CIA prepara apoio armado a forças curdas para tentar desencadear revolta no Irão

CNN , Natasha Bertrand, Alayna Treene, Zachary Cohen, Clarissa Ward, Vasco Cotovio
4 mar, 09:37
O presidente Donald Trump chega para uma cerimónia de entrega da Medalha de Honra na Sala Leste da Casa Branca, segunda-feira, 2 de março de 2026, em Washington. (AP Photo/Alex Brandon)

A CIA está a trabalhar num plano para armar forças curdas com o objetivo de desencadear um levantamento contra o regime iraniano, segundo várias fontes. A administração Trump tem discutido apoio militar com líderes curdos no Iraque e grupos da oposição iraniana. Analistas alertam para os riscos de escalada regional, divisões internas entre curdos e para o histórico de tensões na relação entre Washington e os seus aliados curdos

Washington e Erbil, Iraque - A CIA está a trabalhar para armar forças curdas com o objetivo de fomentar um levantamento popular no Irão, revelaram à CNN várias pessoas familiarizadas com o plano.

A administração Trump tem mantido discussões ativas com grupos da oposição iraniana e líderes curdos no Iraque sobre a possibilidade de lhes fornecer apoio militar, segundo as fontes.

Grupos armados curdos iranianos contam com milhares de combatentes a operar ao longo da fronteira entre o Iraque e o Irão, sobretudo na região do Curdistão iraquiano. Vários desses grupos divulgaram declarações públicas desde o início da guerra, sugerindo uma ação iminente e apelando às forças militares iranianas para desertarem. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irão (IRGC) tem atacado grupos curdos e afirmou, na terça-feira, que visou forças curdas com dezenas de drones.

Também na terça-feira, o Presidente Donald Trump falou com o líder do Partido Democrático do Curdistão Iraniano (KDPI), Mustafa Hijri, segundo um alto responsável curdo iraniano. O KDPI foi um dos grupos visados pelo IRGC.

Espera-se que forças curdas da oposição iraniana participem numa operação terrestre no oeste do Irão nos próximos dias, disse o mesmo responsável à CNN.

“Acreditamos que temos agora uma grande oportunidade”, afirmou a fonte, justificando o momento da operação. Acrescentou que as milícias esperam apoio dos EUA e de Israel.

Trump também telefonou, no domingo, a líderes curdos iraquianos para discutir a operação militar norte-americana no Irão e a forma como os EUA e os curdos poderiam cooperar à medida que a missão avança, disseram dois responsáveis norte-americanos e uma terceira fonte com conhecimento das conversas.

Qualquer tentativa de armar grupos curdos iranianos exigiria o apoio dos curdos iraquianos para permitir o trânsito de armas e a utilização do Curdistão iraquiano como base de lançamento.

Uma pessoa familiarizada com as discussões afirmou que a ideia passa por as forças armadas curdas enfrentarem as forças de segurança iranianas e imobilizá-las, facilitando assim que iranianos desarmados nas principais cidades saiam à rua sem serem novamente massacrados, como aconteceu durante os protestos de janeiro.

Outro responsável norte-americano disse que os curdos poderiam ajudar a semear o caos na região e a dispersar os recursos militares do regime iraniano. Outras ideias centram-se na possibilidade de os curdos conquistarem e manterem território no norte do Irão, criando uma zona tampão para Israel.

A CIA recusou comentar esta notícia.

“Claramente a tentar desencadear” um levantamento

Alex Plitsas, analista de segurança nacional da CNN e antigo alto responsável do Pentágono durante a administração de Barack Obama, afirmou que os EUA “estão claramente a tentar desencadear” o processo de derrube do regime iraniano ao armar os curdos, um aliado histórico de Washington na região.

“O povo iraniano está, no geral, desarmado e, a menos que os serviços de segurança colapsem, será difícil assumirem o controlo, a não ser que alguém os arme”, explicou Plitsas à CNN. “Creio que os EUA esperam que isto inspire outros no terreno, no Irão, a fazer o mesmo.”

Jen Gavito, antiga alta responsável do Departamento de Estado para o Médio Oriente durante a administração de Joe Biden, disse estar preocupada com o facto de as implicações de armar os curdos poderem não ter sido plenamente ponderadas.

