Espécimes notavelmente bem preservados das poderosas mandíbulas dos polvos mostram sinais de desgaste intenso causado pela trituração de presas duras
Polvos gigantes com 19 metros de comprimento estavam entre os principais predadores oceânicos há cerca de 100 milhões de anos, de acordo com uma nova investigação que descobriu fósseis raros escondidos dentro de rocha sólida.
Espécimes notavelmente bem preservados das poderosas mandíbulas dos polvos mostram sinais de desgaste intenso causado pela trituração de presas duras, incluindo conchas e ossos, relata um estudo publicado na revista Science na quinta-feira.
“Isto sugere que estes polvos gigantes podem ter funcionado como predadores de topo no mar do Cretáceo”, resume à CNN o coautor do estudo Yasuhiro Iba, professor associado de Ciências da Terra e Planetárias na Universidade de Hokkaido, no Japão.
“Ficámos surpreendidos. O registo fóssil de polvos é extremamente limitado, por isso encontrar animais tão grandes e ecologicamente importantes no oceano do Cretáceo foi além das nossas expectativas”, explica.
Os animais extintos, com o nome científico de Nanaimoteuthis, tinham cerca de sete a 19 metros de comprimento. Os investigadores estimaram o seu tamanho total extrapolando a partir do tamanho dos espécimes de bico.
De acordo com o estudo, estas criaturas colossais estavam entre os primeiros polvos com barbatanas (possuem barbatanas em forma de remo na cabeça) registados na história científica.
Raras evidências fósseis de polvos
Yasuhiro Iba explicou que os polvos raramente se fossilizam porque a maior parte dos seus corpos é mole, sendo provável que apenas algumas partes duras, como as mandíbulas, sejam preservadas após a morte. Os cientistas realizaram uma nova análise de 15 enormes fósseis de mandíbulas anteriormente encontrados no Japão e na Ilha de Vancouver, no Canadá. Mas os investigadores não ficaram por aí.
A equipa também desenterrou 12 mandíbulas fossilizadas de polvo incrustadas em rocha sedimentar do Período Cretáceo, datadas de 100 milhões a 72 milhões de anos. Os autores do estudo encontraram os espécimes utilizando uma técnica de imagem 3D chamada tomografia de moagem para criar conjuntos de dados de alta resolução e um modelo de IA, de acordo com o estudo.
Yasuhiro Iba descreveu o método como uma abordagem de “mineração digital de fósseis”, que produziu modelos 3D dos fósseis de mandíbulas.
Durante o Período Cretáceo, dinossauros como o Tiranossauro rex, o triceratops e o velociraptor dominavam a terra.
E até agora, pensava-se que predadores vertebrados, como grandes répteis marinhos, tubarões e peixes, dominavam os mares, diz o cientista, mas os fósseis sugerem que os polvos também podem ter ocupado o topo da cadeia alimentar.
“Isto indica que os ecossistemas marinhos do Cretáceo eram mais complexos e incluíam uma gama mais ampla de predadores de topo do que se pensava anteriormente”, afirma.
“Dentro deste ecossistema, o Nanaimoteuthis provavelmente usava o seu corpo grande e braços longos para capturar presas e as suas mandíbulas poderosas para processar alimentos duros”, acrescenta Yasuhiro Iba. “Tal como os polvos modernos, pode ter contado com a inteligência para encontrar, capturar e consumir as suas presas”.
Yasuhiro Iba planeia agora expandir a mineração digital de fósseis, que acredita poder ajudar a descobrir organismos que eram anteriormente indetetáveis no registo fóssil.
“O nosso objetivo é revelar os intervenientes ocultos dos ecossistemas antigos e construir uma imagem muito mais completa de como os ecossistemas do passado realmente funcionavam”, afirma.
Tim Coulson, professor de zoologia na Universidade de Oxford, Inglaterra, que não participou no estudo, revela à CNN que “o trabalho apresentado no artigo é convincente e empolgante”.
“Estes animais ter-se-iam alimentado de outros animais e poderiam ter mastigado ossos de peixes grandes e, possivelmente, de répteis marinhos, bem como conchas. O seu tamanho sugere que eram predadores de topo, situados no topo da cadeia alimentar”, afirma.
“Os autores argumentam que os padrões assimétricos de desgaste nas mandíbulas dos polvos apontam para evidências de inteligência”, acrescenta Tim Coulson. “Embora plausível, não é possível dizer exatamente quão inteligentes eram estes animais”.
Jakob Vinther, professor associado de macroevolução na Universidade de Bristol, Inglaterra, que também não participou no estudo, afirmou que a investigação assenta numa “descoberta bastante surpreendente”.
No entanto, argumentou que o fóssil não prova definitivamente que o Nanaimoteuthis fosse um predador de topo que caçasse e se alimentasse de alguns dos grandes répteis marinhos com os quais teria partilhado o oceano.
“A questão é se faria sentido um animal como este abater presas tão grandes”, diz Jakob Vinther.
Os polvos teriam demorado muito tempo a decompor e a ingerir animais de grande porte e poderiam ter satisfeito as suas necessidades energéticas alimentando-se de presas relativamente pequenas, explica.
“Mas isso não invalida o facto de que estes eram muito provavelmente predadores formidáveis e, provavelmente, um predador significativo para certas presas de corpo maior que existiam naquela época”, acrescenta Jakob Vinther.
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