Covid, economia, bolha imobiliária… Xi Jinping já tem problemas de sobra e não tolerará provocações em Taiwan

29 jul, 07:34
Discurso de Xi Jinping num ecrã gigante em Pequim

Presidente chinês deixou o aviso a Biden sobre Taiwan: “Quem brinca com o fogo acaba por se queimar”. A eventual viagem de Nancy Pelosi à ilha rebelde surge num momento delicado do ponto de vista internacional, mas também numa fase complicada da política interna chinesa

Os problemas com que Joe Biden se defronta nos Estados Unidos são bem conhecidos: a inflação que disparou, o risco de recessão que ensombra a economia do país e das famílias, a rotura cada vez mais profunda entre os dois grandes partidos americanos, o retrocesso nos direitos cívicos validado por um Supremo Tribunal dominado por ultra-conservadores, o fantasma de Donald Trump que continua a assombrar a política nacional, e umas eleições intercalares no outono que podem retirar ao Partido Democrata a curta vantagem que tem nas duas câmaras do Congresso. 

Tudo isto é bem sabido porque os EUA são uma democracia, onde todos os assuntos são debatidos publicamente, os poderes públicos têm mecanismos transparentes de controlo, os vários ramos do poder são independentes uns dos outros, a comunicação social é livre, e cada um pode assumir opiniões e divergências. É dentro dessa liberdade que a terceira figura da hierarquia dos EUA, Nancy Pelosi, surge às avessas de Joe Biden com planos para uma viagem a Taiwan que a Casa Branca e o Pentágono preferiam que não acontecesse. Biden já assinalou que os militares acham que a deslocação de Pelosi “não é uma boa ideia neste momento”, mas a líder da Câmara dos Representantes mantém a sua margem de manobra - com este gesto, acrescenta dificuldades a Biden, mas evidencia a autonomia dos vários ramos do poder nos EUA, mesmo quando os seus dirigentes são do mesmo partido.

As democracias podem parecer uma cacofonia, sobretudo em comparação com regimes autoritários, onde a divergência é reprimida, a narrativa oficial é normalmente a única que chega aos media e os problemas são abafados. Essa assimetria era bastante evidente antes da cimeira telefónica de ontem entre Joe Biden e Xi Jinping. Conforme o presidente norte-americano pegou no telefone para falar com o seu homólogo chinês, eram bem conhecidas as dificuldades internas com que Biden se confronta com apenas ano e meio de mandato. Já as dificuldades enfrentadas por Xi ao fim de dez anos de poder são bastante menos notórias - com uma comunicação social dominada, e redes sociais sob rigoroso controlo estatal, as dificuldades internas do governo chinês ficam quase esmagadas pela poderosa máquina de censura e propaganda. 

Mas existem, estão lá, e estão a provocar mais pressão sobre Xi Jinping do que alguma vez seria expectável nesta altura do campeonato. A poucos meses de um congresso do Partido Comunista Chinês (PCC) que se anuncia como histórico, no qual Xi será reconduzido para um improvável terceiro mandato de cinco anos como líder supremo (desde o longo reinado de Mao Zedong, a regra não escrita tem sido a limitação a dois mandatos como secretário-geral do partido), o guião ditaria tempos de calmaria: a China estaria recomposta da pandemia de Covid, a relançar a sua economia de forma robusta, e a afirmar-se como inquestionável super-potência regional e global. Nada disso está a acontecer.

Por estes dias, quase tudo o que poderia correr mal a Xi Jinping está a correr mal. E aquilo de que o presidente chinês menos precisa perante um contexto interno complexo e turbulento é de uma provocação norte-americana em relação a Taiwan. A eventual visita de Nancy Pelosi à ilha em agosto seria vista como uma provocação intolerável num contexto de tensão diplomática que se tem vindo a agravar desde a invasão russa da Ucrânia, e de desafios internos que estão a deixar Xi sob pressão, e que o podem levar a responder de forma excessiva.

Eis os principais problemas com que Xi se depara:

  1. O fracasso da política de “covid zero”

Chegados a julho de 2022, as autoridades chinesas mantêm o país sequestrado pelas políticas anti-covid, sem vantagens evidentes. Há poucos dias, observadores internacionais contabilizavam 31 cidades chinesas sob regras de confinamento geral ou parcial, que obrigavam mais de 230 milhões de chineses a ficar em casa. O lockdown draconiano a que as autoridades chinesas sujeitaram Xangai, a maior cidade do país e seu dínamo financeiro e comercial,  durante quase dois meses, foi o exemplo mais dramático do impacto da insistência de Xi Jinping na política de “covid zero”. Uma política que a própria Organização Mundial de Saúde já considerou “insustentável”, mas da qual Xi não está em condições de abdicar, pelo menos até ao congresso do PCC.

