecido, um post no Reddit e um testemunho - tudo a mesma pessoa - levaram as autoridades norte-americanas até ao suspeito português
Cláudio Manuel Neves Valente, nascido a 22 de janeiro de 1977 no Entroncamento, foi identificado pelas autoridades norte-americanas como o autor do tiroteio na Universidade de Brown, em Boston, e da morte do físico português Nuno Loureiro, com quem estudou no Instituto Superior Técnico em 1995, na mesma cidade.
A investigação começou pelo tiroteio na universidade, que matou dois estudantes e feriu oito, dois dias antes do assassínio do físico português do MIT. De acordo com um documento da polícia de Providence, várias vítimas que sobreviveram ao tiroteio e testemunhas que estavam presentes no auditório da universidade foram submetidas a procedimentos de identificação fotográfica.
No dia 15 de dezembro, agentes da polícia de Providence foram até ao hospital onde os feridos estavam internados e mostraram as imagens do suspeito.
"[Uma das feridas] disse que viu bem o suspeito. Quando lhe foi mostrada uma foto do suspeito, ela congelou, retraiu-se e emocionou-se. Foi vista a chorar e a tremer. Depois confirmou que a imagem mostrava o atirador", lê-se no documento que dá ainda conta de que outros três feridos tiveram a mesma reação.
No entanto, foi uma publicação no Reddit, feita a 16 de dezembro, que veio a deslindar toda a investigação. Na publicação, um utilizador dizia que se tinha cruzado com o suspeito.
"Estou a falar muito a sério. A polícia precisa de investigar um Nissan cinzento com matrícula da Florida, possivelmente um carro alugado. Esse era o carro que ele estava a conduzir. Estava estacionado em frente à pequena cabana atrás da Sociedade Histórica de Rhode Island, do lado da Cooke St. Eu sei porque ele usou o comando da chave para abrir o carro, aproximou-se e depois algo o fez recuar. Quando ele recuou, voltou a trancar o carro. Achei aquilo estranho, por isso, quando ele deu a volta ao quarteirão, aproximei-me do carro e foi aí que vi a matrícula da Florida. Ele estava estacionado na secção entre o portão da RIHS e a esquina da Cooke com a George St.", lê-se na publicação.
Nesse mesmo dia, os investigadores encontraram imagens de videovigilância que mostravam o carro que correspondia à descrição. E encontraram também imagens de uma testemunha que se cruzou com o suspeito. No dia seguinte, a polícia divulgou as imagens dessa mesma pessoa e pediu que quem tivesse informações sobre a mesma que os contactasse.
"Na noite de 17 de dezembro, um indivíduo do sexo masculino aproximou-se de agentes da polícia de Providence na rua Meeting, n.º 194, onde se localiza o edifício Alumni Hall da Universidade de Brown. O indivíduo identificou-se como John e como o autor da publicação no Reddit. A identidade completa de John é conhecida pela Polícia de Providence e pelo seu declarante. John indicou que desejava falar com a Polícia de Providence sobre as suas interações com o indivíduo que a Polícia de Providence tinha identificado publicamente como uma “pessoa de interesse”. John não se referiu a esse indivíduo como “o suspeito”, mas é claro, a partir da sua entrevista gravada, que se referia ao indivíduo que aparece nos vídeos de vigilância. John "acompanhou voluntariamente os agentes da polícia até à esquadra, onde concordou com uma entrevista gravada", lê-se no documento.
Na entrevista gravada, John revelou que "encontrou o suspeito pela primeira vez dentro de uma casa de banho no rés-do-chão do edifício Barus Holley, imediatamente à direita de uma entrada do edifício, em 13 de dezembro de 2025, por volta das 13:45-14:00".
Sempre que se cruzou com o suspeito, John fez contacto visual com ele "ou esteve em estreita proximidade" por várias vezes e que depois de se cruzar com ele perto do carro o confrontou.
