A inteligência artificial está a revolucionar as nossas vidas. E também se aplica na medicina. Em Braga, num hospital privado, já se fazem cirurgias com um robô de última geração que integra inteligência artificial. Falámos com o primeiro paciente a ser operado com esta tecnologia. E abrimos caminhos para o futuro, onde será possível, por exemplo, um doente em Portugal ser operado por um cirurgião que está no estrangeiro
Braga, 29 de janeiro de 2026. António Pedro Carvalho tem a cabeça na consola. Não é um jogo qualquer. É o jogo da vida. Agitação na sala ao ritmo dos bipes. Um corpo humano na marquesa. Faz-se a primeira cirurgia em Portugal com o apoio da inteligência artificial.
É mais uma prova de que, numa operação, nem todos os braços são de carne e osso. Há muito que a tecnologia entrou no bloco, mas promete transformá-lo ainda mais.
“A inteligência artificial retira-nos, por exemplo, o fumo durante a cirurgia. Permite-nos ver melhor, consegue fazer o realce das estruturas vasculares, como artérias e veias. Ajuda-nos a diminuir o erro”, destaca António Pedro Carvalho, urologista e Cirurgião no Hospital Trofa Saúde Braga Sul.
Um dos colegas que o acompanha nesta empreitada é Luís Figueiredo. “A principal mais-valia que já temos à nossa disposição é a possibilidade de otimizar a imagem. No fundo, temos mais precisão naquilo que fazemos”, reitera o também urologista e cirurgião. As imagens na sala, que mostram o interior do corpo humano, comprovam-no.
Dados: como o algoritmo pode dar sugestões aos cirurgiões
A inteligência artificial está integrada no robô cirúrgico de última geração adquirido pelo grupo privado de saúde. É o primeiro deste género na Península Ibérica. E desengane-se se acha que o rigor na imagem é a única vantagem que a inteligência artificial traz a este equipamento.
Os dados que vão sendo compilados a cada operação vão servir, no futuro, para ajudar a melhorar as cirurgias seguintes. A máquina aprende, sugere caminhos e alternativas ao profissional.
“Esta plataforma permite-nos recolher, de forma sistemática, dados de tudo o que fazemos intraoperatoriamente. Vai ajudar-nos, no futuro, a conseguirmos planear melhor as nossas cirurgias e indicar-nos com mais facilidade quais são os percursos mais seguros, para evitar algumas das consequências negativas do ato cirúrgico. Falamos em milhares, milhões de dados, para construir algoritmos robustos”, sintetiza Luís Figueiredo.
Os movimentos e a amplitude dos braços ou o local onde é feita a incisão são apenas dois exemplos da informação que pode ser recolhida durante a cirurgia.
“No futuro, quando conseguirmos trabalhar mais os algoritmos da inteligência artificial, vai-nos permitir avisar se estamos a tomar alguma decisão errada. Mas a última decisão é sempre do cirurgião”, vinca António Pedro Carvalho. É também, por isso, que estes profissionais não têm qualquer receio de ter o algoritmo como colega. “Até porque o beneficiado é claramente o doente”, completa.
“Não fui operado pela inteligência artificial. Fui operado por médicos”
Quem está deitado na marquesa é Rui Silva, 62 anos, português a viver há vários anos em Espanha. O diagnóstico de um cancro na próstata levou-a a procurar “a tecnologia mais avançada”. Acabou por regressar ao país natal. “Não sabia até que ponto a inteligência artificial já era utilizada neste tipo de equipamentos”, confessa. Ainda assim, garante, esta evolução nunca seria um obstáculo para a coisa mais desejada: a cura.
Os olhos de Rui brilham, como os de uma criança, quando fala da cirurgia. “Nem nos meus melhores pensamentos, pensava que fosse recuperar num período tão curto e com uma recuperação tão completa”, diz. Teve alta em um dia, em menos de um mês voltou a ter relações sexuais.
Rui Silva fala com a CNN Portugal numa visita ao hospital, onde aproveita para conhecer a máquina que lhe devolveu o futuro. Mas com a consciência de que, sem o fator humano, aquele aparelho de nada servia.
“É uma ferramenta. Não fui operado pela inteligência artificial. Fui operado por médicos de máxima confiança”, reforça.
Cirurgias à distância? É possível
A tecnologia está a avançar tanto que, daqui a uns tempos – meses? anos? – será possível, por exemplo, uma pessoa em Portugal ser operada por um médico que está no estrangeiro. Chama-se telecirurgia – e o robô cirúrgico deste hospital privado é capaz de o fazer. Há um obstáculo: só agora é que estão a ser dados os primeiros passos, a nível europeu, para definir regras e leis quanto a este uso. Uma das questões mais sensíveis é esta: quem assume a responsabilidade em caso de erro?
“Com esta tecnologia, podemos estar do outro lado do mundo e fazer uma cirurgia aqui. Ou temos o doente do outro lado do mundo e sermos nós a efetuar essa cirurgia. Podemos ter parcerias com centros de referência em determinadas técnicas. Evita-se quer a deslocação dos pacientes, quer dos médicos. É lógico que é preciso sempre alguém em contato com o doente, nomeadamente o ajudante cirúrgico ou a equipa de enfermagem”, simplifica António Pedro Carvalho.
Vai esse cenário tornar-se uma realidade no futuro? É uma das muitas incógnitas em cima da mesa. Luís Figueiredo faz uma analogia entre o mundo das cirurgias e dos carros: “quando fazemos um estacionamento, temos auxílios de câmara, há alarmes de quando nos aproximamos das barreiras”
Mas vão os carros perder o condutor? Do lado das cirurgias, acredita-se que não. “Mesmo com os robôs e a inteligência artificial a permitir reduzir substancialmente o erro, vai ser sempre preciso um cirurgião a acompanhar o processo”, acredita António Pedro Carvalho.
O homem pode ser uma máquina naquilo que faz. Mas a máquina, no bloco operatório, está longe de o substituir. Pelo menos, com os dados que temos agora.