A competir no estrangeiro desde 2010, Nelson Oliveira vive o décimo ano pela Movistar e é o único português no Tour, face ao abandono de João Almeida. Fruto da experiência e da amizade, o «capitão» da Movistar acompanhou e aconselhou o compatriota da Emirates. Em entrevista ao Maisfutebol, em Toulouse, Nélson Oliveira revela entusiasmo ao analisar a nova geração lusa e descarta o fim da carreira
A nona participação de Nelson Oliveira no Tour de France conta com pinceladas de experiência, sacrifício, liderança, racionalidade e tranquilidade. Aos 36 anos, está a quatro participações de igualar o recorde de Joaquim Agostinho e saboreia a décima época pela Movistar, sem pensar no fim da carreira.
Em Toulouse, na tarde de quarta-feira – após a 11.ª etapa, que decorreu debaixo de 35.ºC – o Maisfutebol deixou o centro citadino e viajou 15 quilómetros, até ao quartel-general de Movistar, Arkéa e Astana. À margem de uma enorme e tentadora piscina – com vista para um imenso campo de golfe – encontrámos Nélson Oliveira na sala de refeições reservada à Movistar.
O Maisfutebol voou até Toulouse – cidade de bicicletas, râguebi e indústria aeroespacial – à boleia da VELUX, patrocinadora do Tour de France.
Quanto a Nélson Oliveira, o único luso em prova desdobra-se em esforços, sobretudo a pensar no líder Enric Mas. Por isso, ao cabo de 13 etapas, o elemento mais velho da Movistar é 60.º na classificação geral, com o segundo melhor registo. Por sua vez, Enric Mas é 15.º, procurando melhorar o 19.º posto de 2024.
Nesta conversa com o Maisfutebol, o ciclista natural de Anadia – filho de Celestino Jesus de Oliveira, vencedor de uma etapa na Volta a Portugal de ‘69 – abre o livro, por exemplo, sobre ídolos, a figura de Joaquim Agostinho, os elos com João Almeida e Rui Costa, e o futuro do talento nacional.
Maisfutebol (MF): Está inaugurada a fase mais exigente do Tour. Como perspetiva as próximas etapas?
Nelson Oliveira (NO): Os primeiros dez dias foram complicados, todas as equipas queriam vencer etapas – até porque todos estão frescos. Por isso, o nível de stress no pelotão foi elevado, o que originou quedas. Já tivemos algumas quedas na Movistar, mas nada de grave. As velocidades médias têm sido incríveis.
MF: (…)
NO: A partir desta semana a corrida muda, as equipas dos sprinters já não tentam partir para a fuga, o terreno torna-se mais duro e o pelotão é reduzido. Vem aí muita dureza e as equipas dos candidatos à camisola amarela vão agravar a exigência. Na Movistar brincamos e dizemos que agora é que começa o Tour!
MF: Onde se posiciona a Movistar no pelotão?
NO: O nosso líder – Enric Mas – consegue estar entre os melhores na alta montanha. O nosso objetivo na geral é trabalhar para ele. E temos alguns jovens para lançar na fuga, a pensar numa vitória em etapas.
MF: Até ver, Enric Mas está fora do top-10 da classificação geral.
NO: É algo que nos perturba, claro, a diferença é considerável. Ainda assim, sabemos que é complicado estar entre os cinco melhores. O lote é restrito, também depende das sortes. Em 2024, o quinto classificado ficou a 20 minutos.
MF: Como sente o corpo ao participar no nono Tour?
NO: Sinto-me bem, corro e treino com gosto, faz com que os processos fluam naturalmente. Sinto-me contente com a condição física. A montanha não é o meu forte, mas continuo competitivo. Quero estar entre os melhores nos contrarrelógios e sou corredor de fuga. É preciso estar no momento certo, à hora certa, no dia certo. Ou seja, ainda não penso no fim da carreira.
MF: Como se gerem as circunstâncias para uma fuga?
NO: Há uns anos era mais fácil. Atualmente rolamos muito rápido e está relacionado com a sorte da companhia e a gestão coletiva do esforço.
MF: É incontornável abordar a desistência de João Almeida (UAE Emirates). Chegaram juntos à meta na sétima etapa, no Mûr-de-Bretagne, há uma semana.
