Eriksen está de volta ao mais alto nível. Há nove meses, o seu coração parou em campo, mas é para o relvado que continua a bater

20 mar, 10:04

Há menos de um ano, Eriksen esteve cinco minutos sem pulsação. Caiu inanimado ao minuto 43 do primeiro jogo da Dinamarca no Euro 2020. O episódio foi acompanhado em direto por milhões de espetadores. Nove meses depois, e contra todas as previsões, o jogador tem um novo clube, é titular na Premier League e voltou a ser convocado para a seleção.

Era o segundo dia do Euro 2020, que tinha sido adiado um ano por causa da pandemia. Foi o primeiro grande evento desportivo que voltou a permitir a presença dos adeptos nos estádios. Celebrava-se o futebol e também o regresso a alguma normalidade pré-covid. O ambiente era de euforia.

Christian Eriksen tinha 29 anos e lembra-se de todos os 1440 minutos daquele dia 12 de junho, menos de cinco. Vestia a camisola vermelha e branca da seleção da Dinamarca, que se estreava na competição num jogo contra a Finlândia no estádio Parken, em Copenhaga. “[Lembro-me] de tudo, com exceção dos cinco minutos em que não estava lá", contou recentemente numa entrevista à BBC.

Durante esses cinco minutos, 43 minutos desde o início da partida, o seu coração parou. "Lembro-me de tudo, do lançamento, da bola a bater-me no joelho e não sei o que aconteceu depois. Eu acordei com acordei com muitas pessoas à minha volta e a sentir uma pressão no peito. Não estava a perceber o que estava a acontecer”. 

Foi uma paragem cardíaca transmitida em direto na televisão e perante um estádio incrédulo. A equipa médica procedeu a manobras de reanimação no relvado. Assustados, os jogadores formaram um círculo em volta do aparato médico na tentativa de esconder este momento tão delicado. O tempo paralisou, o jogo ficou esquecido. Os adeptos divergiam numa mistura de lágrimas e aplausos de apoio, uma reação quase tão marcante como o momento em que o coração de Eriksen voltou a bater, ainda na relva do estádio Parken.

O jogador abandonou o estádio já consciente. A notícia que todos queriam receber foi dada pela UEFA: o jogador dinamarquês estava acordado. Mais tarde, o empresário de Eriksen completou a atualização do seu estado de saúde: "está a respirar e é capaz de falar".

Três dias depois, surgiu a primeira reação do próprio Eriksen, que ainda estava internado numa unidade hospitalar de Copenhaga. “Olá a todos”, começava o médio dinamarquês. Entre agradecimentos pelas mensagens recebidas de todos os cantos do mundo, ficou também a garantia: “Sinto-me bem”. O jogador afirmou que ia ficar a apoiar os “miúdos da Dinamarca” fora dos relvados e pediu-lhes para jogarem em nome de todo o país.

Eriksen lembra-se de tudo menos daqueles cinco minutos em que esteve deitado no relvado sem pulsação. A mulher, Sabrina Jensen, via o marido a ser reanimado encostada à linha de fora do campo. Ao contrário de Eriksen, terá dificuldade em esquecer aqueles minutos.

“Claro que tem sido duro. Sobretudo, para a minha família e para as pessoas mais próximas de mim, porque têm uma memória que eu não tenho. Ao mesmo tempo, é também estranho, porque não sinto a dor de me ver cair a mim. Essa foi a parte difícil: perceber que a pessoas estavam a passar por muita coisa que eu não passei”, salientou o jogador numa conferência de imprensa o mês passado.

“Duvido que haja indicação para Eriksen retomar a carreira”, era o prognóstico do cardiologista Rui Plácido, em declarações ao maisfutebol, cinco dias depois do coração de Christian Eriksen ter parado. Poucos especialistas acreditariam que iria voltar a jogar. Mas a passada terça-feira foi o fechar de um ciclo, o antigo número 10 voltou a ser convocado para representar a Dinamarca.

A chamada à seleção surgiu depois de Eriksen ter participado em três jogos oficiais ao serviço do Brentford, na Premier League. Um em que entrou como suplente e depois foi chamado, e outros dois em que entrou como titular e só saiu do campo após o apito final. No total, já soma mais de 200 minutos dentro das quatro linhas. No seu jogo de estreia, em que o Brentford perdia por 2-0 frente ao Newcastle, os adeptos de ambas as equipas ovacionaram de pé o regresso do maestro dinamarquês.

“Se houvesse ansiedade, não teria voltado. Se não estivesse totalmente comprometido. Confio nos meus médicos, confio no meu coração, confio no meu ICD [desfibrilador implantável], de outra maneira não teria regressado”, explicou Christian Eriksen na primeira conferência de imprensa como jogador do Brentford, antes do jogo com o Crystal Palace, a 12 de fevereiro.

Christian Eriksen reconhece que poder voltar ao futebol de alta competição "é muito bom". "Dediquei muito tempo de trabalho para poder estar onde estou hoje", confessa, sem esquecer o dia, em que, numa questão de segundos, a magia do Euro deu lugar a uma preocupação imensamente maior do que as quatro linhas onde decorria o primeiro encontro do Grupo B.

Para trás ficam nove longos meses, carregados de dúvidas e incertezas. Christian Erikson queria voltar depois de uma operação para implantar um cardiodesfibrilador, mas foi obrigado a rescindir contrato com o Inter de Milão uma vez que a liga italiana não aceita jogadores com o aparelho de monitorização do ritmo cardíaco.

Mesmo assim, o objetivo era só um: "Jogar o Mundial do Qatar”, disse Eriksen a um canal dinamarquês no início de janeiro. Mas parecia complicado de alcançar apesar das garantias dadas pelo próprio jogador.

“O meu coração não é um obstáculo. Tenho a certeza de que consigo regressar, porque não me sinto diferente fisicamente. Voltei à forma que tinha. Esse tem sido o meu objetivo e ainda está algo longínquo, portanto até lá vou apenas jogar futebol e provar que estou de volta ao mesmo nível”, disse na mesma entrevista à imprensa dinamarquesa.

Algo que se tem vindo a comprovar perante as mais recentes exibições do médio do Brentford. No último jogo, frente ao Burnley, ao minuto 85 fez o passe que resultou no golo de Ivan Toney que desbloqueou o empate a zero. Lance que parece ter sido copiado a papel químico dos tempos em que representava o Tottenham.

Antes do Brentford, a estrela dinamarquesa ainda voltou a treinar no seu clube de infância, o Odense BK. Bastaram-lhe seis meses para voltar a jogar, oito para regressar à alta competição e nove para voltar a ser convocado para a seleção. Um regresso que contraria as primeiras previsões e que o elevam a um estatuto mítico. Os adversários já não esquecem quem é Christian Eriksen.

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