Sob o vasto planalto branco da Antártida, escondido nas profundezas da neve, encontra-se um arquivo inestimável da memória climática do mundo
O cofre não é feito de aço ou betão. Não há sistemas de segurança nem congeladores a zumbir. Em vez disso, o santuário foi esculpido diretamente na neve antártica perto da Estação de Investigação de Concordia, um remoto posto avançado franco-italiano a mais de 1.000 quilómetros da costa mais próxima.
No interior da gruta gelada, os cientistas armazenam cilindros de gelo antigo extraídos de alguns dos glaciares de montanha mais ameaçados do mundo. Dentro do gelo estão registos da história climática passada — desde erupções vulcânicas e fumo de incêndios florestais até poluição industrial e alterações nas condições atmosféricas que remontam a séculos, por vezes milénios.
O projeto, liderado pela Fundação Memória do Gelo, visa preservar pedaços destes glaciares antes que a subida das temperaturas os apague. “É um local único. É uma ideia única. É realmente inédita em muitos aspetos”, diz Thomas Stocker, presidente da fundação e professor de física climática e ambiental na Universidade de Berna, na Suíça, à CNN.
“Não podemos salvar todo o glaciar, mas podemos salvar as informações ambientais e climáticas armazenadas nestes glaciares.”
Esta informação é preservada em bolhas de ar microscópicas aprisionadas dentro do gelo. “Estas bolhas estão cheias de ar atmosférico da época em que se formaram — talvez há 100 anos, mil anos, um milhão de anos”, adianta Stocker.
Os cientistas podem analisar estas bolhas para reconstruir as concentrações históricas de dióxido de carbono, metano e outros gases com efeito de estufa. Stocker refere que os registos dos núcleos de gelo revelaram que os níveis atuais de dióxido de carbono são 30% a 35% mais elevados do que em qualquer momento nos últimos 800 mil anos. Mas os registos que contêm outras informações importantes estão a desaparecer.
“Vivo na Suíça, por isso observamos há muitas décadas que os glaciares estão a recuar a um ritmo acelerado. Os arquivos climáticos locais, como nos glaciares alpinos, nos Himalaias ou nos Andes, estão a desaparecer a um ritmo acelerado de uma forma alarmante.”
Globalmente, milhares de glaciares desapareceram nas últimas décadas e, até meados do século, até 4.000 glaciares poderão desaparecer a cada ano se os humanos continuarem a impulsionar as alterações climáticas, de acordo com um estudo de 2025. Há cerca de uma década, à medida que a escala da perda de glaciares se tornou cada vez mais clara, os cientistas desenvolveram a ideia dos arquivos Ice Memory. Desde então, as equipas têm viajado pelo mundo perfurando e transportando núcleos frágeis para a Antártida, onde o frio natural do continente pode preservá-los durante séculos.
Recolher os núcleos
A recolha e o transporte das amostras para a Antártida, mantendo-as congeladas e sem contaminação, é uma tarefa complexa que muitas vezes exige expedições a alguns dos ambientes mais inóspitos da Terra.
Os cientistas transportam quase 450 quilos de equipamento de perfuração para terrenos de grande altitude. No Tajiquistão, uma recente campanha de perfuração ocorreu a 5.820 metros acima do nível do mar.
"Pode imaginar o quão difíceis devem ter sido as condições de trabalho para os perfuradores e os cientistas que lá foram", ressalta Stocker.
Uma broca cilíndrica equipada com cortadores em forma de anel perfura o glaciar, extraindo um núcleo vertical de gelo camada a camada. Quanto mais profundo for o núcleo, mais antiga é a história climática que contém.
Antes de qualquer perfuração começar, contudo, os cientistas passam meses a investigar os glaciares com recurso ao radar de penetração no solo para identificar os locais mais estáveis, onde as camadas de gelo internas permanecem intactas. “Quando fazemos este levantamento por radar, é basicamente como olhar para uma fotografia de toda a estrutura interna do gelo, desde os seus pés até à interface com a rocha matriz que está por baixo”, diz Alison Criscitiello, diretora do Laboratório de Núcleos de Gelo do Canadá da Universidade de Alberta, que não está envolvida com a Fundação Memória do Gelo, à CNN.