"O encontro inicial envolveu John fixar o olhar no suspeito. Depois disto, observou o suspeito sair do edifício para o parque de estacionamento. John [observou a] entrada até ver o suspeito subir a Rua Manning e depois seguiu-o. John descreveu então um encontro com o suspeito perto da Sociedade Histórica de Rhode Island (RIHS). Ele observou o suspeito aproximar-se de um sedan cinzento ou prateado com uma matrícula da Florida. John assumiu que o suspeito tinha um comando de chave porque as luzes do Nissan acenderam-se à medida que o suspeito se aproximava, como se o veículo estivesse a ser destrancado por um comando. O suspeito virou-se subitamente, afastando-se do veículo, e caminhou na direção oposta, virando à esquerda no cruzamento próximo. John afirmou que o suspeito 'olhou para [ele] como se [o] conhecesse'. John permaneceu naquele quarteirão e observou o suspeito a dar a volta à zona, mudando de direção sempre que se viam um ao outro. John descreveu este padrão como 'um jogo de gato e rato' entre ele próprio e o suspeito. A certa altura, encontraram-se na Rua George, momento em que o suspeito correu na direção oposta. John correu então atrás da pessoa de interesse, abrandou para uma caminhada rápida e passou pelo suspeito. John virou-se então de frente para o suspeito. John estima que estivessem parados a aproximadamente 60 cm de distância um do outro. John perguntou ao suspeito: 'O seu carro está ali atrás, porque é que está a dar voltas ao quarteirão?'. O suspeito respondeu: 'Eu não o conheço de lado nenhum', e depois o suspeito perguntou repetidamente: 'Por que é que me está a assediar?'", acrescenta o documento.
John disse ainda à polícia que se apercebeu de um "sotaque" na voz do suspeito e que pensou que o mesmo fosse hispânico.
Depois do testemunho de John, a polícia cruzou os dados com a informação que um funcionário da Universidade de Brown tinha dado, de que um carro suspeito tinha sido visto na zona no dia 11 de dezembro pelas 9:15 e que "o sedan cinzento com a matrícula da Florida estava a andar tão lentamente que quase que parou".
A partir daí, a polícia encontrou imagens de videovigilância que mostravam o Nissan Sentra pelo menos 14 vezes na zona da universidade, sendo que a primeira vez que o carro foi visto foi a 1 de dezembro, ás 17:59. O carro foi visto depois a 13 de dezembro com a matrícula parcialmente alterada.
"Este veículo foi alugado na Alamo Rent A Car, na 270 Atlantic Avenue, no centro de Boston, em 1 de dezembro de 2025, às 11:36. De acordo com os registos da Alamo Rent A Car, o veículo em questão é um Nissan Sentra, com a matrícula da Florida #62DQEV, tendo apenas a matrícula traseira fixada no veículo. O locatário deste veículo através da Alamo em Boston é Cláudio Manuel Neves Valente (22/01/1977), que forneceu uma carta de condução da Florida, indicando a sua altura como 1,75 m. Em 17 de dezembro de 2025, agentes especiais da ATF deslocaram-se à Alamo Rent A Car na 270 Atlantic Avenue, para solicitar vigilância por vídeo. Os vídeos da Alamo foram obtidos posteriormente para várias datas, envolvendo Cláudio Manuel Neves Valente."
Com a identificação de quem alugou o carro, a polícia pediu informações sobre Cláudio Valente à Universidade de Brown e descobriu que este era "um antigo aluno sem qualquer afiliação ativa atual".
"Esteve matriculado desde o outono de 2000 até ao semestre da primavera de 2001. Estava num programa de doutoramento (PhD) em física. Naquela época, tinha como morada a Rua Governor, n.º 122, na cidade de Providence. Após a primavera de 2001, entrou em licença de ausência. Retirou-se oficialmente de Brown no outono de 2003", lê-se.
As autoridades conseguiram ainda aceder ao histórico de imigração de Cláudio Valente e descobriram que o português foi admitido na Universidade de Brown a 23 de agosto de 2000, tendo chegado ao Aeroporto Internacional Logan, em Boston, Massachusetts, a bordo do voo 215 da British Air, e deixou os Estados Unidos a 22 de dezembro do mesmo ano.
"Valente viajou de volta para os Estados Unidos em 25 de janeiro de 2001, sob o nome Cláudio VALENTE (nascido a 22/01/77). A 10 de maio de 2017, foi emitido a Valente um visto de imigrante de diversidade (DV/IV). Em 14 de setembro de 2017, Valente foi legalmente admitido como Residente Permanente Legal (novo imigrante) no Aeroporto Internacional JFK, em Nova Iorque, NY. No visto DV/IV de Valente de 2017, consta a Universidade de Brown como o nome da sua instituição, e o Edifício Barus e Holley como a morada da instituição; indica 'Nenhum-Abandono' (None-Dropout) como grau ou diploma, e as datas de frequência de 1 de setembro de 2000 a 1 de maio de 2001", refere o documento da polícia.
