E entretanto Trump tem andado nos bastidores a fazer perguntas sobre o que mudou em Putin nos últimos anos. Trump também começou a usar frequentemente palavrões ao falar sobre Putin em reuniões privadas
Antes da cimeira, Trump questiona o que mudou em Putin
por Kylie Atwood, Isabelle Khurshudyan, Zachary Cohen, Natasha Bertrand, Jennifer Hansler, CNN
Donald Trump sempre se gabou da sua relação cordial com Vladimir Putin, o homólogo russo. Contudo, nos meses que antecederam este primeiro encontro em seis anos entre ambos, marcado para esta sexta-feira no Alasca, Trump começou a perguntar aos parceiros europeus e aos assessores da Casa Branca o que é que tinha mudado no presidente russo.
A linha de perguntas, descrita à CNN por três pessoas familiarizadas com o assunto, revela a crescente frustração de Trump com Putin antes da cimeira desta sexta-feira, marcada para discutir o fim da invasão da Ucrânia pela Rússia, que já dura há três anos. Trump prometeu negociar rapidamente um acordo de paz ainda antes ter assumido o cargo. Putin não só resistiu às propostas de cessar-fogo como a Rússia intensificou os seus ataques à Ucrânia este ano.
Embora haja alguns indícios de que os objetivos de curto prazo de Putin na Ucrânia possam ter mudado — sustentando um otimismo dentro da Casa Branca de que pode ser alcançado um acordo —, a opinião predominante entre a comunidade dos serviços de informações nos EUA é muito mais cética.
Putin mantém os objetivos territoriais maximalistas e, provavelmente, iria usar um cessar-fogo para reequipar as suas forças, com a possibilidade de fazer outra tentativa em Kiev, referiram várias pessoas familiarizadas com relatórios recentes dos serviços de informações dos EUA sobre a Rússia. E, apesar dos apelos europeus por garantias de segurança para a Ucrânia, Putin ainda quer garantir que a Ucrânia nunca se junte à NATO e que forças de paz estrangeiras não entrem no território, disseram as mesmas fontes.
“Putin acha que está a ganhar, por isso não tem motivos para ceder”, refere uma pessoa familiarizada com as recentes avaliações dos serviços de informações dos EUA, que, como outras nesta reportagem, falou sob condição de anonimato, uma vez que se trata de um assunto delicado. “O que ele pensa é que pode muito bem guardar as vitórias que já tem, incluindo o território ucraniano que tomou à força, para depois fazer outra tentativa mais tarde”, refere a fonte.
O desejo de Trump de entender melhor o pensamento de Putin acontece quando se evidenciam preocupações ucranianas e europeias de que a Casa Branca esteja a ser manipulada pelo Kremlin, dando a Putin uma vitória no cenário global pelo facto de aceitar encontrar-se com ele em solo americano e sem a presença do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.
“A Rússia está a oferecer-se para parar a guerra se conseguir tudo o que sempre quis, incluindo as suas exigências mais maximalistas”, refere um funcionário europeu à CNN. “E isso não seria um acordo, seria uma submissão.”
Ainda assim, há europeus que acreditam que Trump poderá ter a capacidade de chegar a um acordo, estando animados com a mudança da sua política sobre a guerra nos últimos meses.
Trump advertiu quarta-feira que a Rússia enfrentaria “consequências muito graves” se ele determinasse que Putin ainda não está a levar a sério o fim da guerra com a Ucrânia. Trump não especificou quais seriam essas consequências, mas já ameaçou Moscovo com sanções económicas ou tarifas mais severas.
Inteligência de Putin continua a ser um “alvo difícil”
Entender as intenções de Putin é algo historicamente difícil. Putin, que era um antigo oficial do KGB, o principal serviço de segurança da União Soviética, mantém um círculo extremamente restrito de confidentes. Nunca é claro a quem é que o presidente russo está a dar ouvidos em determinado momento, segundo uma pessoa familiarizada com relatórios recentes dos serviços de informações dos EUA.
Estas décadas a tentar decifrar Putin deram aos EUA um enorme conhecimento institucional sobre este homem. Ainda assim, as agências de espionagem dos EUA têm uma visão notoriamente pobre sobre as decisões diárias dele, referem várias fontes à CNN. O Kremlin continua a ser aquilo a que os funcionários da inteligência chamam “alvo difícil” – é mesmo muito difícil de penetrar através da espionagem tradicional.