Uma rede internacional de cientistas e instituições passou décadas a recolher, armazenar e estudar núcleos de gelo de glaciares e calotas polares de todo o mundo.
“Há lugares no planeta com registos climáticos críticos que estão a ser perdidos todos os dias”, adianta Criscitiello. “A cada dia que passa em que ocorre degelo neste tipo de locais, perde-se mais tempo deste registo climático.”
Organizações como o National Snow and Ice Data Center da Universidade do Colorado em Boulder, nos EUA, o British Antarctic Survey, o Instituto Alfred Wegener na Alemanha e o Centro Nacional Francês de Investigação Científica (CNRS) mantêm vastos arquivos de amostras congeladas perfuradas na Antártida, Gronelândia e glaciares de montanha. Colaborações internacionais como o Projeto Europeu de Perfuração de Gelo na Antártida (EPICA) e o Beyond EPICA utilizaram estes núcleos para reconstruir a história climática da Terra, remontando a centenas de milhares de anos.
Mas embora a maioria da investigação sobre núcleos de gelo se tenha concentrado na compreensão das alterações climáticas passadas, a Ice Memory Foundation acrescenta uma nova dimensão: preservar um arquivo de glaciares ameaçados antes que desapareçam.
Caverna de gelo
Os cientistas escolheram a área próxima da Estação de Investigação de Concordia precisamente porque as temperaturas aí se mantêm suficientemente baixas para que os núcleos de gelo sejam preservados naturalmente, sem necessidade de sistemas de refrigeração complexos.
Situada no alto do planalto antártico, a mais de 3.000 metros acima do nível do mar, Concordia é uma das estações de investigação mais frias e isoladas da Terra. Durante o inverno antártico, as temperaturas podem descer abaixo dos -80 graus Celsius, e a estação está isolada do mundo exterior durante meses a fio.
“Este é realmente um lugar seguro. Tornámos o local ainda mais seguro escavando uma gruta a 10 metros abaixo da superfície”, refere Stocker. “Nessa gruta, nesse local, temos uma temperatura constante de -52 graus Celsius. A gruta está protegida por uma camada de neve; é essencialmente um cofre, mas feito de neve compactada”. Durante a construção, foi escavada uma vala e um balão insuflável foi colocado no seu interior para manter o espaço para o cofre enquanto os cientistas compactavam a neve À volta. Assim que a estrutura foi fixada, o balão foi removido, deixando para trás uma gruta em forma de túnel com 60 metros de comprimento e 5 metros de largura.
No interior do cofre, os núcleos de gelo cilíndricos são armazenados em recipientes brancos isolados, empilhados em longas filas, cada um cuidadosamente etiquetado.
A fundação tem como objetivo preservar núcleos de gelo de 20 glaciares de todo o mundo. Dez já foram perfurados, incluindo núcleos dos Alpes, dos Andes e das Montanhas Pamir, no Tajiquistão.
“Os núcleos de gelo contêm informações climáticas globais, por isso há certas coisas que cada núcleo de gelo na Terra conterá”, diz Criscitiello. “Mas os núcleos de gelo também contêm uma enorme riqueza de informações climáticas muito locais.”
Esta informação inclui dados sobre a atividade de incêndios florestais, contaminação ambiental, sistemas de monções e abastecimentos regionais de água. “São registos climáticos que já não existirão”, adianta Criscitiello.
Gerações futuras
Stocker afirma que os glaciares da Suíça já perderam cerca de 35% do seu volume, e as projeções sugerem que até 90% dos glaciares de baixa altitude poderão desaparecer até ao final do século, num cenário de emissões elevadas.
O valor dos núcleos de gelo arquivados hoje continuará a crescer, à medida que as gerações futuras expandem os limites da tecnologia atual, diz Stocker.
"Podemos medir coisas hoje que nunca imaginámos há 50 anos. Por isso, acreditamos que, daqui a cerca de 50 ou 100 anos, as próximas gerações de cientistas serão capazes de extrair informações totalmente novas destes núcleos de gelo que estamos hoje a preservar para eles."
