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Portugal tem as cientistas. Falta desbloquear o tempo

11 fev, 10:00

Honrar as mulheres que, contra todas as expectativas, mudaram o curso da história da ciência exige mais do que celebrar o passado. No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, o tributo às pioneiras só cumpre o seu propósito se inspirar as próximas gerações e, sobretudo, se nos obrigar a remover os obstáculos que ainda travam o seu talento. Em Portugal, o retrato é claro: temos as cientistas e o talento, mas continuamos a perder tempo num sistema que devia acelerar — e não atrasar — o avanço científico.

Hoje, a investigação clínica é o terreno onde este atraso mais se faz sentir. Apesar disso, Portugal consolidou-se como um parceiro de excelência, com 587 ensaios clínicos ativos e um crescimento homólogo de 8,7%, num esforço largamente impulsionado pela indústria farmacêutica, que promove mais de 90% dos estudos e permite que os doentes tenham acesso precoce a mais de 130 moléculas inovadoras. Esta dinâmica tem consequências reais: análises internas da indústria demonstram uma correlação robusta (ρ = -0,61) entre a atividade de investigação clínica de uma molécula no país e a celeridade da sua aprovação e chegada aos doentes. Investir em ciência local, portanto, não é um custo: é uma forma de devolver tempo ao sistema e à vida das pessoas.

Mas o Barómetro de Investigação Clínica 2024–2025 deixa claro que continuamos a impor uma corrida de obstáculos aos nossos centros e equipas. Os Centros de Investigação Clínica (CIC) ganharam relevância e são reconhecidos pelas administrações hospitalares e pela indústria, mas enfrentam limitações operacionais que atrasam a execução. Dispõem de autonomia estratégica — definem a sua visão e os indicadores que querem priorizar — mas continuam amarrados onde a velocidade realmente se decide: contratação de recursos humanos, definição de incentivos e progressão profissional. Apesar do novo enquadramento legal, 45% dos centros ainda não aplicam estes modelos, e apenas dois têm processos já aprovados, sinal de que a mudança legislativa não está a traduzir-se, ainda, em mudança prática. A isto soma-se a persistente assimetria na digitalização. Quarenta e dois por cento dos centros classificam a sua maturidade digital como elevada ou muito elevada, sobretudo em áreas internas como automatização e integração de dados. Porém, esta modernização ainda não se reflete na experiência dos doentes, nem no uso consistente de tecnologias emergentes como inteligência artificial ou analítica avançada, precisamente aquelas que poderiam acelerar recrutamentos, reduzir tempos de avaliação e aproximar a ciência de quem mais importa.
 
A ligação entre investigação clínica e sociedade é outro ponto fraco: 77% dos centros mantêm articulação reduzida com associações de doentes, o que limita a literacia, a participação informada e a diversidade nos estudos. Se queremos atrair mais meninas e mulheres para a ciência, precisamos de lhes mostrar — desde cedo — que o seu trabalho tem impacto direto na vida das pessoas. E, para isso, é essencial que o sistema lhes permita ver esse impacto testemunhar a um ritmo mais rápido.

O talento futuro existe, mas também ele se move a duas velocidades. As direções das faculdades de medicina são unânimes: 100% consideram a digitalização uma prioridade elevada. Contudo, do lado dos estudantes — as futuras investigadoras — apenas 56% sentem essa transformação de forma clara. Três em cada quatro currículos estão apenas parcialmente atualizados para competências digitais, a formação docente é igualmente limitada e um quarto das instituições ainda não dispõe de programas estruturados nesta área. Há, no entanto, uma base promissora: todas as faculdades já têm centros de simulação clínica digital, o que mostra que os alicerces estão montados. O que falta é velocidade, escala e ambição para que estas estruturas se tornem parte integrante do percurso académico.

Do lado da indústria, vejo diariamente o poder transformador da tecnologia. Plataformas de inteligência artificial já permitem reduzir tarefas que antes demoravam meses para poucos minutos e modelos operacionais inspirados na Fórmula 1 demonstram que a excelência é, muitas vezes, uma questão de precisão, previsibilidade e eliminação de desperdício. Mas nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, consegue compensar um sistema que demora a decidir, a contratar, a aprovar e a executar.

Por isso, neste dia dedicado às mulheres e meninas na ciência, o apelo é simples: se queremos acelerar, temos de remover as barreiras que já conhecemos e cujas soluções já existem. Dar autonomia real aos centros, digitalizar com foco no doente, aproximar a ciência da sociedade, investir no talento e garantir que o enquadramento legal é aplicado de forma rápida e homogénea.

Temos o talento, temos a ambição, e temos um ecossistema que quer avançar. Falta apenas fazer aquilo que sempre fez mover a ciência: libertar tempo para que as ideias se transformem em impacto. Porque perseguir os milagres da ciência para melhorar a vida das pessoas é um propósito que exige não só dedicação — mas velocidade.

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