Estes mercenários americanos são venerados na China

CNN , Brad Lendon
20 set 2025, 22:00
Estes mercenários americanos são venerados na China. Os seus familiares estão entre os poucos convidados norte-americanos para o desfile militar da Segunda Guerra Mundial de Xi
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Considere esta oferta de emprego: um contrato de um ano para viver e trabalhar na China, a voar, reparar e fabricar aviões. O salário chega aos 14 311 euros por mês, com 30 dias de férias por ano. A habitação está incluída e recebe ainda um suplemento de 599 euros mensais para alimentação. E há mais: um bónus de 9 405 euros por cada avião japonês destruído – sem limite.

Esse foi o acordo – em valores ajustados à inflação de 2025 – que algumas centenas de americanos aceitaram em 1941 para se tornarem heróis e, alguns diriam mesmo, salvadores da China.

Esses pilotos, mecânicos e pessoal de apoio americanos tornaram-se membros do American Volunteer Group (AVG), mais tarde conhecido como os Tigres Voadores.

Os aviões de guerra do grupo exibiam no nariz a boca aberta e cheia de dentes de um tubarão, um símbolo temível ainda hoje utilizado em algumas aeronaves militares dos EUA.

A ferocidade simbólica era sustentada pelos pilotos do AVG em combate. Aos Tigres Voadores é creditada a destruição de até 497 aviões japoneses, tendo perdido apenas 73.

Hoje, apesar das tensões entre os EUA e a China, esses mercenários americanos continuam a ser venerados na China.

“A China recorda sempre a contribuição e o sacrifício feitos pelos Estados Unidos e pelo povo americano durante a Segunda Guerra Mundial”, lê-se numa entrada na página memorial dos Tigres Voadores do People’s Daily Online, jornal estatal chinês.

O laço é tal que a filha e a neta do fundador dos Tigres Voadores estão entre os poucos americanos convidados para o desfile militar no início do mês, em Pequim, comemorativo do fim da Segunda Guerra Mundial.

A formação dos Tigres Voadores

No final da década de 1930, a China tinha sido invadida pelos exércitos do Japão Imperial e lutava para resistir a um inimigo mais bem equipado e unificado. O Japão dominava praticamente os céus, podendo bombardear cidades chinesas à vontade.

O líder Chiang Kai-shek, que tinha conseguido unir vagamente os senhores da guerra chineses sob um governo central, contratou mais tarde o americano Claire Chennault, capitão reformado do Exército dos EUA, para formar uma força aérea.

Um soldado chinês guarda uma fila de caças americanos P-40 dos Tigres Voadores num aeródromo algures na China. Arquivos Nacionais dos EUA

Segundo o site oficial dos Tigres Voadores, Chennault passou primeiro alguns anos a montar uma rede de alerta contra ataques aéreos e a construir bases em toda a China. Em 1940, foi enviado para os Estados Unidos – ainda neutros – para recrutar pilotos e aviões que pudessem defender a China contra o Japão.

Com bons contactos na administração do presidente Franklin Roosevelt e um orçamento que podia pagar aos americanos até três vezes mais do que receberiam nas forças armadas, Chennault conseguiu os pilotos de que precisava.

Um acordo garantiu que 100 caças Curtiss P-40B, construídos para o Reino Unido, fossem enviados em vez disso para a China.

Nas suas memórias, Chennault escreveu que os P-40 que recebeu não tinham uma mira moderna.

Os seus pilotos estavam “a apontar as armas através de uma mira artesanal, rudimentar, em anel e haste, em vez das miras ópticas mais precisas usadas pelo Corpo Aéreo e pela Royal Air Force”, escreveu.

O que os P-40 não tinham em capacidade, Chennault compensava em tácticas: os pilotos do AVG atacavam em mergulho a partir de uma posição elevada e disparavam as suas metralhadoras pesadas sobre os aviões japoneses, estruturalmente mais fracos mas mais manobráveis.

Num duelo aéreo renhido e em baixa altitude, o P-40 perderia.

 

Um grupo improvisado de pilotos

Os pilotos recrutados por Chennault estavam longe de ser a elite.

