Durante séculos, o poder de um Estado era avaliado pela extensão das suas fronteiras ou pela dimensão da sua frota. Hoje, vivemos num mundo interligado e exposto a ameaças invisíveis, em que a verdadeira força também se mede pela sua capacidade de proteger o que não se vê: os nossos dados, as infraestruturas críticas e a segurança dos cidadãos. Perante este novo desafio, a defesa, a cibersegurança e a inteligência artificial marcam a diferença entre vulnerabilidade e resiliência.
Os componentes do poder geopolítico não são fixos: evoluem constantemente em resposta a mudanças históricas, tecnológicas e sociais. É evidente que, durante a Segunda Guerra Mundial, o número de tanques era muito mais relevante do que qualquer autoridade. No século XVIII, o prestígio de um Estado dependia em grande medida da sua demografia, uma vez que o tamanho da sua população determinava tanto as receitas fiscais como o potencial de recrutamento militar.
E hoje? Se ouvirmos comentadores e jornalistas, há dois indicadores-chave que são mencionados com mais frequência: o PIB e os gastos com defesa. Sem diminuir a sua importância, acredito que, à luz das recentes transformações, um terceiro indicador deveria ser adicionado: o número de graduados em disciplinas STEM*.
De acordo com dados da EDUSTAT de 2025, dos portugueses licenciados por ano, cerca de 30% estão inscritos em cursos STEM - Ciências, Matemática, Tecnologia e Engenharia, o que faz de Portugal um dos principais destinos tecnológicos e o terceiro país da UE com a taxa mais elevada de licenciados em engenharia.
Na minha opinião, o que realmente determinará a capacidade de um país controlar o seu destino e influenciar o curso dos acontecimentos do século XXI será a sua capacidade — e a dos seus cidadãos — de dominar o poder das novas tecnologias e promover o seu desenvolvimento. Não só será necessário estar entre os primeiros a inventá-las, como será ainda mais importante estar entre os primeiros a adotá-las e transformá-las em vantagens competitivas.
Estamos num momento único na história da tecnologia. Em primeiro lugar, porque se tornou um elemento transversal que permeia todos os setores das nossas sociedades. Saúde, transportes, educação, energia, defesa ou segurança: todas as infraestruturas das quais dependem as nossas economias e as nossas vidas foram transformadas, especialmente pela irrupção das tecnologias digitais. Isto oferece uma enorme margem de manobra, uma vez que a adoção de uma nova tecnologia pode ter impacto em vários domínios ao mesmo tempo. Basta observar o efeito dominó provocado pelos últimos avanços em inteligência artificial para comprovar isso.
É também um momento único porque estamos à beira de vários avanços tecnológicos de grande magnitude. Alguns, como a informática quântica, a biotecnologia, os sistemas autónomos ou a robótica, terão sem dúvida um impacto sistémico, qualquer um deles capaz de desencadear transformações transversais com um impacto difícil de imaginar.
Devemos reconhecer que a escala, a velocidade e o impacto amplificado da inovação nos introduziram, sem que percebêssemos, numa nova era. A concorrência global agora confronta aqueles que são capazes de compreender — e, portanto, explorar melhor — essa extraordinária abundância tecnológica.
Mas não basta ter excelentes investigadores. Precisamos também de empreendedores, gestores de empresas e do setor público, técnicos e responsáveis políticos que estejam preparados para compreender estas mudanças, integrá-las nas suas profissões e definir uma estratégia coerente. Por outras palavras, é necessário elevar o nível de conhecimentos científicos e técnicos de toda a sociedade.
E, nesta perspetiva, a Europa ainda não atinge o nível necessário.
As comparações internacionais são delicadas, uma vez que as classificações variam de país para país, mas estima-se que 26% dos licenciados universitários na Europa provêm de disciplinas STEM*, contra 34% na Índia — embora a população da Europa seja três vezes menor! Apenas a Alemanha apresenta um desempenho notável, com 36%, quase o dobro de Espanha, com 19%.
É verdade que o Velho Continente conta com uma elite científica de primeiro nível, bem como com uma herança tecnológica e industrial de grande qualidade, mas sofre de falta de escala. Em questões militares, costuma dizer-se que «a massa importa». Pois bem, no domínio tecnológico também. Infelizmente, a Europa está a ficar preocupantemente para trás e nem sempre consegue competir com o magnetismo de atração dos Estados Unidos.
Se a Europa quiser continuar a ter voz nos assuntos mundiais — se quiser evitar um sério risco de declínio geopolítico —, deve agir não só para reforçar as suas capacidades militares e diplomáticas, mas também para aumentar rapidamente tanto o número de cidadãos com conhecimentos científicos e técnicos como a qualidade dessa formação.
Este objetivo conta com um amplo consenso (figura em numerosos programas de partidos políticos em toda a Europa) e sabemos quais são as alavancas necessárias para o alcançar. A questão agora é se estamos dispostos a agir com rapidez e determinação para garantir a nossa participação na construção do futuro do mundo.
*STEM = (Science, Technology, Engineering, and Mathematics) Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.