Contudo, houve vezes em que os EUA conseguiram obter informações sobre os planos de Putin, como a decisão de invadir a Ucrânia em 2022. Na altura, outros serviços de informações estrangeiros colocaram em dúvida os avisos americanos de que o líder russo estava prestes a iniciar uma guerra.
Trump já expressou ceticismo em relação à comunidade dos serviços de informações dos EUA, em particular no que respeita às avaliações feitas sobre a Rússia. Não é claro o nível de confiança que o presidente dos EUA tem nos relatórios desses serviços antes da cimeira desta sexta-feira. Um funcionário norte-americano familiarizado com a recente análise dos serviços de informações questiona se os assessores de Trump estarão a apresentar-lhes as duras verdades, incluindo a opinião amplamente difundida de que Putin acredita que é do seu interesse continuar a guerra.
Trump continua confiante de que pode avaliar Putin pessoal e rapidamente. Na terça-feira disse que saberia “provavelmente nos primeiros dois minutos” da reunião se será possível chegar a um acordo para acabar com a guerra.
“Dei-me muito bem com o presidente Putin”, referiu Trump acerca do seu primeiro mandato, juntando que a cimeira no Alasca será uma reunião para “testar o terreno”.
Contudo, enquanto Trump questiona se Putin mudou, houve quem notasse uma evolução em Trump no que respeita ao seu pensamento sobre o russo.
“Os aliados europeus dizem que quem mudou foi Trump, tanto no seu nível de conforto no cargo, como na sua compreensão de quem é Putin”, afirma um funcionário norte-americano, que acrescenta que Trump tem vindo a alterar o seu pensamento sobre a Rússia desde que assumiu o cargo no início deste ano.
“A abordagem dele no início de janeiro era ingénua. Agora, dizem os europeus, ele percebeu finalmente que Putin é um líder assassino”, refere o mesmo funcionário.
“A raiva dele era palpável”
A raiva crescente de Trump em relação a Putin começou no início deste verão, quando o enviado especial Steve Witkoff, o principal interlocutor de Trump com a Rússia, também expressou a sua frustração com o Kremlin, refere uma pessoa familiarizada com o assunto. Os russos estão “a enganar-nos”, terá referido Witkoff, citado pela mesma fonte.
Trump também começou a usar frequentemente palavrões ao falar sobre Putin em reuniões privadas, indicam pessoas presentes nessas reuniões. Tal só tornava claro que a perspetiva de Trump estava a mudar, argumentam.
“A raiva dele era palpável”, vinca uma pessoa que esteve a par de uma reunião privada entre Trump e um líder europeu.
Há sinais de que podem ter mudado os objetivos de curto prazo de Putin, com uma abertura para obter ganhos territoriais na Ucrânia e para reforçar acordos económicos para a Rússia, descreve uma fonte familiarizada com a informação recolhidas pelos serviços de informações. Todavia, é improvável que Putin assuma essa posição no início de qualquer negociação.
Nas últimas semanas da administração Biden, oficiais dos serviços de informações dos EUA alertavam os atuais conselheiros seniores de Trump que controlar a Ucrânia continuava a ser a principal prioridade de Putin, a par da sobrevivência de seu próprio regime, segundo uma pessoa familiarizada com as referidas conversas. Estes oficiais também alertavam que o presidente russo estaria ansioso para explorar qualquer perceção de pressa nas negociações, acrescenta a mesma fonte.
Putin apostou todas as fichas na Ucrânia e não mostrou sinais de querer ceder, quaisquer que fossem os custos envolvidos, apontaram funcionários dos serviços de informações aos conselheiros de Trump, segundo uma pessoa familiarizada com essas discussões.
Embora os analistas tenham destacado que as ambições imperiais de Putin em relação à Ucrânia eram antigas, os assessores de Trump apontaram ao presidente dos EUA que a pandemia de covid-19 é, pelo menos em parte, responsável pela mudança de atitude de Putin face à última vez que se tinham encontrado, em 2019, indicam três pessoas familiarizadas com o assunto.
A discussão sobre esta provável mudança de Putin surgiu quando Trump manifestou estar perplexo pelo facto de não ter conseguido fazer com que o presidente russo concordasse em acabar com a guerra na Ucrânia.
“Há muita gente à volta de Trump a tentar convencê-lo de que Putin mudou, para que Trump possa dizer que não estava errado na impressão inicial que tinha quando assumiu o cargo, de que Putin era um bom tipo”, descreve uma pessoa familiarizada com este tema.