Numa primeira fase, enquanto não existiam vacinas contra a covid, a política chinesa de tolerância zero foi apresentada como um sucesso, protegendo de facto as populações, apesar da disrupção imposta à vida social e às atividades económicas. Porém, a partir do momento em que as vacinas provaram a sua eficácia a prevenir mortes e doença grave, e o vírus evoluiu para variantes mais contagiosas mas menos agressivas, a generalidade dos países optou por uma política de reabertura, aprendendo a conviver com a covid-19. Mas não a China.

O sucesso inicial da tolerância zero alimentou a narrativa de que a China seria capaz de proteger a sua população, erradicando o vírus. Hoje é evidente que tal não será possível, com variantes bastante mais contagiosas do que a estirpe original de Wuhan, nem é necessário, pois as vacinas diminuíram muito a mortalidade provocada pela covid, assim como a pressão sobre o sistema de saúde. Porém, para Xi e os dirigentes do PC chinês, renegar a política de covid zero seria o mesmo que admitir que eram dispensáveis os sacrifícios impostos no último ano aos chineses e à economia do país. Prédios continuam a ser isolados quando surge um caso, bairros são isolados perante meia dúzia de positivos, cidades e regiões com milhões de pessoas ficam em lockdown por causa de poucos milhares de casos - com fábricas a fechar, negócios a falir e economias familiares a afundar-se. 

E uma impaciência cada vez maior das populações, como ficou à vista nos protestos noturnos que se viam por Xangai, mas também pelas revoltas populares pontuais que são registadas em subúrbios de Pequim ou regiões mais remotas.

Para além do problema de reconhecer um erro, há outro motivo para Xi se manter fiel ao princípio por si desenhado de “covid zero”: se a China mudasse de política agora poderia enfrentar uma vaga de infeções incontrolável e devastadora. Isto, por três razões: 1) apesar de mais de 80% da população estar completamente vacinada, esse valor é mais baixo entre os mais velhos; 2) a China não tem vacinas de RNA mensageiro, e optou por não as comprar ao Ocidente - e está demonstrado que a eficácia das vacinas chinesas é inferior às principais vacinas dos laboratórios ocidentais; 3) a regra de covid zero tem como consequência que só uma pequena parte da população chinesa esteve até hoje exposta ao vírus, o que significa que também dessa forma não gerou anticorpos, estando mais exposta à doença.

  1. Economia a estagnar

No final de 2021, as autoridades chinesas apontaram para um crescimento económico de 5,5% no ano de 2022. Uma perspetiva modesta pelos padrões chineses das últimas décadas (seria o crescimento mais fraco em 28 anos, tirando o trambolhão imposto pela covid em 2020), mas ainda assim um crescimento considerável pela bitola ocidental. 5,5% seria o espelho de uma economia a recompor-se após as dificuldades da pandemia, e ainda num contexto de relativa incerteza nos dois principais parceiros económicos da China: os EUA e a UE. 

Em março, a China manteve as previsões de 5,5% de crescimento do PIB mesmo depois da invasão russa da Ucrânia - mais uma forma de desvalorizar o impacto dessa agressão, que Pequim nunca condenou. E manteve essa meta mesmo depois de se perceber que a covid iria continuar a perturbar o tecido industrial e económico do país.

Ultrapassado meio ano, é evidente que a China não se aproximará da meta que traçou. O crescimento do segundo trimestre (aquele em que Xangai esteve em lockdown) ficou pelos 0,4% em comparação com o período homólogo, o que na comparação com o primeiro trimestre significa uma contração de -2,6%. E diversos analistas ocidentais colocam sérias dúvidas quanto à validade destes números, havendo sérias suspeitas de que a economia chinesa caiu ainda mais durante esse período.

O crescimento no primeiro semestre ficou nos 2,5%, o que significa que a economia teria de disparar para mais de 7% de crescimento na segunda metade de 2022 para cumprir a meta anual. Não deverá acontecer.

Tirando o excecional ano de 2020 em que o mundo parou por causa da covid, há três décadas que a China não falha ou revê as suas perspetivas de crescimento. Ou cumpre as metas, ou as ultrapassa. E por aqui se percebe a delicadeza política do exercício que Xi Jinping e o seu governo terão de fazer este ano. 

Até agora, nem um responsável chinês admitiu as evidências. Mas começa a haver subtilezas no discurso político. O primeiro-ministro Li Keqiang, que já sinalizou a necessidade de grandes apoios estatais à economia, admitiu que o governo será flexível em relação à meta oficial de crescimento do PIB, optando por dar prioridade à criação de emprego e à estabilidade dos preços.