Cláudio Valente obteve o estatuto de residente permanente legal nos EUA em 2017. O programa de vistos, conhecido como 'green cards' ou 'cartões verdes', disponibiliza anualmente até 50 mil vistos, através de sorteio, a pessoas de países pouco representados nos Estados Unidos, muitos deles de África. A última morada conhecida de Cláudio Valente era Miami.
Identificado o suspeito, a polícia reviu o vídeo obtido na Rent a Car e "notou que Cláudio Valente está a usar uma camisola azul brilhante que parece consistente com a peça de roupa interior azul visível por baixo do casaco exterior do suspeito, conforme capturado em numerosos vídeos de vigilância de 13 de dezembro de 2025".
Mas o vídeo fulcral para a investigação foi filmado na Alamo a 17 de novembro e mostra "Valente a usar exatamente a mesma roupa que o suspeito a 13 de dezembro".
"Especificamente, Cláudio Valente está a usar um casaco de dois tons mais claros com exatamente a mesma combinação de cores e design que o suspeito. Ele está a usar os mesmos sapatos pretos ou semelhantes com solas escuras, calças pretas, a peça de roupa interior a sobressair por baixo do seu casaco exterior, e óculos."
Cláudio Valente só foi ligado ao homicídio de Nuno Loureiro nas últimas 48 horas
Em conferência de imprensa na quinta-feira à noite, os procuradores envolvidos no caso revelaram que Cláudio Valente só foi ligado ao homicídio do professor do MIT alguns dias depois, pois foi “sofisticado a esconder os seus rastos”.
Cláudio Neves Valente teria um telefone não rastreável e não usava cartões de crédito em nome próprio, revelou a procuradora dos EUA para o Distrito de Massachusetts, Leah Foley, acrescentando que os investigadores suspeitam que Valente possa ter utilizado cartões SIM europeus através de um fornecedor norte-americano, tornando difícil rastrear a sua localização em tempo real.
Em declarações à CNN, fonte da investigação revelou que os investigadores acreditam que Cláudio Valente tenha visado especificamente Nuno Loureiro. Segundo a mesma fonte, os investigadores não acreditam, neste momento, que os dois estudantes que morreram na Universidade de Brown tenham sido alvos diretos.
Na conferência de imprensa de quinta-feira à noite, o procurador-geral de Rhode Island, Peter Neronha, revelou que o suspeito trocou as matrículas do carro alugado que utilizava e que o carro foi localizado em Salem, no estado de New Hampshire, depois de um leitor automático de matrículas assinalar uma das chapas ligadas ao automóvel.
“A 15 de dezembro, matou o professor do MIT Nuno Loureiro, na residência deste em Brookline, Massachusetts”, afirmou a procuradora dos Estados Unidos para o Distrito de Massachusetts, Leah Foley, numa conferência de imprensa em Boston, na noite de quinta-feira.
Segundo Foley, os investigadores identificaram o carro que Valente tinha alugado em Boston em Rhode Island e há ainda fotos que mostram o suspeito no prédio de Nuno Loureiro.
"Os investigadores identificaram o carro que ele tinha alugado em Boston e que depois conduziu até Rhode Island. E o carro foi visto à porta de Brown, e havia imagens de segurança que mostravam uma pessoa parecida com ele. Havia investigações financeiras em curso que o ligavam não apenas àquele carro, mas também aos hóteis que tinha alugado. E o carro que ele tinha usado não só para ir até Rhode Island, mas também para regressar a Boston. E depois houve as fotos de segurança que o capturaram a cerca de 800 metros da residência do professor em Brookline. E há um vídeo que o mostra a entrar num edifício de apartamentos no local do apartamento do professor. E mais tarde, nessa noite, é visto, cerca de uma hora depois, a entrar no armazém com as mesmas roupas que tinha sido visto a usar logo após o homicídio", afirmou.
Valente, que terá agido sozinho, viria a ser encontrado morto na noite de quinta-feira com um ferimento de bala autoinfligido, segundo o chefe da polícia de Providence, Oscar Perez. Neves Valente foi encontrado no espaço de armazenamento em Salem, New Hampshire, que tinha alugado em novembro, na posse de uma bolsa, duas armas de fogo e provas compatíveis com os locais dos crimes.