Trump até fez festinhas nas mãos de Putin mas no fim Putin é que teve a festa que queria

16 ago 2025, 03:41
Trump Putin cimeira

ANÁLISE || A grande cimeira do Alasca tornou-se uma estranha cimeira do Alasca - aparentemente ficou tudo igual a antes mas é mesmo só aparentemente: vimos coisas inauditas. Mas não é agora que vamos ver o fim da guerra porque não há cessar-fogo total nem parcial nem de qualquer espécie. Ou como diz Trump: "We didn’t get there"

Começou assim: Putin e Trump desembarcam ao mesmo tempo depois de chegarem ao Alasca, Trump sai do seu avião rumo a uma passadeira vermelha, Putin faz igual, a passadeira vermelha de Putin parece melhor que a de Trump e o avião de Putin também, pode ser apenas ilusão mas diz muito sobre o ilusionismo das pessoas com poder: Putin é mais pequeno, são bastantes centímetros a menos que o tamanho garrido de Trump, e no entanto Putin parece mais invencível pela firmeza com que caminha e mais poderoso na maneira como mexe os ombros com ginga, tem carácter de pugilista de pesos pesados diante de um pugilista apenas pesado. Entretanto Trump chega primeiro a uma perpendicular de passadeiras vermelhas, age como um sinaleiro simpático a mostrar a Putin onde é esperado que se cumprimentem: Trump começa então a bater palmas, faz mesmo isso, bate palmas enquanto vê o outro combatente a aproximar-se do ringue, Trump até é conhecido por ter uma dança comemorativa nos seus comícios que envolve uma espécie de air-socos em slow motion mas para Putin não há punhos cerrados como houve para Zelensky dentro da Casa Branca, para Putin há palmas e a seguir há uma mão direita aberta e estendida à espera da mão direita de Putin, é uma mão que Putin agarra ainda antes de parar no cruzamento, estão ambos confortáveis pela direita.

Putin e Trump começam a dizer coisas um ao outro, estão de mãos agarradas e vão dando ora um toque no ombro alheio ora noutra parte do corpo algures entre a anca e o antebraço, é quase tão íntimo que parecem o Bill Murray e a Scarlett Johansson no Lost in Translation a segredar coisas que nós queremos muito saber que coisas são mas que continuamos ansiosamente à espera de saber que coisas eram. Seguem depois - o Putin e o Trump, o Bill e a Scarlett já seguiram há muito - seguem caminho pela passadeira vermelha e que agora é só uma, só falta atirar o arroz para cima dos noivos - na Ucrânia dir-se-á que não é uma passadeira vermelha mas uma passadeira de sangue, quanto à palavra para substituir “noivos” há múltiplas possibilidades a correr nas redes sociais e não são para celebrar esta união Putin / Trump mas antes para lamentá-la. 

Putin e Trump chegam a uma espécie de minipalanque que tem escrito “Alaska 2025”, é uma informação inofensiva sobre um encontro que muitos na Europa consideram ofensivo, e voltam a dar um passou bem: mão direita de Trump agarrada à mão direita de Putin, a coreografia repete-se mas Trump inicia uma acrobacia ternurenta: as mãos direitas estão agarradinhas e Trump socorre-se da mão livre, coloca a mão esquerda sobre a direita de Putin, o presidente russo leva inicialmente com umas batidinhas na palma da mão e depois recebe uns quase afagos, uma espécie de festinhas, make up mimos após Trump ter ameaçado a Rússia com sanções. Mas toda esta ternura não amolece a plateia: “Mr. Putin, will you stop killing civilians?”, pergunta uma jornalista, reação: Putin aponta para o próprio ouvido e faz um esgar de quem não percebe, Trump segreda qualquer coisa ao ouvido do homólogo e saem imediatamente dali, a resposta ficou lost in translation.

Putin, que acabou a cimeira a fazer declarações em Inglês, aqui gesticula que não percebe a questão "Mr. Putin, will you stop killing civilians?" foto Getty

Três horas de reunião depois, breaking news: Putin falou Inglês em público - duas vezes. Outras breaking news - que são breaking news mais delicadas que as breaking news sobre Putin poliglota (Putinglota?): não há cessar-fogo - nem total nem parcial nem de maneira nenhuma, pelo menos não na hora em que este texto foi escrito, que é a hora em que acabou a cimeira Putin / Trump.

