Duas semanas depois de ter sido libertado, Christian Brückner viajou durante horas para confrontar o procurador que declarou ter provas da sua responsabilidade no desaparecimento e homicídio de Madeleine McCann
Duas semanas depois de ter sido libertado de uma pena por violação, Christian Brückner, 49 anos, viajou durante horas para confrontar o procurador Hans Christian Wolters, que o acusou do assassínio de Madeleine McCann no caso do desaparecimento da menina britânica.
“Estou a ser perseguido pelos media e a culpa é dele. Quero que assuma a responsabilidade”, esclarece Brückner, numa entrevista exclusiva à Sky News.
O suspeito afirma ainda que pediu a ajuda do procurador, por meio do seu representante, “para recuperar” a sua vida, mas Wolters “recusou-se a encontrar-se”: “Disseram-me que não havia nada que pudessem fazer para ajudar. Eu tinha sido condenado e libertado, e não era responsabilidade deles”.
Hans Christian Wolters declarou publicamente que tem provas, não reveladas, de que Christian Brückner raptou e matou ‘Maddie’, desaparecida desde umas férias na Praia da Luz, em Portugal, há 18 anos. Brückner, contudo, nega qualquer envolvimento no crime.
"Ministério Público tornou reabilitação impossível"
A 17 de setembro deste ano Christian Brückner deixou a prisão na companhia do advogado, Friedrich Fulscher, e vivia desde então num alojamento das autoridades locais, na cidade de Neumunster, norte de Hamburgo.
Mas os jornalistas rapidamente localizaram e divulgaram a sua nova morada, gerando revolta entre a comunidade, preocupada com as suas condenações por crimes sexuais contra crianças.
Segundo a Sky News, Karin Mundt, vereadora e membro do movimento de extrema-direita Heimat Neumunster, recorreu ao Facebook para apelar aos moradores locais que ficassem vigilantes, não saíssem sozinhos e garantissem a segurança das suas crianças e idosos. Convocou também um protesto público com o slogan “Christian B. fora de Neumunster – medidas mais duras contra abusadores de crianças e violadores para proteger todos os cidadãos!”.
Apesar de as rígidas leis de privacidade na Alemanha proibirem, em regra, a divulgação de imagens sem consentimento, o grupo considerou que o perigo representado por Brückner justificava a exceção. Assim, publicaram fotografias suas, alegando que era de interesse público e que os residentes, sobretudo idosos, precisavam de o reconhecer para se protegerem.
Foram criados dois grupos de mensagens online: um dedicado a mobilizar esforços para forçar a saída do ex-recluso de Neumunster e outro a partilhar supostos avistamentos. Entre os relatos que circularam estava a presença de Brückner perto de escolas, situação que terá levado alguns a chamar a polícia. No entanto, trabalhadores dessas instituições garantiram que as autoridades nunca tinham sido chamadas.
As alegações multiplicaram-se. Uma funcionária de uma cadeia de pizzarias afirmou que ele teria aparecido disfarçado com uma barba falsa, mas dias depois uma colega contradisse a história, dizendo que as imagens vistas não confirmavam que se tratava do suspeito.
Paralelamente, uma fonte próxima da defesa de Brückner garantiu à imprensa que este quase não saía do alojamento, apenas para resolver um problema com o telemóvel e, noutra ocasião, para ir comer um bife.
As tensões aumentaram ao ponto de circular nos mencionados grupos convites para uma reunião noturna junto à Câmara Municipal. Viaturas policiais deslocaram-se ao local para evitar distúrbios, mas o discurso online radicalizou-se, com utilizadores a partilhar moradas onde acreditavam que ele residia. A desconfiança em relação a jornalistas era tão grande que todos os membros com apelidos considerados “ingleses” foram expulsos.
Face à escalada de hostilidade, a polícia decidiu retirar Brückner de Neumunster. De acordo com relatos, citados pela Sky News, terá sido visto posteriormente num hotel noutra cidade, cuja localização não foi revelada.
Em entrevista à revista alemã Stern, o advogado de Brückner acusou o Ministério Público de Braunschweig de fomentar um "pré-julgamento mediático". Segundo o jurista, as autoridades declararam publicamente terem a certeza da culpa do seu cliente sem apresentarem provas sólidas nem facultarem acesso aos processos, o que, no seu entender, "tornou impossível qualquer hipótese de reabilitação".
Hans Christian Wolters, procurador responsável pelo caso Madeleine, confirmou à Sky News que soube da tentativa de contacto de Brückner no seu gabinete em Braunschweig, mas recusou-se a recebê-lo.