Após dois meses em 'prisão domiciliária', Xangai reabriu. Aliviada, mas zangada, censurada e mais pobre

2 jun, 03:24
Habitantes de Xangai registam o regresso às ruas após dois meses de lockdown

À meia-noite houve protestos, champanhe e barbeiros a instalar-se debaixo de postes de eletricidade para cortar cabelos que não viam tesoura há dois meses. Política de covid zero mantém-se, com obrigação de testes permanentes, que deverá estender-se a toda a China. Mas os protestos em Pequim já permitiram aligeirar algumas regras

Ao fim de dois meses de rigoroso lockdown, a maioria dos mais de 25 milhões de habitantes de Xangai puderam voltar a sair das casas onde viveram confinados desde o início de abril. Terminou às zero horas de quarta-feira o confinamento que obrigou pais a ficarem separados de filhos; donos a verem os seus animais de estimação serem levados e abatidos; os habitantes de prédios inteiros a ser isolados em centros de acolhimento por causa de uma ou duas infeções nos seus edifícios.

Após a meia-noite, começaram a surgir vídeos de pessoas abrindo champanhe em locais públicos da cidade, em “celebrações moderadas”, como as descreveu um jornal, referindo o “medo de que um surto pudesse regressar”. Também houve quem filmasse palavras de ordem contra a política de "Covid zero", que impôs grandes sacrifícios e deixou cicatrizes na maior e mais dinâmica cidade da China.

Ainda durante a noite, barbeiros instalaram-se sob postes de iluminação pública para cortar o cabelo a quem o viu crescer ao longo de dois meses. Donos de animais de estimação partilharam imagens do primeiro passeio na rua ao fim de 60 dias de encerramento domiciliário.

Esta manhã, conforme os transportes públicos voltaram a circular e os cidadãos com automóveis privados tiveram autorização para os voltarem a conduzir, Xangai dava sinais de regresso a alguma normalidade. Segundo as reportagens de media chineses e internacionais, havia filas à porta de algumas lojas, e nos parques públicos viam-se outra vez cidadãos a passear, a fazer piqueniques e a praticar desporto.

Mantém-se a obrigação de usar máscara e evitar reuniões. Muitos restaurantes permanecem fechados e as lojas podem funcionar a 75% da sua capacidade. Os ginásios só reabrirão mais tarde.

 

Revolta nas redes abafada pela censura

 

O impacto económico dos dois meses de confinamento geral da maior metrópole da China ainda está por apurar na sua totalidade, mas a paragem de fábricas, centros financeiros, redes de transporte e do maior porto comercial do mundo é uma das razões porque a economia chinesa registou já uma contração nos meses de março, abril e maio. A produção industrial chinesa está em terreno negativo desde março, apesar de ter contraído um pouco menos em maio, à medida que algumas fábricas consideradas prioritárias tiveram autorização para voltar a laborar - mas houve casos em que a reabertura foi de pouca dura, por falta de peças, componentes e matérias-primas, como sucedeu com a maior fábrica da Tesla, que fica em Xangai. 

Houve milhões de pessoas privadas de trabalho e de vencimento, fábricas e empresas com a atividade total ou parcialmente suspensa, e inéditos protestos noturnos de milhares de pessoas que se manifestaram nas varandas e janelas por não poderem trabalhar, fazer compras ou ter acesso a medicamentos e cuidados médicos. Imagens de desespero tornaram-se virais nas redes sociais, e acabaram apagadas pelos censores de Pequim, bem como vídeos dramáticos de cidadãos a resistir às autoridades. 

Algumas fábricas e escritórios permaneceram abertos, a meio gás - incluindo os dos funcionários do governo de Xangai, a bolsa de valores e algumas instituições financeiras -, com os trabalhadores a viver em "circuitos fechados" no local de trabalho, dormindo, comendo e trabalhando no mesmo lugar. Muitos deles só agora puderam regressar a casa.

