Cada vez mais americanos estão a renunciar à própria cidadania

CNN , Terry Ward*
4 jul, 15:00
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As razões vão da política aos impostos. E cerca de 5.000 americanos deram esse passo em 2025

Ao fim de seis meses na Nova Zelândia com um visto de férias-trabalho, Erin Klatt já sabia que queria fazer daquele país a sua casa para sempre. Foi há dez anos.

Klatt procurava “um lugar diferente para viver” por várias razões pessoais e políticas quando deixou os Estados Unidos, em 2016. “Quando cheguei à Nova Zelândia, tudo simplesmente fez sentido”, recorda.

Uma década depois, aos 34 anos, Klatt cortou oficialmente os laços com os Estados Unidos. No início deste ano, pouco antes de o Departamento de Estado norte-americano reduzir em cerca de 80% a taxa para renunciar à cidadania, pagou os então 2.350 dólares (cerca de 2.050 euros) e leu o juramento que formalizou a renúncia à cidadania norte-americana.

Tinha experiência na indústria leiteira no Wisconsin e encontrou trabalho semelhante na Nova Zelândia, o que lhe permitiu obter um visto de trabalho para competências essenciais e permanecer mais tempo no país. Foi precisamente através desse sector que conheceu o marido, inglês, que também vivia e trabalhava na Nova Zelândia.

Os dois tornaram-se cidadãos neozelandeses em conjunto, em maio de 2025. Foi também nessa altura que Klatt decidiu que tinha chegado o momento de abandonar a cidadania norte-americana.

“Nunca me senti particularmente patriótica ou ligada ao país”, assume Klatt, acrescentando que há muito se mostrava desapontada com o rumo dos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump.

Entre a política nacional e os encargos fiscais aplicados aos cidadãos norte-americanos residentes no estrangeiro, desistir da cidadania pareceu-lhe o passo natural.

Número de renúncias

Os números oficiais sobre norte-americanos que renunciam à cidadania são difíceis de determinar.

Um porta-voz do Departamento de Estado disse à CNN, por e-mail, que o organismo não publica estatísticas sobre o número de cidadãos que optam por renunciar à cidadania. Acrescentou ainda que o Departamento do Tesouro divulga relatórios trimestrais do IRS [Internal Revenue Service], o Serviço de Receita Federal dos EUA, sobre expatriações. O IRS informou a CNN de que não possui compilações anuais sobre o número de expatriações.

Mas segundo a Americans Overseas, organização que presta apoio a cidadãos norte-americanos residentes no estrangeiro e que contabiliza os nomes divulgados nos relatórios trimestrais do IRS, 4.889 pessoas constam da lista da agência em 2025. Trata-se do valor mais elevado desde 2020, ano em que o número atingiu 6.705. A organização afirma estar a receber significativamente mais pedidos de informação sobre renúncia à cidadania este ano e prevê um aumento de 15% das expatriações face ao ano anterior. Espera ainda que os números permaneçam elevados nos próximos anos.

Atualmente, a Americans Overseas aconselha cerca de 40.000 cidadãos norte-americanos — a maioria com dupla nacionalidade — na Europa e noutras regiões do mundo que estão a renunciar à cidadania ou a ponderar fazê-lo, segundo Daan Durlacher, cofundador da organização.

Durlacher afirma que muitos clientes que sabe terem renunciado à cidadania não aparecem nos relatórios do IRS, sugerindo que os números podem estar subestimados. O IRS não respondeu de imediato aos pedidos adicionais de esclarecimento da CNN.

“Estes números não estão completos e não sei porquê”, diz Durlacher, cidadão neerlandês e norte-americano, nascido nos Países Baixos de mãe americana.

"Sem arrependimentos"

Renunciar a algo significa abdicar formalmente desse direito. No caso da cidadania norte-americana, trata-se de um processo legal e formal que exige documentação potencialmente complexa, bem como um juramento presencial perante um funcionário consular numa embaixada ou consulado dos EUA no estrangeiro, além de outros requisitos.

Klatt conta que ficou surpreendida com a dificuldade em encontrar apoio quando decidiu iniciar o processo. Em agosto de 2025 enviou um e-mail a um endereço governamental a manifestar a intenção de renunciar à cidadania, mas só recebeu resposta em outubro, quando apresentou os formulários exigidos.

