Documento da ACSS, com dados provisórios de 2025, revela que, além dos problemas na assistência médica, as contas estão descontroladas: o prejuízo atinge os 2,7 mil milhões de euros
São os últimos dados sobre o Serviço Nacional de Saúde e vêm revelar um cenário preocupante: há mais doentes em lista de espera, mais utentes sem médico de família, menos consultas médicas e menos cirurgias. Isto apesar de os hospitais terem recebido 13 mil milhões, mais 5,3% do que no ano anterior e de existirem mais médicos e enfermeiros a trabalhar nos hospitais e centros de saúde do país.
Um relatório da Administração Central do Sistema em Saúde (ACSS) concluído há poucos dias, que a CNN Portugal teve acesso, mostra que em dezembro de 2025 havia 1,1 milhões de utentes à espera para uma consulta, 267.832 a aguardar uma cirurgia e 1,6 milhões de pessoas sem médico de família.
Apesar de o combate às listas de espera e a atribuição de médicos de família para todos os utentes serem duas das grandes promessas de Luís Montenegro e da ministra Ana Paula Martins, este documento, mostra que agora, em dezembro de 2025, os números estavam piores do que no mesmo mês de 2024. E esta degradação não ocorreu só nos cuidados de saúde, mas também nas contas: os hospitais do SNS geraram um prejuízo de 2,7 mil milhões de euros e uma dívida de 1,4 mil milhões de euros, mais quase 11 % do que há um ano.
Este relatório da ACSS, que ainda tem alguns dados provisórios, dá conta do que se passa dentro dos hospitais e dos centros de saúde.
Listas de espera dispararam
Nas várias Unidades Locais de Saúde, as listas de espera dispararam. Os utentes a aguardar uma consulta eram, em dezembro de 2025, mais de 1,1 milhões e os que esperam por uma operação ultrapassam os 267 mil. Uma situação que piorou em apenas 12 meses. Desde o final de 2024, as listas de espera para operações cresceram 3,3% e as filas para uma consulta subiram 13,6%.
E grande parte dos que aguardam por uma consulta ficam para lá do tempo permitido por lei. Os dados provisórios da ACSS indicam que mais de 50% das consultas ainda são realizadas fora do tempo máximo de resposta garantido (TMRG).
Das 39 Unidade Locais de Saúde (ULS) e três IPO, só em 13 as listas de espera não cresceram em relação a 2024. Em todas as outras o número de inscritos para cirurgia acumularam-se, fazendo aumentar a espera. As ULS de Barcelos, Santa Maria, Amadora-Sintra, Vila do Conde e Alto Alentejo foram as que registaram aumentos maiores, segundo os dados provisórios da ACSS.
A ULS de Barcelos chegou a registar um aumento de 47,7% dos inscritos para cirurgia que são agora 5.171. Em segundo lugar surge o Amadora-Sintra, onde a fila cresceu 27,7%, tendo 7.965 utentes. No Alto Alentejo o aumento é semelhante: comparando com 2024 o número de pessoas a aguardar uma operação subiu 27,2%, totalizando 2.111.
O hospital de Santa Maria surge a seguir. Nesta unidade de saúde, onde se assistiu ao escândalo do médico Miguel Alpalhão que terá recebido perto de 700 mil euros por 22 dias de trabalho, a lista de espera também engrossou 26,5% e em dezembro de 2025 estavam 12.619 doentes a aguardar uma operação. Em Vila do Conde, por seu lado, registou-se um aumento de 21% e a lista conta com 1.797 doentes.
A par do engrossar das listas de espera, assistiu-se a uma diminuição das operações feitas nos estabelecimentos de saúde. Ao todo, 884.063 cirurgias, menos 0,7%. Também os internamentos diminuíram 4,2%. Só as consultas subiram nos hospitais, atingindo mais de 14 mil. No entanto, a subida foi nas consultas subsequentes, pois quando se analisa as primeiras consultas o cenário de queda repete-se com menos 1,8% de consultas do que o registado em 2024.
Nos cuidados de saúde primários também há sinais de preocupação. Há mais utentes inscritos nos centros de saúde, somando 10, 7 milhões, mas mais de 1,5 milhão não tem médico de família atribuído. Um valor que cresceu 2,7% em relação a dezembro de 2024. O total de consultas nos centros de saúde também diminui 0.8%.
Foram ao todo 33,8 milhões de consultas, passando, no entanto, a ser menos presenciais do que habitualmente. Os dados dão conta de que se deu um aumento de 3,3% das consultas não presenciais e de 5,0% das consultas ao domicílio.
...mas há mais médicos e enfermeiros
Ao mesmo tempo as listas de espera aumentam e são feitas menos consultas, internamentos e operações, os dados da ACSS indicam que há mais médicos e enfermeiros a trabalhar no SNS. Os clínicos são agora 30,117 mil, mais 1,3% do que em 2024. Os enfermeiros, por seu lado, totalizam 52 303, um aumento de 2,5%.
Em todo o relatório há, no entanto, um dado que revela uma mudança: assistiu-se a uma diminuição das idas à urgência, o que pode estar relacionado com a criação de novas regras de acesso que passa por telefonar primeiro para a linha de saúde 24. Assim, os primeiros dados indicam que em 2025 houve 5,5 milhões de episódios de urgência, menos 9,5% do que em 2024.