Um funcionário da Casa Branca destaca que Trump é “eficaz na política externa devido à sua capacidade de olhar nos olhos qualquer pessoa, seja ela amiga ou inimiga, de forma a conseguir melhores acordos para o nosso país ou para trazer paz aos conflitos que existem à volta do mundo”.
O isolamento de Putin durante a pandemia
Antes da invasão russa da Ucrânia, em 2022, havia funcionários dos serviços de informações dos EUA a acreditar que Putin estava a ficar mais paranoico — talvez devido ao isolamento prolongado durante a pandemia.
O presidente russo raramente saía do seu palácio nos arredores de Moscovo durante a pandemia. As suas aparições públicas limitavam-se, sobretudo, a videoconferências com funcionários do seu gabinete. Qualquer pessoa com quem Putin se encontrasse pessoalmente tinha, primeiro, de ficar em quarentena durante duas semanas - incluindo os veteranos da Segunda Guerra Mundial que partilharam um palco ao ar livre com Putin na Praça Vermelha durante um desfile militar.
As precauções extremas para proteger a saúde do líder – Putin tinha 68 anos no primeiro ano da pandemia – acabaram por limitar o círculo social do presidente russo. Os tecnocratas russos que seriam contra a guerra tiveram menos contacto com Putin do que os considerados de linha-dura, segundo afirmam analistas russos.
Um relatório dos serviços de informações dos EUA distribuído a mais de uma dúzia de agências no início de 2022 citava uma fonte que tinha relatado que o comportamento de Putin tornara-se “altamente preocupante e imprevisível”, como noticiou a CNN na altura.
Hoje, é certo que Putin não estará tão isolado como durante a pandemia, contudo continua difícil de decifrar, mesmo para os países mais próximos do Kremlin.
As avaliações dos serviços de informações ucranianos sobre Putin nos últimos anos têm sido mais ousadas — às vezes inacreditáveis — do que as dos seus homólogos americanos e europeus. O tenente-general Kyrylo Budanov, o principal espião da Ucrânia, afirmou que Putin tem vários sósias que costumam aparecer em público no lugar do verdadeiro presidente. Budanov também questionou se o “verdadeiro Putin” ainda está vivo.
Putin acredita que tem de ganhar
À medida que a guerra se arrasta a caminho do quarto ano, a vontade de Putin de conquistar a Ucrânia só se intensificou. Putin tornou-se um interlocutor com quem é ainda mais difícil alcançar um acordo, segundo afirmam autoridades e especialistas norte-americanos.
“Ele agora acredita que, se a Rússia não vencer esta guerra, não vai continuar no cargo”, aponta Angela Stent, antiga agente dos serviços de informações sobre a Rússia no Departamento de Estado e especialista em Rússia pós-soviética. “Portanto, houve uma mudança na forma como ele vê o Ocidente e na sua determinação em resistir. Contudo, acho que as suas crenças fundamentais não terão mudado.”
Essa determinação tem deixado os europeus cada vez mais preocupados com a possibilidade de Trump ser levado a um acordo que apenas recompense a Rússia pela invasão.
Zelensky alertou esta semana que Putin irá tentar enganar Trump quando se encontrarem. O presidente ucraniano disse na segunda-feira que os serviços de informações ucranianos passaram a informação de que Putin “não está definitivamente a preparar um cessar-fogo ou o fim da guerra”.
"Putin está apenas determinado a apresentar uma reunião com os Estados Unidos como uma vitória pessoal sua, para de seguida continuar a agir exatamente como até agora, aplicando a mesma pressão sobre a Ucrânia”, escreveu Zelensky numa publicação no X.
Na semana passada, Witkoff deixou os aliados europeus “confusos e inquietos”, após estes terem sido informados de que o enviado americano discutiu o controlo russo de territórios ucranianos em troca de um cessar-fogo, como referiu um diplomata europeu.
Contudo, Trump pareceu concordar, numa chamada com líderes europeus, antes da cimeira com Putin, que o território ucraniano não é para ele próprio negociar, antes para Zelensky, segundo diplomatas europeus. Ainda assim, houve analistas a dizer que o foco dos funcionários da administração Trump na troca de território pode indicar que ainda estão a ignorar os objetivos primordiais de Putin.
“Putin é muito mais ideológico hoje do que nos seus primeiros anos”, conclui Michael McFaul, ex-embaixador dos EUA na Rússia. “Não é um líder transacional, como muitos no Ocidente costumavam supor no passado. Contudo, é mais motivado por ideias imperiais. É difícil negociar com uma pessoa com essa mentalidade.”