Durlacher confirma que o primeiro passo consiste precisamente em enviar essa comunicação.

“Tem de contactar o consulado ou a embaixada no país onde vive e depois esperar”, explica, acrescentando que a resposta pode demorar entre seis e nove meses.

Klatt refere que grupos no Facebook, como “Renounce US Citizenship - Why, How ??? All the answers here”, entre outros, foram úteis para compreender as várias etapas do processo.

Erin Klatt renunciou à cidadania norte-americana no consulado dos EUA em Auckland, Nova Zelândia. (Kehan ChenMoment RF/Getty Images)

No final de janeiro de 2026 recebeu um e-mail com uma marcação para o início de março no consulado dos EUA em Auckland, onde formalizou a renúncia.

A taxa continuava então nos 2.350 dólares (cerca de 2.050 euros) — entretanto reduzida para 450 dólares (cerca de 390 euros) — e teve de ser paga antes da leitura do juramento. Klatt diz que o facto de o momento coincidir com o início da guerra com o Irão tornou a decisão ainda mais carregada de significado político.

Depois de concluir o processo, sentiu apenas entusiasmo e alívio.

“Estou muito feliz com a minha decisão. Não tenho qualquer arrependimento”, garante. “Aliás, de vez em quando até celebro o facto de já não fazer parte deles.”

Naturalmente, existem muitas razões para renunciar à cidadania norte-americana, sendo a financeira uma das mais importantes.

A obrigação de declarar e pagar impostos sobre rendimentos obtidos em qualquer parte do mundo até ao fim da vida é frequentemente um fator determinante, explica Jonathan D. Tiegerman, da empresa de consultoria fiscal e jurídica Tiegerman, sediada em Zurique, na Suíça. Entre os interessados estão cidadãos norte-americanos que vivem e trabalham no estrangeiro, mas também os chamados “americanos acidentais” — pessoas que adquiriram a cidadania por terem nascido em território dos EUA ou por terem um progenitor norte-americano, muitas vezes sem nunca terem vivido ou trabalhado no país.

Os Estados Unidos são um dos dois países do mundo que exigem aos seus cidadãos a declaração e pagamento de impostos sobre rendimentos globais independentemente do local onde vivem ou trabalham. O outro é a Eritreia. Esta obrigação decorre da lei Foreign Account Tax Compliance Act (FATCA), aprovada em 2010 e plenamente aplicada a partir de 2014.

Segundo Durlacher, a maioria das pessoas apoiadas pela Americans Overseas pondera renunciar à cidadania devido à FATCA e não por razões políticas.

"Uma espécie de limbo não declarado"

Para algumas pessoas, a questão também passa pela identidade.

É o caso de Caroline Chirichella, que se considera uma “americana muito orgulhosa”.

Ainda assim, esta cidadã norte-americana e italiana, residente em Itália, tem vindo a estudar a possibilidade de trocar definitivamente o passaporte azul dos EUA pelo passaporte europeu de cor bordeaux.

Caroline Chirichella vive em Itália com a família. Tem dupla nacionalidade norte-americana e italiana, mas pondera abdicar da cidadania dos EUA. (Cortesia Caroline Chirichella)

Chirichella, de 37 anos, vive em Guardia Sanframondi, a nordeste de Nápoles, e obteve a cidadania italiana em 2018 através do bisavô, graças ao princípio do jus sanguinis (“direito de sangue”) que, apesar de uma mudança na lei no ano passado, ainda mantém alguns descendentes de italianos na esperança de obter a cidadania italiana.

Durante muitos anos, antes disso, a proprietária de uma agência de relações públicas, dividiu a vida entre Itália e Nova Iorque, onde viveu a maior parte da sua vida.

“Francamente, a minha vida agora é em Itália. Não tenho familiares próximos nos Estados Unidos. Os meus filhos nasceram em Itália e o meu marido é italiano”, sublinha Chirichella, que começou a ponderar a renúncia logo após obter a cidadania italiana e depois do nascimento do primeiro filho em Itália.

A decisão não está relacionada com a política norte-americana nem com questões financeiras, esclarece.