O primeiro a manifestar-se no fim da reunião foi Putin e nessa primeira vez falou só em russo, bajulou Trump - porque se fosse Trump o presidente dos EUA em 2022 não haveria guerra na Ucrânia, afirmou Putin afirmando assim que Biden é culpado pela guerra ter entrado pela Ucrânia adentro - é como se Biden tivesse dado a ordem inicial para aquele dia inteiro mas nada limpo que foi 24 de fevereiro de 2022. Mas para Putin há mais culpas de Biden: o presidente russo disse também que as relações com os EUA atingiram o nível mais frágil desde a Guerra Fria e que é preciso trabalhar para que as relações aqueçam, elogiou Trump por estar a proporcionar isso só que no fim a cimeira teve um resultado morno: Putin anunciou apenas que espera que a guerra na Ucrânia acabe em breve, perdão: não disse "guerra", disse "conflito na Ucrânia", acrescentou que quer que o "conflito" acabe e "quanto mais cedo melhor" - mas cedo é quanto Putin quiser, não quando Trump acha que é melhor. A argumentação de Putin é assim: "Precisamos de eliminar todas as causas principais que levaram a esta situação, já dissemos várias vezes que é necessário considerar todas as preocupações legítimas da Rússia e restabelecer um equilíbrio justo de segurança na Europa e no mundo. E concordo com o presidente Trump, naturalmente a segurança da Ucrânia também deve ser assegurada, estamos preparados para trabalhar nisso". E foi isso que Putin foi dizer ao Alasca: neste momento, a Rússia só está preparada para outra cimeira num sítio qualquer do mundo que seja um sítio onde Putin não seja preso devido ao mandado de captura que tem o nome dele.

Às vezes uma imagem vale por duas caras foto Getty

Depois falou Trump, voz rouca e pose derrotada a contrastar com a postura vitoriosa do homólogo: o presidente dos EUA disse que houve entendimentos em "alguns pontos" sem dizer que pontos são e tem esta frase - que fica aqui em Inglês porque há nuances e subtilezas que se perdem nas traduções, aí vai: "We had an extremely productive meeting and many points were agreed to. We didn’t get there, but we have a very good chance of getting there". Portanto: não chegaram lá, ao cessar-fogo ou ao que quer que fosse a que Trump achava que ia chegar - os mísseis e os carros de combate russos vão continuar a matar na Ucrânia, o conflito prossegue, perdão: prossegue a guerra porque é de guerra que se trata, "conflito" tem nuances e subtilezas que mascaram a violência do que está a acontecer. 

Trump anunciou ainda que ia ligar a Zelensky e aos líderes da NATO, pode ser que nesses telefonemas "os pontos" que foram acordados com Putin sejam alvo de clarificação - porque nem Trump nem Putin deixaram que os jornalistas desvendassem que pontos são aqueles, não houve direito a perguntas mas houve direito a esse acontecimento invulgar que é ouvir Putin a manifestar-se em Inglês, aconteceu assim: Trump começou por agradecer ao "Vladimir", quando se passa para o tratamento no nome próprio sem a deferência do Mr. President ou há intimidade ou é folclore, é um ponto também por clarificar, "Thank you very much, Vladimir", declara Trump virado para Putin, "Next time in Moscow", responde Putin em Inglês enquanto sorri orgulhosamente, "Oh, that's an interesting one", reage Trump, é apanhado desprevenido pela circunstância, Trump acrescenta que vê essa viagem a acontecer mas é com apreensão que o diz, agradece outra vez ao Vladimir e o Vladimir despede-se de todos com um "thank you so much". O Vladimir estava feliz, o Alasca 2025 tornou-se uma festa e até foi uma festa liberal nos costumes: a CNN Internacional escreve que é o presidente norte-americano que fala habitualmente primeiro nas conferências de imprensa conjuntas em que recebe um homólogo estrangeiro, Trump era o anfitrião e o Vladimir falou primeiro, o Vladimir sabe muito.

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