Copenhaga repetiu este ano o feito de ser considerada a cidade mais habitável do mundo pela Economist Intelligence Unit, alcançando as classificações máximas em duas das três categorias: estabilidade e infraestruturas e educação. Prova de que a habitabilidade não se decreta, projeta-se, algo que arquitetos, engenheiros e urbanistas bem sabem.
A história começa em 1947, com o Fingerplanen, "Plano dos Dedos", quando se optou por desenhar a cidade como uma mão, com cinco corredores de urbanização (os dedos) ao longo das linhas ferroviárias suburbanas, separados por espaços verdes onde é proibido construir. Quase 80 anos depois, o plano mantém-se, respeitado por governos de todas as cores políticas. É este consenso técnico de longo prazo, mais do que a riqueza do país, que explica a pontuação perfeita em matéria de infraestruturas.
Sobre essa base assentaram decisões sucessivas e coerentes, nomeadamente a pedonalização da Strøget, principal artéria comercial de Copenhaga, que depois de 1962 passou a ser o circuito preferido de quem quer ver e ser visto. A utilização da bicicleta deu uma forte ajuda, sendo que quase metade das deslocações pendulares faz-se recorrendo a este meio de transporte, através de centenas de quilómetros de ciclovias segregadas e pontes dedicadas.
O porto, conhecido pela poluição, foi recuperado até se tornar uma zona balnear. E a água, que quase afogava a cidade, foi o motor de uma transformação valiosa: após as chuvadas torrenciais de 2011, o sistema de drenagem colapsou e a cidade sofreu uma das maiores inundações da sua história, com prejuízos superiores a 800 milhões de euros. Foi então adotado um plano de adaptação climática com cerca de 300 intervenções em que os parques passaram a funcionar como bacias de retenção e as ruas como canais de escoamento, engenharia hidráulica disfarçada de espaço público.
E Lisboa, o que pode aprender? A capital portuguesa, dotada de uma atratividade e identidade ímpares, enfrenta hoje desafios estruturais complexos, desde as ondas de calor e secas prolongadas até à gestão de eventos pluviométricos intensos que testam a memória hidráulica da cidade e das suas ribeiras históricas. Responder a este cenário exige ir além da reação pontual a situações de emergência. A cidade não é apenas edificação e massa construída, é sobretudo espaço público, vivência e equilíbrio ambiental.
Embora não esteja totalmente saturada, Lisboa caminha nesse sentido, sendo urgente definir uma estratégia global clara, onde os cidadãos se revejam e na qual a liderança política encontre inspiração e continuidade. O planeamento urbano assume, assim, um papel determinante.
Há um legado de excelência no desenho da cidade: o contínuo verde idealizado por Gonçalo Ribeiro Telles nos anos 70 do século XX, consagrado no Plano Diretor Municipal de 2012, através de uma rede de nove corredores verdes destinados a ligar a estrutura ecológica ao rio - a nossa versão, ambiciosa e acertada, da visão de Copenhaga. Reativar e concretizar em pleno este e outros projetos estruturantes é um investimento direto na qualidade de vida urbana, pois o urbanismo pensado em grande escala traz a garantia de rigor técnico e visão sustentável que a cidade exige.
Para isso, é fundamental colocar todos os atores em diálogo direto, sob a liderança e a capacidade de execução únicas que a Câmara Municipal detém para catalisar transformações desta dimensão.
Existem já passos estruturantes e profundamente positivos para o bem-estar da população de Lisboa. As intervenções do Plano Geral de Drenagem, como o túnel entre Monsanto e Santa Apolónia, representam a engenharia de resiliência a trabalhar de forma invisível no subsolo. À superfície, as intervenções no Cais do Sodré e no Campo das Cebolas são exemplos que dignificam e devolvem a frente ribeirinha às pessoas e à natureza, refletindo o impacto extraordinário da qualificação do espaço público. Revelam uma visão correta para a cidade, mas Lisboa precisa e merece mais.
A diferença decisiva entre as duas capitais não está no talento de projeto, que Portugal tem em abundância, nem sequer na falta de visão. Está na continuidade e na urgência da concretização. Copenhaga segue o mesmo plano diretor há oito décadas, Lisboa precisa, do mesmo modo, de assegurar que as grandes opções urbanas transcendem os ciclos políticos e que as boas ideias sobrevivem à mudança de mandatos. Os desafios do clima e do espaço urbano estão aí e não esperam pelo calendário eleitoral.
Trata-se, por isso, de passar decisivamente à ação. A lição que Copenhaga nos deixa é que as cidades mais habitáveis são as que unem a excelência do desenho à determinação de executar e deixar os bons projetos durar. Lisboa, este lugar magnífico, carregado de luz e de história, tem em si toda a inspiração e o conhecimento necessários para liderar o caminho. Não nos falta saber o que fazer, mas a coragem coletiva de colocar em prática, de forma antecipada e ambiciosa, a cidade que todos merecemos.