“Sou grata por todas as oportunidades que a América me deu. Mas sinto que, quando se tem dupla nacionalidade, existe uma espécie de limbo não declarado: demasiado americana para estar em Itália e demasiado italiana para estar nos Estados Unidos.”

Acredita, por isso, que ficar apenas com a nacionalidade do país onde escolheu viver poderá ajudá-la a ultrapassar esse sentimento.

Um processo longe de ser simples

Os cidadãos norte-americanos só podem renunciar à cidadania se provarem que têm o direito legal de residir noutro país.

“Não se pode renunciar à cidadania dos EUA sem ter outra nacionalidade”, confirma Durlacher.

Além disso, é obrigatório que as declarações fiscais dos cinco anos anteriores tenham sido entregues e estejam regularizadas.

Existem ainda regras específicas para pessoas com patrimónios superiores a 2 milhões de dólares (cerca de 1,75 milhões de euros), entre outros cenários particulares, explica Tiegerman.

“A componente declarativa é muito complexa, por isso é importante trabalhar com um advogado ou contabilista certificado, especialmente alguém com experiência internacional”, aconselha.

Segundo Tiegerman, o seu escritório regista um aumento das consultas sobre renúncia à cidadania de quatro em quatro anos, coincidindo com os ciclos eleitorais presidenciais nos EUA.

“Normalmente, metade dos americanos fica satisfeita com o resultado e a outra metade extremamente desapontada. Isso é uma consequência da forte polarização política nos Estados Unidos”, observa.

Para os chamados “americanos acidentais”, a situação fiscal pode ser particularmente frustrante, sobretudo para quem nunca viveu efetivamente nos Estados Unidos durante a vida profissional.

Os efeitos da FATCA podem mesmo ser profundos, indica Fabien Lehagre , presidente e fundador da Associação de Americanos Acidentais , com sede em Paris, e também membro do conselho da organização Tax Fairness for Americans Abroad .

“A FATCA, em particular, leva muitas instituições bancárias europeias a recusarem abrir ou manter contas, hipotecas ou seguros de vida para clientes identificados como ‘US persons’, por receio das penalizações previstas na legislação norte-americana. Receber um salário, pedir um empréstimo para comprar habitação própria ou poupar para a reforma pode transformar-se num verdadeiro percurso de obstáculos” para os americanos acidentais, aponta.

O termo "americanos acidentais" refere-se a uma população global muito mais diversificada do que se poderia imaginar, afirma Lehagre, acrescentando que se estima que existam 300.000 pessoas em toda a Europa que se enquadram nesta categoria (40.000 só em França).

"O principal obstáculo, para os americanos acidentais que mantêm a sua cidadania, reside nas leis extraterritoriais dos EUA, que tornam extremamente difícil levar uma vida financeira normal na Europa", destaca.

O termo diz respeito principalmente a indivíduos nascidos nos Estados Unidos durante uma breve estadia dos seus pais e àqueles que deixaram o território norte-americano ainda crianças, possivelmente ainda bebés.

"Outros nasceram no estrangeiro de um progenitor americano e herdaram automaticamente a cidadania sem nunca terem pisado os Estados Unidos. Muitos não falam inglês, não possuem passaporte norte-americano nem número de Segurança Social, e descobrem a sua situação tardiamente, muitas vezes através de uma carta do banco a solicitar-lhes que forneçam um número de identificação fiscal dos EUA", conta Lehagre.

"Agir em conformidade"

Para quem já ponderava renunciar à cidadania, a recente redução da taxa poderá acelerar o processo.

Natural do Missouri, Jennifer Sontag vive na Sicília, tem dupla nacionalidade norte-americana e italiana e é proprietária da agência de relocalização ViaMonde. Fala em renunciar à cidadania há anos e sente-se finalmente motivada para avançar agora que o custo diminuiu substancialmente.

Jennifer Sontag, cidadã norte-americana e italiana, está a preparar a documentação necessária para renunciar à cidadania dos EUA. (Cortesia de Jennifer Sontag)

Sontag, de 53 anos, deixou definitivamente os Estados Unidos em 2018 e descreve a eleição de Trump, em 2016, como “a gota de água”. Obteve a cidadania italiana por ascendência em 2021 e considera que chegou a altura de “agir em conformidade com aquilo que defende” e renunciar à cidadania amerincana.

