Joël Le Scouarnec encontrava-se já a cumprir pena de prisão pelo abuso sexual de quatro crianças quando foram conhecidos mais 299 casos de violação e abuso sexual de pacientes, a maioria menores
Dois meses depois de França ter condenado a 20 anos de prisão Dominique Pélicot por drogar a sua mulher e permitir que dezenas de homens a violassem, o país começou a julgar aquele que é o maior caso de pedofilia da história francesa. Joël Le Scouarnec, um cirurgião de 74 anos, é acusado de abusar sexualmente de 299 pessoas, na sua maioria crianças, enquanto estavam anestesiadas.
"Fiz coisas hediondas", admitiu Scouarnec, esta segunda-feira, ao tribunal de Vannes, durante a abertura do julgamento, sublinhando que estava "perfeitamente consciente" de que "estas feridas não podem ser apagadas ou curadas" e que estava pronto para "assumir a responsabilidade pelos seus crimes".
Os pormenores dos crimes deste cirurgião estão a chocar a opinião pública francesa. Durante três décadas, entre 1989 e 2014, Le Scouarnec violou centenas de crianças, nos mais de dez hospitais privados e públicos onde exerceu. A maior parte das vítimas do cirurgião não faziam ideia de que tinham sido violadas e só ficaram a saber o que lhes tinha acontecido quando foram abordadas pelos investigadores.
Foi uma denúncia feita em 2017, na cidade de Jonzac, no sudoeste de França, que chamou a atenção das autoridades. Uma menina de seis anos, vizinha do cirurgião, contou à mãe que aquele se tinha exibido do outro lado da vedação. A mãe da criança expôs o caso às autoridades, que detiveram o médico por suspeita de abuso sexual de menores.
Tinham descoberto a ponta de um icebergue. Durante as buscas à propriedade de Le Scouarnec, foram encontrados mais de 300 mil ficheiros de imagens e vídeos, muitos com pornografia infantil, debaixo de um colcção e em vários dispositivos eletrónicos. Além disso, as autoridades descobriram também os "livros negros" de Le Scouarnec. Nesses cadernos, o cirurgião descreve meticulosamente os seus crimes, listando nomes, idades e detalhes gráficos dos abusos sexuais que cometeu contra os pacientes. A média de idade das vítimas era de 11 anos.
Numa das notas, Le Scouarnec terá escrito: "Sou um pedófilo e sê-lo-ei sempre". Debaixo do soalho da casa, a polícia fez outra descoberta "macabra": uma coleção de mais de 70 bonecas em tamanho real utilizadas para simular atos sexuais com menores. Estas bonecas teriam vários tamanhos e simulavam diferentes idades.
Em 2020, foi condenado por abuso sexual de quatro crianças: a vizinha, duas sobrinhas e uma jovem doente do hospital. Foi condenado a 15 anos de prisão e encontra-se atualmente a cumprir pena.
Espera-se que o julgamento, que começou esta segunda-feira, dure quatro meses. De acordo com a imprensa francesa, o julgamento vai focar-se também na forma como Le Scouarnec foi autorizado a acompanhar crianças, apesar de ter sido condenado e ter recebido uma pena suspensa em 2005, depois de o FBI ter informado as autoridades francesas de que o médico acedia a sites de pornografia infantil.
Em 2006, um psiquiatra do hospital Quimperlé alertou a administração sobre o perigo que ele poderia representar, mas não foi tomada qualquer medida. A Ordem dos Médicos, bem como o Ministério da Saúde francês foram informados, mas não restringiram as atividades de Le Scouarnec.
Duzentas e cinquenta e seis das vítimas tinham menos de 15 anos, a mais nova tinha um ano e a mais velha 70.