Noventa e nove pilotos, juntamente com pessoal de apoio, fizeram a viagem para a China no outono de 1941, segundo a história oficial do Departamento de Defesa dos EUA.

Alguns tinham acabado de sair da escola de aviação, outros pilotavam hidroaviões pesados ou eram pilotos de transporte de grandes bombardeiros. Inscreveram-se na aventura do Extremo Oriente para ganhar muito dinheiro ou simplesmente por aborrecimento.

Talvez o mais conhecido dos Tigres Voadores, o fuzileiro naval Greg Boyington – em torno de quem se baseou a série televisiva dos anos 1970 “Black Sheep Squadron” – juntou-se pelo dinheiro.

“Tendo passado por um divórcio doloroso e sendo responsável por uma ex-mulher e vários filhos pequenos, tinha arruinado o seu crédito e acumulado dívidas substanciais, e o Corpo de Fuzileiros Navais ordenara-lhe que apresentasse mensalmente ao comandante um relatório de como utilizava o salário para saldar essas dívidas”, segundo a história oficial do Departamento de Defesa.

Veteranos da Segunda Guerra Mundial dos EUA, incluindo antigos Tigres Voadores, posam para fotografias com uma faixa enquanto uma multidão os aclama no Aeroporto Chongqing Jiangbei, a 18 de agosto de 2005. China Photos/Getty Images

Chennault teve de ensinar o seu grupo heterogéneo a ser pilotos de caça – e a lutar em equipa – essencialmente a partir do zero.

O treino foi rigoroso e mortal. Três pilotos morreram logo em acidentes iniciais.

Num dia de treino, que ficou conhecido como “Dia do Circo”, oito P-40 ficaram danificados: alguns pilotos aterram com demasiada força e membros da equipa de terra manobraram os aviões demasiado depressa, causando colisões.

Chennault mostrou-se desapontado com a primeira missão de combate do grupo, contra bombardeiros japoneses que atacavam a base do AVG em Kunming, na China, a 20 de dezembro de 1941. Achou que os pilotos perderam a disciplina.

“Arriscaram disparos quase impossíveis e mais tarde concordaram que só a sorte os impediu de colidirem entre si ou de se abaterem uns aos outros”, diz a história do Departamento de Defesa.

Ainda assim, abateram três bombardeiros japoneses, perdendo apenas um caça que ficou sem combustível e aterrou de emergência.

Estabelecer uma lenda

Os pilotos rapidamente ultrapassaram a sua curva de aprendizagem íngreme.

Poucos dias após Kunming, foram destacados para Rangum, a capital da Birmânia colonial britânica e um porto vital para a linha de abastecimento que levava material de guerra aliado às tropas chinesas que enfrentavam o exército japonês.

Os bombardeiros japoneses atacaram a cidade em vagas sucessivas durante 11 dias, nas férias de Natal e Ano Novo. Os Tigres Voadores abriram brechas nas formações japonesas e cimentaram a sua fama.

“O AVG tinha abatido oficialmente 75 aviões inimigos, com um número indeterminado de vitórias prováveis”, afirma o site oficial do grupo. “As perdas do AVG foram dois pilotos e seis aviões.”

Os Tigres Voadores passaram um total de 10 semanas em Rangum, nunca dispondo de mais de 25 P-40.

Aviões do American Volunteer Group em voo apertado durante a Segunda Guerra Mundial. Three Lions/Hulton Archive/Getty Images

“Esta pequena força enfrentou um total de cerca de mil aviões japoneses no sul da Birmânia e na Tailândia. Em 31 confrontos, destruíram 217 aviões inimigos e provavelmente mais 43. As nossas perdas em combate foram quatro pilotos mortos no ar, um morto em voo rasante e um feito prisioneiro. Dezasseis P-40 foram destruídos”, escreveu Chennault nas suas memórias.

Apesar das façanhas dos Tigres Voadores no ar, as forças terrestres aliadas na Birmânia não conseguiram conter os japoneses. Rangum caiu em março e o AVG retirou para o interior da Birmânia.

Mas tinham ganho tempo vital para o esforço de guerra aliado, prendendo aviões japoneses que poderiam ter sido usados na Índia ou noutras frentes na China e no Pacífico.