NO: Eu descolei na primeira passagem pela meta e não me apercebi dos envolvidos na queda. Até o Enric Mas caiu e não me apercebi. A um quilómetro da meta vi o João e quis acompanhá-lo, até para perceber como estava. Tinha uma ferida aberta no dedo, estava muito dorido, com muitas dores e feridas. Aconselhei-o a avaliar a situação com muita calma. Quando caímos, temos sempre vontade de continuar. Já vivi situações idênticas. No dia seguinte estive com o João no pelotão, mas senti-o com muitas dores na costela. O abandono era inevitável.
MF: Qual a relação entre portugueses numa grande “Volta”?
NO: Procuramos trocar palavras de incentivo sempre que possível, sobretudo durante a corrida, no pelotão.
MF: E quem é o João Almeida?
NO: Um grande atleta e um rapaz muito humilde, sabe onde está e tem consciência das suas qualidades. Continua a dar provas do seu talento, este ano conseguiu um salto importante na carreira. Esta desistência foi um azar, mas, felizmente, está a recuperar. Em breve voltaremos a vê-lo a brilhar.
MF: É o mais velho da Movistar neste Tour, com 36 anos. Que responsabilidade acarreta esse posto?
NO: Sou uma espécie de capitão, responsável por ler a corrida e comunicar com colegas e diretores. Procuro acalmar os mais jovens, porque têm muita vontade de atacar.
MF: Está no estrangeiro desde 2010, vive o décimo ano na Movistar. Os jornalistas de Espanha dizem que já conta como espanhol. E até noto que já adquiriu o sotaque de “nuestros hermanos”.
NO: Moro em Andorra com a minha família. Recebemos a cultura local, mas continuo a ser português com orgulho. Escolhi morar em Andorra, sobretudo, pelos treinos. Parece mentira, mas o tempo é melhor em relação a Portugal, porque chove menos. E no inverno tem nevado menos. Por isso, as condições melhoraram.
MF: Quem lhe serviu de inspiração ao longo destes anos?
NO: Sérgio Paulinho e José Azevedo, por exemplo. Também Alejandro Valverde, Fabian Cancellara e Rui Costa. Partilhei equipa com os três. Com o Rui Costa ganhei muita experiência e tornei-me, definitivamente, num gregário, ao lado do campeão do Mundo de estrada [de 2013]. A responsabilidade era diferente.
MF: Esperava ver Rui Costa neste Tour?
NO: Não, porque sei o que viveu no início da época, com uma queda e uma lesão num joelho. Quando se vem ao Tour, ou se está preparado, ou é melhor não vir.
MF: Os nomes de João Almeida, António Morgado, Rui e Ivo Oliveira, e de Iúri Leitão continuam a dar que falar. O que nos dizem os recentes resultados sobre o futuro do ciclismo nacional?
NO: A modalidade está em crescimento. Esta juventude abre espaço para a próxima geração, têm feito um excelente trabalho. Mas os resultados demoram a surgir, eles não começaram a trabalhar há poucos anos. Há que crescer no rumo certo.
MF: É justo comparar João Almeida a Joaquim Agostinho?
NO: São corredores diferentes em contextos distintos. O João já fez muito por Portugal, com várias vitórias e top-5 nas três grandes “Voltas” [França, Itália e Espanha], o que não está ao alcance de qualquer um. Essencialmente, são corredores diferentes. O Joaquim Agostinho era talhado para a montanha, era pura força. E o ciclismo mudou. É como comparar o Remco Evenepoel a Eddy Merckx.
MF: No futuro pretende continuar ligado à modalidade?
NO: Sim. Pelo menos tentar lançar carreira enquanto diretor desportivo, para perceber se gosto. Neste momento sou presidente do Clube Ciclismo Bairrada (Blackjack-Bairrada), o nosso treinador é o Henrique Queiroz, o meu primeiro diretor desportivo no Sangalhos. Temos vários jovens promissores, que podem chegar longe caso tenham a cabeça no lugar.
MF: O que resta do miúdo natural de Anadia e filho de Celestino Jesus de Oliveira, que deu as primeiras pedaladas em Sangalhos?
NO: Pouco mudou. Sou a mesma pessoa, com mais experiência. Por vezes ainda me considero uma criança, com muita vontade de competir. E, claro, espero passar estes genes.
MF: Quem é o Nélson Oliveira fora do ciclismo?
NO: Um pai de família, com filhas de 9 e 7 anos. Quando vivemos tantos meses fora de casa, todo o tempo em família sabe a pouco. Gosto muito de passear e de estar bem acompanhado.