Investigação do Exclusivo da TVI revela três casos de cirurgias plásticas que correram (muito) mal. Especialistas confirmam falha legal e dizem que Ministério da Saúde nunca quis resolver o problema
A crescente procura por cirurgias plásticas está a causar cada vez mais situações de cirurgias mal realizadas por médicos sem a especialidade em cirurgia plástica reconstrutiva e estética.
Em causa estão médicos que aproveitam um vazio legal que lhes permite operar nesta área, mas que, quando as cirurgias correm mal, deixam pacientes com deformações permanentes, processos judiciais que se arrastam e marcas profundas.
Desde que estejam inscritos na Ordem, os médicos podem realizar qualquer ato médico, explica Luís Cunha Miranda, coordenador do Observatório do Ato Médico da Ordem dos Médicos. Num caso extremo, por exemplo, um cardiologista pode operar um pé.
Horácio Zenha, presidente da Sociedade de Cirurgia Plástica Reconstrutiva Estética, confirma que “desde que seja médico este pode realizar qualquer ato médico, potencialmente”, apesar de ser “claro que se vai fazer uma cirurgia estética, em princípio terá de ser alguém que tenha uma especialidade em que a cirurgia estética faça parte”.
“Como não há propriamente uma legislação do que é que pode ser feito e por quem, há campo para que isso possa acontecer”, diz Horácio Zenha.
Luís Cunha Miranda também sublinha que “é fundamental definir o que é um ato médico. Sem isso, não podemos depois definir quais os procedimentos que são do médico e não são do médico, e dentro dos médicos, quais são os procedimentos que devem ser feitos por cirurgiões, por não cirurgiões, etc.”. O perito sublinha que “a tutela e o poder político nunca quiseram fazer” essa definição.
Contactada pelo Exclusivo da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, responde que nunca teve qualquer denúncia sobre este tipo de casos, mas adverte que a revisão do estatuto da Ordem dos Médicos - onde se incluirá a questão do chamado “ato médico” - é competência da Assembleia da República e não do Governo.
Tanto a Ordem dos Médicos como a Sociedade de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética alertam que é possível verificar as especialidades médicas através do site oficial da Ordem dos Médicos.
Seios assimétricos e aréolas disformes
Além de falar com especialistas, o Exclusivo da TVI revela três casos de mulheres que fizeram cirurgias plásticas que correram mal. Em todas existe um facto comum: os médicos não tinham a especialidade em cirurgia plástica reconstrutiva e estética.
Numa das operações, a paciente procurou um ginecologista para uma consulta de rotina: “Nem era o objetivo ser operada ao peito”, mas o médico sugeriu-lhe fazer, em simultâneo, uma cirurgia de correção ao septo vaginal e uma cirurgia de correção e levantamento do peito.
Após acordar da anestesia, a mulher deparou-se com seios assimétricas, aréolas disformes e cicatrizes bem visíveis: “Ninguém gosta de se sentir mutilada, entre aspas, por um médico, suposto médico cirurgião plástico”, refere a paciente.
O caso gerou uma queixa-crime que se arrasta há seis anos nos tribunais contra os dois ginecologistas presentes na cirurgia e contra o grupo hospitalar privado onde ocorreu a mesma.
A denúncia à Ordem dos Médicos gerou um processo disciplinar que acabou por ser amnistiado em 2024, por causa da visita do Papa durante a Jornada Mundial da Juventude.
Seis anos depois da operação, a mulher toma antidepressivos há mais de dois anos e decidiu pagar, por iniciativa própria, uma cirurgia de reconstrução com especialistas.
Olho aberto durante meses
Outra paciente entrevistada pelo Exclusivo da TVI também procurou uma clínica para realizar uma cirurgia às pálpebras - um procedimento considerado simples e de recuperação rápida.
A cirurgia demorou mais de três horas, mas o médico acabou por retirar demasiado tecido de uma pálpebra num olho, deixando-o permanentemente aberto.
Dois meses depois, uma nova operação para colocar um enxerto de pele agravou o problema.
Durante cerca de dez meses, a mulher dormiu com o olho aberto, com risco de infeções, dores constantes e incapacidade para trabalhar. Esteve um ano de baixa médica e entrou num quadro depressivo grave.
O médico acabou por sair da clínica e a correção acabou por ser feita por um cirurgião plástico, numa operação que terá sido paga pelo médico que fez a primeira operação - o relatório clínico confirma a existência de sequelas.
Apesar de ter sido contactado antes, o médico envolvido neste caso só respondeu após a emissão da reportagem. Afirma possuir formação académica e profissional devidamente certificada em cirurgia estética, com percurso internacional que inclui formação e estágios em países como Portugal, Brasil, Espanha e Estados Unidos, e garante que todos os procedimentos realizados foram precedidos de consentimento informado, com explicitação dos riscos aos pacientes.
O médico sublinha ainda que a sua atuação foi validada por colegas da especialidade. Apesar disso, não possui especialidade em cirurgia plástica e estética reconhecida pela Ordem dos Médicos em Portugal.
Cirurgia abdominal "visualmente terrível"
Finalmente, outro caso de uma mulher que procurou solução para uma diástase abdominal grave e acabou nas mãos de um médico conhecido por ser “conceituado”. O problema é que o médico era cirurgião geral, sem especialidade em cirurgia estética.
No final, a diástase abdominal não foi corrigida e o resultado foi uma prega acentuada entre o umbigo e a cicatriz, num cenário que a própria classifica como “visualmente terrível”.
Com o tempo, ao contrário do que garantiu o médico, o cenário não melhorou e as dores persistentes agravaram‑se, com exames a confirmar que a parede abdominal continuava separada.
A paciente teve de procurar um ‘verdadeiro’ cirurgião plástico para reconstrução, com fortes sequelas físicas e impactos psicológicos.