 

“Covid zero” é para seguir… com testes permanentes

 

O descontentamento social e político foi bem visível em Xangai, contra a persistência de Xi Jinping na política de “Covid zero”, que a própria Organização Mundial de Saúde considera ser “insustentável” face a uma variante como a Ómicron, que é mais contagiosa, mas cujos efeitos são menos graves. Enquanto o resto do mundo foi-se adaptando para aprender a “conviver com o vírus”, missão facilitada pela vacinação massiva das populações, a China manteve-se irredutível na política de tolerância zero com a covid, apostada numa missão impossível: impedir a transmissão comunitária e erradicar o novo coronavírus.

Para além do descontentamento social, Xangai pôs à prova a paciência dos investidores estrangeiros, com muitas fábricas, bancos e outras empresas internacionais a retirar-se da China, por considerarem inviável a sua operação num país que, perante pequenos surtos, confina cidades e regiões inteiras.

Para além do impacto no crescimento económico chinês - que dificilmente atingirá o objetivo de crescer 5,5% do PIB este ano -, o lockdown de Xangai e outros centros económicos e industriais (como Pequim) estão a afetar as cadeias de abastecimento globais, e a arrastar a recuperação económica de vários países - um efeito notório nos dados da atividade industrial do Japão, Coreia do Sul, Taiwan ou Filipinas, conhecidos nos últimos dias.

Internamente, a incerteza e o descontentamento causados pela gestão da covid-19 na China estão a ensombrar o momento político mais ambicionado por Xi Jinping: a sua entronização para um inesperado terceiro mandato como líder do Partido Comunista Chinês e presidente do país, no próximo outono.

As autoridades garantem que a política de “Covid zero” é para manter, e argumentam que é a forma de salvar vidas e proteger a população das consequências da chamada “covid longa”. A estratégia dos decisores políticos para manter a pandemia controlada passa por centros de testagem a cada esquina, e testes regulares a toda a população. Os residentes de Xangai terão de fazer testes a cada 72 horas para apanhar transportes públicos e entrar em locais públicos. As regras agora impostas em Xangai deverão tornar-se o "novo normal" em muitas cidades chinesas. Quem teste positivo, e os seus contactos próximos, fica obrigado a quarentena.

 

Dormitório de Pequim revolta-se

 

Apesar da insistência no chavão do “Covid zero” - uma política desenhada pelo próprio Xi Jinping -, mesmo essas regras vão sendo aos poucos aliviadas. As autoridades de Xangai, por exemplo, riscaram algumas normas que consideraram desadequadas à nova realidade. E em Pequim, também estão a ser aliviadas algumas regras, após o protesto dos habitantes numa das cidades-satélite da capital. 

Segundo o jornal South China Morning Post, milhares de residentes da cidade dormitório de Yanjiao reuniram-se na quarta-feira para protestar contra as medidas que dificultam a sua entrada em Pequim. A cidade, na província de Hebei, está localizada na periferia oriental de Pequim, a cerca de 35 km do centro da cidade. Segundo o SCMP, cerca de cem mil residentes de Yanjiao precisam de fazer o trajeto diário para a capital, e há dois anos que vivem sob fortes restrições de movimentos.

Só este ano, apesar de ter havido poucos casos em Yanjiao, os residentes na cidade já estiveram impedidos durante meses de entrar em Pequim. O último encerramento de Yanjiao foi imposto em finais de Abril, quando surgiu um novo surto num distrito vizinho.

Milhares de residentes concentraram-se ontem num dos pontos de controlo, protestando contra as restrições excessivas. Huang Xuejun, vice-presidente da autarquia e chefe da polícia local, disse aos manifestantes que as restrições serão atenuadas e que os habitantes de Yanjiao poderão ir para Pequim desde que cumpram os requisitos de controlo da pandemia da cidade.

Ou seja, acabam os impedimentos sobre toda a população e as situações passam a ser avaliadas caso a caso. E quem vá a Pequim pode depois regressar a Yanjiao desde que tenha um teste com resultado negativo feito nas últimas 48 horas. "Ninguém ficará em quarentena depois de regressar", prometeu Huang, o que representa uma alteração substancial à política de isolar comunidades inteiras.

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