A verdade é que os factos são cada vez mais notórios e indesmentíveis. O desemprego está nos 5,5% (em linha com os piores anos das últimas décadas), mas o desemprego jovem está em recordes absolutos, quase nos 20%. 

  1. A revolta das hipotecas

Os protestos populares que emergem um pouco por toda a China e que são visíveis nas redes sociais apesar do fortíssimo controlo da censura, não têm acontecido apenas por causa dos confinamentos impostos pelo “covid zero”. Têm sido cada vez mais visíveis as manifestações de chineses endividados revoltados com o afundamento do mercado imobiliário do país. Chamam-lhe “a revolta das hipotecas”, e as autoridades de Pequim têm respondido com pau e com cenoura: prometendo acudir ao problema real de milhões de famílias endividadas por causa de casas que não têm ou cujo valor caiu de forma dramática, mas também reprimindo de forma violenta essas manifestações.

A bolha imobiliária da China há muito que se constitui como o calcanhar de Aquiles do gigante asiático. O primeiro grande sinal de alarme foi dado em 2021, com os problemas da Evergrande, o gigante chinês do imobiliário que entrou em incumprimento. Desde então, diversos promotores imobiliários revelaram-se gigantes com pés de barro e cada vez mais projetos de construção são suspensos ou sofrem atrasos. Resultado: milhões de proprietários que compraram as casas antes de serem construídas continuam à espera das suas casas, apesar de estarem a pagar as hipotecas. Agora, são cada vez mais os que declararam aos bancos e reguladores que não podem continuar a pagar as suas hipotecas. Por outro lado, a forte queda nos preços das casas provocou uma enorme destruição de valor, mais uma vez deixando os proprietários a braços com compromissos financeiros capazes de afundar as suas finanças.

A bomba relógio é evidente, com riscos tanto do lado do impacto na economia, como do lado da revolta social.

  1. A tentação de Taiwan 

É neste contexto que Xi é confrontado com a possível “provocação” de Pelosi em relação a Taiwan. Se há assunto em relação ao qual há poucas dúvidas nas cúpulas chinesas é sobre a questão de Taiwan: a ilha é considerada território chinês, apesar de ter o seu próprio governo desde 1949 - ou seja, vive de forma totalmente independente da China desde que existe a República Popular da China. Nada que mude a perceção de Pequim, que considera a Taiwan uma província rebelde, que mais tarde ou mais cedo voltará a estar sob a autoridade central.

Depois de ter acabado de facto com o que restava de autonomia efetiva nas regiões administrativas especiais de Hong Kong e Macau, onde a vivência democrática foi esmagada nos últimos anos, Xi Jinping aspira a completar a missão de reunificação total da China, juntando-lhe Taiwan. De preferência a bem, mas se necessário pela força, como Xi já admitiu.

Os maiores obstáculos a essa ambição são o forte sentimento nacional da maioria dos 23 milhões de habitantes de Taiwan, e o empenhamento político e militar de alguns aliados, com destaque para os EUA. Os Estados Unidos não reconhecem nem reivindicam a independência de Taiwan - Washington aceita o princípio da uma única China, que em teoria integra a ilha -, mas a lei norte-americana obriga as administrações a darem todo o apoio necessário à preservação do status quo: ou seja, para que se mantenha a atual situação de efetiva autonomia de Taiwan em relação à China continental.

Esta política chamada de “ambiguidade estratégica” dura há décadas, e foi esta noite reafirmada por Joe Biden no telefonema com Xi Jinping.

É neste contexto que a eventual visita de Pelosi se tornou uma pedra no sapato de Biden. Mas também coloca problemas adicionais a Xi Jinping, seja obrigando-o a traçar linhas vermelhas, na tentativa de obrigar a líder do Congresso a recuar e travar a viagem, seja, em segunda linha, obrigando-o a reagir de forma afirmativa caso Pelosi decida mesmo voar mesmo para a ilha.

No limite, Xi pode acabar por beneficiar deste problema provocado pela líder da Câmara dos Representantes, aproveitando este conflito para fazer voz grossa no palco mundial, e desviar as atenções dos chineses em relação às dificuldades que sentem no seu dia-a-dia. 

Segundo um artigo recente, é disso que suspeitam alguns altos responsáveis americanos: que o que está realmente a levar Xi a reagir de forma tão firme perante a eventual deslocação de Nancy Pelosi é o “desejo de desviar a atenção dos seus próprios problemas económicos e pandémicos em casa ou, pelo menos, uma necessidade de demonstrar força a nível internacional”.

Ásia

Mais Ásia

Patrocinados