ENTREVISTA || Jesualdo Ferreira, que já treinou os três grandes em Portugal, faz a antevisão do jogo entre Sporting e FC Porto que se disputa este sábado em Alvalade
Já treinou os três grandes e não considera este clássico “tão emotivo” como o dérbi eterno ou o clássico que junta Porto e Benfica. No entanto, “esse cenário tem vindo a mudar nos últimos quatro ou cinco anos, porque o Sporting mudou”.
Jesualdo Ferreira, ex-técnico de Sporting e FC Porto, que protagonizam o primeiro jogo grande do campeonato este sábado, diz que, agora, o clássico joga-se com contornos diferentes do passado. Aos dragões, o técnico atribui um “futebol extremamente interessante, muito rápido, muito agressivo, com os olhos na baliza e sempre com um andamento que parece não ter fim”.
O antigo técnico reconhece, porém, alguma “perda de chama, força e capacidade” dos dragões nas suas últimas épocas, causa e consequência da conquista do campeonato por apenas uma vez nos últimos cinco anos, enquanto o Sporting venceu três. Mas não é exatamente por isso que Jesualdo considera que o Sporting “tem alguma vantagem” teórica neste duelo com os dragões: é pelo facto de ter tido “três jogos muito bons” no arranque do campeonato, como o FC Porto, mas, acima de tudo, ter jogadores que “já se conhecem bem e que conhecem melhor o campeonato do que grande parte dos jogadores do FC Porto”, cujo plantel “aparece completamente transfigurado em relação à época passada”.
Déjà vu… quanto baste
O último clássico para o campeonato em Alvalade foi, curiosamente, à quarta jornada e também foi o primeiro jogo grande dessa edição do campeonato, que terminou com um triunfo dos leões por 2-0. Em vez de dia 30 - como é este ano -, o clássico jogou-se no dia 31 de agosto.
Mas essa não é a única semelhança. Na altura, o FC Porto de Vítor Bruno vinha de uma sequência de três vitórias para o campeonato, como agora, depois de conquistar a Supertaça com uma reviravolta impressionante frente ao Sporting de Ruben Amorim.
No Sporting, o cenário no campeonato é o mesmo, depois de perder a Supertaça, tal como agora. Ambos também seguiam na liderança e estavam apenas separados pelo saldo entre golos marcados sofridos, com vantagem para os leões, que também eram líderes à entrada do clássico.
Parece um déjà vu, mas nem tudo é como era. Especialmente do lado do FC Porto. O que nos leva à transfiguração que Jesualdo Ferreira refere. A primeira diferença, já mencionada, está no banco de suplentes: onde se sentava Vítor Bruno e depois se sentou Martín Anselmi, senta-se agora Francesco Farioli. Nessa visita a Alvalade, Vítor Bruno elegeu para o onze titular Diogo Costa, Martim Fernandes, Otávio Ataíde, Zé Pedro, Galeno, Alan Varela, Vasco Sousa, Nico González, Iván Jaime, Pepê e Danny Namaso. Deste para o último onze que o FC Porto apresentou para um jogo no campeonato, sobram apenas Diogo Costa e Alan Varela, com Pepê a falhar a partida contra o Casa Pia por lesão ocular.
Houve um corte de realidade de Vítor Bruno para Anselmi e outro para Farioli. E esse corte está ‘fresco’. Embora o futebol azul e branco emane entusiasmo, algo que mostra desde a pré-época, Farioli tem apenas três jogos oficiais pelos dragões e nenhum jogo grande. Esse dado é tido em conta por Jesualdo Ferreira, que não acredita que a capacidade Sporting deve ser colocada em causa depois da derrota frente ao Benfica na Supertaça: “O FC Porto ainda não jogou com nenhum dos grandes. O Sporting jogou contra o Benfica. Acabou por perder, mas foi há algum tempo. E na altura, foi um jogo equilibrado. Essa derrota não colocou nem coloca um ponto de interrogação sobre o Sporting. Portanto, o primeiro grande teste do FC Porto é agora”.
No Sporting também houve mudanças de treinador por duas vezes, mas o corte entre João Pereira e Rui Borges já não é recente. Rui Borges já conta com 11 vezes mais jogos pelo Sporting que o treinador adversário pelos dragões: são já 33 os jogos em que o técnico de Mirandela representou os leões.
Do clássico de 24/25 em Alvalade, do lado dos leões ficaram quase todos: Quaresma, Diomande, Inácio, Hjulmand, Morita, Catamo, Quenda, Trincão e Pote.
Com o abandono do sistema de três centrais e o regresso de uma linha de quatro na defesa, Quaresma perdeu espaço e Quenda não tem sido titular num onze onde Catamo se mantém à direita, mas mais à frente no corredor. Já Pedro Gonçalves é o dono do corredor esquerdo. Na linha recuada de quatro, Ricardo Mangas agarrou o lugar do lesionado Maxi Araújo, Debast pode entrar no onze, se Diomande não recuperar a tempo do jogo, e o lado direito da defesa ficará para Fresneda ou para uma das caras novas do plantel, o grego Georgios Vagiannidis. A estas possíveis mudanças, juntam-se duas alterações garantidas no onze, nos extremos opostos do campo: a defender a baliza e a rematar à baliza. Kovačević e Gyökeres saíram em definitivo do Sporting este verão. Para os seus lugares, chegaram Rui Silva, em janeiro, e Luis Suárez, na atual janela de transferências.