Atualmente está a fazer, através dos seus contabilistas, uma revisão detalhada das contas da empresa relativas aos últimos sete anos antes de marcar uma reunião num consulado em Roma ou Nápoles — onde quer que haja uma vaga mais cedo — para prestar juramento e renunciar à cidadania.

O processo de pôr todos os seus assuntos em ordem tem sido um pesadelo, admite, uma vez que requer uma “auditoria enorme” dos seus negócios italianos, utilizando as regras contabilísticas dos EUA.

“O motivo é simples: a minha vida está agora fora dos Estados Unidos. Sou muito americana — sem representação não deve haver tributação — e já não retiro benefícios do pagamento de impostos nos EUA. É um dos dois únicos países em todo o mundo onde os impostos se baseiam na cidadania”, aponta Sontag.

Está, por isso, “pronta” para se “desligar dos EUA”. E embora a sua decisão de renunciar à cidadania pareça um alívio, Sontag também se sente triste por deixar para trás essa parte de ser americana.

“Faz parte da minha identidade. É quem eu sou. Nunca vou ser totalmente italiana. Vivo aqui há cinco anos, estou a aprender a língua e a cultura, mas ainda não tenho aquelas experiências fundamentais que me tornam italiana.”

Os efeitos profundos

Muitas pessoas não refletem totalmente sobre as consequências da renúncia, alerta Brad Bernstein, presidente do escritório de advogados Spar & Bernstein, em Nova Iorque, especialista em imigração e danos pessoais.

A cidadania norte-americana oferece, segundo ele, vantagens significativas, incluindo mobilidade internacional e acesso facilitado a muitos países sem necessidade de visto.

“Depois de renunciar, deixa de ser cidadão norte-americano. Passa a ser tratado como qualquer outro estrangeiro. Se quiser regressar aos Estados Unidos, mesmo apenas para visitar, precisará de visto e a aprovação nunca é garantida. Algumas pessoas são aprovadas, outras não”, esclarece.

As pessoas subestimam frequentemente o que significa renunciar à cidadania e podem vir a arrepender-se mais tarde, considera, acrescentando que renunciar à cidadania não é uma decisão que deva basear-se num “pensamento de curto prazo” ou em “questões financeiras de menor importância”.

Alguns cidadãos americanos que também possuem cidadania italiana optam por renunciar aos seus passaportes americanos. A foto mostra Palermo, na Sicília. (elzauer/Moment RF/Getty Images)

“Poupar alguns milhares de dólares não deveria ser a razão para uma decisão tão séria”, defende. “A verdadeira questão é compreender que poderá estar a abdicar permanentemente da possibilidade de viver e trabalhar nos Estados Unidos.”

Howard Lavine, professor de Ciência Política e Psicologia na Universidade do Minnesota, acredita que a renúncia também também pode ter efeitos profundos de outras maneiras.

“As pessoas que querem renunciar à cidadania procuram começar a pensar em si próprias de forma diferente, querem que as suas vidas sejam diferentes. E uma maneira de as suas vidas serem diferentes é adotando identidades sociais diferentes”, observa.

Abandonar uma identidade nacional concorrente pode ajudar nesse processo, alinhando aqueles que renunciam à cidadania mais com a imagem que desejam ter de si mesmos.

“E isso tem implicações na forma como se sentem. Faz parte da regulação emocional”, acrescenta.

Para Chirichella, que continua a ponderar a decisão, trata-se de um passo demasiado importante para ser dado de ânimo leve. “Por mais que goste da ideia, renunciar à minha cidadania deixa-me muito triste. Não quero tomar esta decisão sem ter 100% de certeza. Depois de renunciar, não posso recuperá-la.”

Refletir é essencial, defende Durlacher.

Embora compreenda os motivos — políticos ou outros — de quem pondera abandonar a cidadania norte-americana, deixa uma reflexão final: “Como cidadão dos EUA, continua a ter voto. É por isso que eu continuo a ser cidadão norte-americano.”

*A escritora de viagens Terry Ward, radicada na Florida mora em Tampa e aguarda uma decisão sobre sua cidadania italiana

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