O mercado ilícito no Brasil, já vasto e complexo, presencia uma nova onda de ascensão: o contrabando de cigarros eletrônicos, popularmente conhecidos como vapes. Se antes o cigarro tradicional reinava absoluto no ranking dos produtos ilegais, o vape emerge como um player de peso, especialmente entre as novas gerações, reconfigurando as dinâmicas do contrabando e levantando sérias preocupações sobre saúde pública e segurança.
Uma análise recente sobre o comércio ilegal no país trouxe à tona uma mudança de hábito preocupante. Enquanto os mais jovens demonstram menor interesse pelo cigarro convencional, o vape se apresenta como uma alternativa moderna e, erroneamente, percebida como menos prejudicial. Essa mudança de preferência abre uma nova e lucrativa avenida para o crime organizado. O vape, portanto, não apenas se estabelece como um produto contrabandeado, mas também como uma possível porta de entrada para o vício em nicotina.
Apesar de sua comercialização ser ilegal no Brasil, a aquisição de vapes contrabandeados é alarmantemente fácil. A internet se tornou um canal aberto para a venda desses dispositivos, com inúmeros sites oferecendo uma variedade de marcas e modelos sem qualquer tipo de controle ou regulamentação. Essa facilidade de acesso contribui significativamente para a sua disseminação, especialmente entre o público jovem.
Os malefícios à saúde associados ao consumo de vapes são igualmente preocupantes. Longe da imagem de alternativa segura, esses dispositivos podem conter substâncias altamente prejudiciais e, em alguns casos, a concentração de nicotina em um único dispositivo pode equivaler ao consumo de inúmeros cigarros tradicionais. A natureza viciante do vape, onde o ato de inalar e exalar se torna quase automático e inconsciente, contribui para o seu rápido consumo.
Os números relacionados à apreensão de vapes no Brasil revelam um crescimento exponencial desse mercado ilegal. Em 2019, foram apreendidas modestas 1.420 unidades em todo o país. Contudo, um flagrante recente no Porto de Santos, em 2024, apreendeu um carregamento de impressionantes 25 milhões de reais em vapes, totalizando 300 mil unidades. Esse salto drástico em apenas cinco anos sinaliza a rápida expansão e a lucratividade desse novo nicho do contrabando.
As rotas de contrabando de vapes também se adaptam e evoluem. A China se estabelece como o principal polo de produção desses dispositivos, que, após passarem por um importante porto nacional, muitas vezes seguem para países vizinhos antes de retornarem ao Brasil por vias terrestres já conhecidas, com destino principal aos grandes centros urbanos. Uma nova rota emerge, e há indícios de que regiões em outros continentes também se tornam pontos de partida para o comércio ilegal de vapes, aproveitando dinâmicas econômicas globais.
Em suma, a ascensão do vape no cenário do contrabando brasileiro representa um desafio multifacetado. A sua popularidade crescente, especialmente entre os jovens, a facilidade de acesso através de canais ilegais e os seus potenciais danos à saúde exigem uma atenção urgente das autoridades. Uma análise sobre o comércio ilícito no país lança um alerta sobre essa nova onda, que se entranha nas brechas da regulamentação e se conecta, cada vez mais, às engrenagens do crime organizado. A "nuvem" do vape contrabandeado paira sobre o Brasil, carregada de riscos e demandando ações coordenadas para conter sua crescente disseminação.
*Fernando Montenegro escreve a sua opinião em Português do Brasil