“Já enfrentamos uma situação de segurança volátil em ambos os lados da fronteira”, afirmou. “Isto tem potencial para minar a soberania iraquiana e, essencialmente, fortalecer milícias armadas sem responsabilização e com pouca compreensão do que poderá desencadear.”

Nos últimos dias, o exército israelita tem atacado posições militares e postos policiais iranianos ao longo da fronteira com o Iraque, em parte para preparar o terreno para um eventual fluxo de forças curdas armadas para o noroeste do Irão, disse uma das fontes. Uma fonte israelita indicou que esses ataques deverão intensificar-se nos próximos dias.

Ainda assim, qualquer apoio dos EUA e de Israel a uma força terrestre curda com a missão de ajudar a desalojar o regime iraniano teria de ser substancial, disseram as fontes. Avaliações dos serviços de informações norte-americanos têm indicado de forma consistente que os curdos iranianos não dispõem, atualmente, da influência ou dos recursos necessários para sustentar um levantamento bem-sucedido contra o governo, afirmou uma das pessoas.

Os grupos da oposição curda também estão divididos, com um histórico de tensões, ideologias divergentes e agendas concorrentes, e alguns funcionários do governo Trump que estiveram envolvidos nas discussões sobre o apoio a esses grupos têm preocupações quanto às suas motivações para ajudar os EUA.

As autoridades questionam se essa dinâmica poderá comprometer a relação de cooperação entre EUA e curdos, dado o nível de confiança exigido.

“Pode não ser tão simples como os americanos convencerem uma força por procuração a combater em seu nome”, disse um responsável da administração Trump. “Estamos a falar de pessoas que pensam nos seus próprios interesses, e a questão é saber se envolverem-se serve esses interesses.”

Uma longa história entre EUA e curdos

O povo curdo é um grupo étnico minoritário sem um Estado oficial. Atualmente, estima-se que existam entre 25 e 30 milhões de curdos, a maioria dos quais vive numa região que se estende por partes da Turquia, Iraque, Irão, Síria e Arménia. A maioria dos curdos é muçulmana sunita, mas a população curda tem tradições culturais, sociais, religiosas e políticas diversificadas, bem como uma variedade de dialetos.

Muitos funcionários da administração Trump alertaram em privado sobre a desilusão que as forças curdas sentiram ao trabalhar com os EUA no passado e as suas frequentes queixas de se sentirem abandonadas pelos americanos.

“Há receio de que, se um levantamento falhar e os EUA se retirarem, isso reforce a narrativa de abandono dos curdos”, disse Plitsas. O antigo secretário da Defesa de Trump, Jim Mattis, demitiu-se em parte devido à decisão de retirar forças norte-americanas da Síria no primeiro mandato, o que considerou um abandono inaceitável dos aliados curdos.

A CIA tem uma longa e complexa história de trabalho com facções curdas iraquianas que remonta a décadas, como parte da guerra dos EUA no Iraque. A agência tem atualmente um posto avançado no Curdistão iraquiano, localizado perto da fronteira com o Irão, de acordo com duas pessoas familiarizadas com o assunto. Os EUA também têm um consulado em Erbil, capital do Curdistão iraquiano, e tropas americanas e da coligação estão baseadas lá como parte da campanha anti-ISIS.

Alguns curdos esperavam que, em troca da cooperação com as forças norte-americanas, a região semiautónoma do Curdistão iraquiano conquistasse a independência, o que não se concretizou.

Os EUA também se apoiaram fortemente nas forças curdas nos últimos anos, como parte da sua campanha para combater as forças do Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Isso incluiu assumir a responsabilidade de guardar milhares de detidos do ISIS em campos de prisioneiros improvisados no norte do país.

Contudo, no início deste ano, o novo governo sírio alinhado com Washington lançou uma ofensiva militar rápida para assumir o controlo do norte do país, incluindo ataques contra o ISIS e a expulsão das Forças Democráticas Sírias curdas. Perante essa ofensiva, as forças curdas evacuaram e deixaram de guardar as prisões do ISIS quando as tropas norte-americanas se retiraram. Em janeiro, o enviado especial dos EUA para a Síria, Tom Barrack, afirmou que o objetivo da aliança dos EUA com as FDS tinha “largamente expirado”.

Nechirvan Mando e Alaa Elassar, da CNN, contribuíram para esta reportagem.

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