Nem tudo são rosas para Rui Borges, a quem Jesualdo tira o chapéu
Apesar do déjà vu que este jogo pode causar aos adeptos, com mais ou menos diferenças, Sporting e FC Porto estarão garantidamente diferentes nos plantéis, nos onzes e nos treinadores, no próximo sábado.
Para o treinador que já esteve nas cadeiras onde estão agora Farioli e Rui Borges, a questão deste clássico reside em saber qual é o passado recente que mais vai pesar na balança do jogo: “Quem vai ser capaz de utilizar melhor o seu passado recente? O Sporting com um histórico mais longo? Ou o FC Porto com o seu histórico muito curto? Aqui vai estar a discussão do jogo”.
Embora com o histórico mais curto, Jesualdo Ferreira defende que o “FC Porto é mais forte que o Sporting” no exato momento em que perde a bola e precisa de se reajustar para defender e, consequentemente, tentar recuperá-la: a transição defensiva.
No que respeita às transições ofensivas, Jesualdo Ferreira tira o chapéu a Rui Borges: “Na transição ofensiva, o Sporting é diferente, joga de forma diferente, mas pode ter vantagens. Neste momento, toda a gente vai suspirar pelo Gyökeres, porque era fácil, em situação mais baixa, em bloco mais baixo, o Sporting poder usufruir da vantagem dos espaços que esse jogador conseguia aproveitar. Não tem esse jogador agora. Tem outros. Mas também tem outra forma de jogar. Aí tiro chapéu ao Rui Borges, porque, sem desfigurar e sem tirar o contexto que o Sporting sempre demonstrou, apresenta atualmente algumas ações e dinâmicas táticas, que lhe permite, também no ataque rápido, ter vantagens sobre uma equipa menos bem posicionada”.
Mas ‘nem tudo são rosas’ para o Sporting, que “joga em 30/40 metros”. Apesar de o Sporting jogar mais “em posse, mais tranquilo, preparando-se para encontrar espaços para poder ser letal”, a equipa de Rui Borges joga “em espaços muito adiantados” do terreno, alerta Jesualdo Ferreira. O técnico afirma que "os adversários não têm aproveitado os espaços que o Sporting dá, mas o FC Porto pode aproveitá-los”.
Sobre os leões, o técnico entende que o momento do Sporting é vulnerável à instabilidade causada pelo mercado de transferências e ainda destaca um nome que continua a ser dúvida para o clássico por lesão: “A permanente questão se alguém sai ou fica e quem sai ou fica retira à equipa do Sporting, em determinados momentos, alguma segurança, para além de uma ou duas lesões importantes, nomeadamente a do Diomande”.
Os adversários não têm aproveitado os espaços que o Sporting dá, mas o FC Porto pode aproveitá-los.
Sobre as diferenças entre o Sporting e FC Porto que orientou, face aos de agora, Jesualdo Ferreira recorda os tempos em que orientou cada uma das equipas, mas afasta comparações: “Fiz quatro anos no FC Porto e fui tricampeão. Era uma equipa de Champions - sempre foi - e tinha uma qualidade tática muito grande, porque tinha jogadores muito bons. O Sporting dessa altura era a equipa que rivalizava com o Porto, sob o comando do Paulo Bento. Muito mais do que o Benfica, que estava numa fase realmente muito má".

Depois de sair do FC Porto, o sucessor de Jesualdo Ferreira foi... André Villas Boas. Seguiu-se o Sporting, depois de duas experiências no estrangeiro: "Já como treinador do Sporting joguei contra o FC Porto, em Alvalade. Numa época [2012/2013] em que o Porto viria a ser campeão, e em que o Sporting estava a subir de rendimento depois de ter passado um tempo muito mau, chegou a estar um ponto acima da linha d'água, fizemos um jogo excelente contra o Porto. Empatámos 0-0, mas podíamos ter ganho esse jogo. O Helton fez três defesas que só ele era capaz de fazer. O Sporting conseguiu chegar lá acima [sétimo lugar], mas já não conseguiu chegar às competições europeias, e o Porto acabou por ser campeão. Estamos a falar de há 15 anos… Em relação ao Sporting, estamos a falar de 13 ou 12. Portanto, passou muito tempo para poder fazer comparações.”

De volta ao presente, depois de medir o que é teoricamente mensurável, mas de não considerar este um "jogo definitivo" para o que se segue na época, Jesualdo Ferreira remata a sua antevisão do clássico: “Olhando para todos estes cenários e para as características de cada equipa, o que é que isto tudo pode dar? Não sei. Que dê um grande jogo, com uma boa arbitragem. E que, no fim do jogo, se diga que a equipa A ou a equipa B ganhou porque foi a melhor”.
Para se perceber se efetivamente será "um grande jogo", a questão tem hora marcada para ser respondida às 20:30 do próximo sábado, no Estádio José Alvalade.