Reclamar a fama

Embora as notícias não circulassem rapidamente em 1941-42, os Estados Unidos – ainda a recuperar do devastador ataque japonês a Pearl Harbor, a 7 de dezembro de 1941 – ansiavam por heróis. Os Tigres Voadores encaixavam na perfeição.

A Republic Pictures escolheu John Wayne para o papel principal do filme “Flying Tigers” em 1942. Os cartazes mostravam um P-40 com boca de tubarão em mergulho de ataque.

Entretanto, os patrocinadores do AVG em Washington pediram à Walt Disney para criar um logótipo.

Os artistas da Disney conceberam “um Tigre-de-Bengala alado a saltar através de um estilizado símbolo ‘V de Vitória’”, refere a história oficial norte-americana.

Um P-40 Warhawk da era da Segunda Guerra Mundial, pintado com as cores do American Volunteer Group, em exposição em Oshkosh, Wisconsin, em 2007. Jonathan Daniel/Getty Images/File)

O logótipo não incluía a icónica boca de tubarão que figurava nos aviões dos Tigres Voadores.

Chennault escreveu que a boca de tubarão não teve origem no seu grupo, mas foi copiada dos P-40 britânicos no Norte de África, que, por sua vez, podem tê-la copiado da Luftwaffe alemã.

“Como o termo Flying Tigers derivou dos P-40 com nariz de tubarão, nunca saberei”, escreveu.

Por que país lutar

Quando os EUA entraram na guerra, os líderes militares norte-americanos quiseram integrar os Tigres Voadores no Exército do Ar dos EUA.

Mas os próprios pilotos preferiam ou regressar às suas forças de origem – muitos vinham da Marinha ou do Corpo de Fuzileiros – ou permanecer como contratados civis do governo chinês, onde o pagamento era muito superior.

A maioria disse a Chennault que se demitiria antes de aceitar o que Washington exigia. Quando o Exército ameaçou recrutá-los como simples soldados rasos se não se voluntariassem, aqueles que tinham pensado assinar desistiram.

Chennault foi promovido a general de brigada no Exército dos EUA e concordou que os Tigres Voadores se tornariam uma unidade militar norte-americana a 4 de julho de 1942.

Embora os Tigres Voadores continuassem a causar estragos nos japoneses na primavera de 1942 – atacando alvos terrestres e aviões desde a China até à Birmânia e ao Vietname – era claro que a força se aproximava do fim, segundo a história militar norte-americana.

O AVG realizou a sua última missão no mesmo dia em que deixou de existir: 4 de julho.

Quatro P-40 dos Tigres Voadores enfrentaram uma dúzia de caças japoneses sobre Hengyang, na China. Os americanos abateram seis dos japoneses sem sofrer baixas, de acordo com a história norte-americana.

Um caça A-10 da Força Aérea dos EUA no Iraque em 2004. A icónica arte de nariz dos Tigres Voadores vive na frota de A-10. Master Sgt. Cecilio Ricardo/Digital/US Air Force

Uma contribuição nunca esquecida

Apesar das relações tensas com Washington nos últimos anos, o laço que os mercenários americanos criaram com a China há 80 anos permanece intacto.

Existem pelo menos meia dúzia de museus dedicados aos Tigres Voadores ou com exposições sobre eles na China, e já foram tema de filmes e desenhos animados contemporâneos.

Um visitante passa por imagens e velhas fardas dos Tigres Voadores no Museu da Guerra de Resistência contra o Japão, no condado de Dayi, província de Sichuan, em 2005. Liu Jin/AFP/Getty Images

O Parque Patrimonial dos Tigres Voadores encontra-se no local de um antigo aeródromo em Guilin, onde Chennault chegou a ter o seu posto de comando numa gruta.

Nos EUA, o site do museu da Louisiana que tem o nome de Chennault resume o que ele esperava que fosse o seu legado logo no topo da página principal, citando as últimas linhas das suas memórias:

“É a minha mais profunda esperança que o símbolo do Tigre Voador permaneça no ar enquanto for necessário e que seja sempre recordado em ambas as margens do Pacífico como o símbolo de dois grandes povos a trabalhar para um objetivo comum, em guerra e em paz.”

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