Considere esta oferta de emprego: um contrato de um ano para viver e trabalhar na China, a voar, reparar e fabricar aviões. O salário chega aos 14 311 euros por mês, com 30 dias de férias por ano. A habitação está incluída e recebe ainda um suplemento de 599 euros mensais para alimentação. E há mais: um bónus de 9 405 euros por cada avião japonês destruído – sem limite.
Esse foi o acordo – em valores ajustados à inflação de 2025 – que algumas centenas de americanos aceitaram em 1941 para se tornarem heróis e, alguns diriam mesmo, salvadores da China.
Esses pilotos, mecânicos e pessoal de apoio americanos tornaram-se membros do American Volunteer Group (AVG), mais tarde conhecido como os Tigres Voadores.
Os aviões de guerra do grupo exibiam no nariz a boca aberta e cheia de dentes de um tubarão, um símbolo temível ainda hoje utilizado em algumas aeronaves militares dos EUA.
A ferocidade simbólica era sustentada pelos pilotos do AVG em combate. Aos Tigres Voadores é creditada a destruição de até 497 aviões japoneses, tendo perdido apenas 73.
Hoje, apesar das tensões entre os EUA e a China, esses mercenários americanos continuam a ser venerados na China.
“A China recorda sempre a contribuição e o sacrifício feitos pelos Estados Unidos e pelo povo americano durante a Segunda Guerra Mundial”, lê-se numa entrada na página memorial dos Tigres Voadores do People’s Daily Online, jornal estatal chinês.
O laço é tal que a filha e a neta do fundador dos Tigres Voadores estão entre os poucos americanos convidados para o desfile militar no início do mês, em Pequim, comemorativo do fim da Segunda Guerra Mundial.
A formação dos Tigres Voadores
No final da década de 1930, a China tinha sido invadida pelos exércitos do Japão Imperial e lutava para resistir a um inimigo mais bem equipado e unificado. O Japão dominava praticamente os céus, podendo bombardear cidades chinesas à vontade.
O líder Chiang Kai-shek, que tinha conseguido unir vagamente os senhores da guerra chineses sob um governo central, contratou mais tarde o americano Claire Chennault, capitão reformado do Exército dos EUA, para formar uma força aérea.
Segundo o site oficial dos Tigres Voadores, Chennault passou primeiro alguns anos a montar uma rede de alerta contra ataques aéreos e a construir bases em toda a China. Em 1940, foi enviado para os Estados Unidos – ainda neutros – para recrutar pilotos e aviões que pudessem defender a China contra o Japão.
Com bons contactos na administração do presidente Franklin Roosevelt e um orçamento que podia pagar aos americanos até três vezes mais do que receberiam nas forças armadas, Chennault conseguiu os pilotos de que precisava.
Um acordo garantiu que 100 caças Curtiss P-40B, construídos para o Reino Unido, fossem enviados em vez disso para a China.
Nas suas memórias, Chennault escreveu que os P-40 que recebeu não tinham uma mira moderna.
Os seus pilotos estavam “a apontar as armas através de uma mira artesanal, rudimentar, em anel e haste, em vez das miras ópticas mais precisas usadas pelo Corpo Aéreo e pela Royal Air Force”, escreveu.
O que os P-40 não tinham em capacidade, Chennault compensava em tácticas: os pilotos do AVG atacavam em mergulho a partir de uma posição elevada e disparavam as suas metralhadoras pesadas sobre os aviões japoneses, estruturalmente mais fracos mas mais manobráveis.
Num duelo aéreo renhido e em baixa altitude, o P-40 perderia.
Um grupo improvisado de pilotos
Os pilotos recrutados por Chennault estavam longe de ser a elite.
Noventa e nove pilotos, juntamente com pessoal de apoio, fizeram a viagem para a China no outono de 1941, segundo a história oficial do Departamento de Defesa dos EUA.
Alguns tinham acabado de sair da escola de aviação, outros pilotavam hidroaviões pesados ou eram pilotos de transporte de grandes bombardeiros. Inscreveram-se na aventura do Extremo Oriente para ganhar muito dinheiro ou simplesmente por aborrecimento.
Talvez o mais conhecido dos Tigres Voadores, o fuzileiro naval Greg Boyington – em torno de quem se baseou a série televisiva dos anos 1970 “Black Sheep Squadron” – juntou-se pelo dinheiro.
“Tendo passado por um divórcio doloroso e sendo responsável por uma ex-mulher e vários filhos pequenos, tinha arruinado o seu crédito e acumulado dívidas substanciais, e o Corpo de Fuzileiros Navais ordenara-lhe que apresentasse mensalmente ao comandante um relatório de como utilizava o salário para saldar essas dívidas”, segundo a história oficial do Departamento de Defesa.
Chennault teve de ensinar o seu grupo heterogéneo a ser pilotos de caça – e a lutar em equipa – essencialmente a partir do zero.
O treino foi rigoroso e mortal. Três pilotos morreram logo em acidentes iniciais.
Num dia de treino, que ficou conhecido como “Dia do Circo”, oito P-40 ficaram danificados: alguns pilotos aterram com demasiada força e membros da equipa de terra manobraram os aviões demasiado depressa, causando colisões.
Chennault mostrou-se desapontado com a primeira missão de combate do grupo, contra bombardeiros japoneses que atacavam a base do AVG em Kunming, na China, a 20 de dezembro de 1941. Achou que os pilotos perderam a disciplina.
“Arriscaram disparos quase impossíveis e mais tarde concordaram que só a sorte os impediu de colidirem entre si ou de se abaterem uns aos outros”, diz a história do Departamento de Defesa.
Ainda assim, abateram três bombardeiros japoneses, perdendo apenas um caça que ficou sem combustível e aterrou de emergência.
Estabelecer uma lenda
Os pilotos rapidamente ultrapassaram a sua curva de aprendizagem íngreme.
Poucos dias após Kunming, foram destacados para Rangum, a capital da Birmânia colonial britânica e um porto vital para a linha de abastecimento que levava material de guerra aliado às tropas chinesas que enfrentavam o exército japonês.
Os bombardeiros japoneses atacaram a cidade em vagas sucessivas durante 11 dias, nas férias de Natal e Ano Novo. Os Tigres Voadores abriram brechas nas formações japonesas e cimentaram a sua fama.
“O AVG tinha abatido oficialmente 75 aviões inimigos, com um número indeterminado de vitórias prováveis”, afirma o site oficial do grupo. “As perdas do AVG foram dois pilotos e seis aviões.”
Os Tigres Voadores passaram um total de 10 semanas em Rangum, nunca dispondo de mais de 25 P-40.
“Esta pequena força enfrentou um total de cerca de mil aviões japoneses no sul da Birmânia e na Tailândia. Em 31 confrontos, destruíram 217 aviões inimigos e provavelmente mais 43. As nossas perdas em combate foram quatro pilotos mortos no ar, um morto em voo rasante e um feito prisioneiro. Dezasseis P-40 foram destruídos”, escreveu Chennault nas suas memórias.
Apesar das façanhas dos Tigres Voadores no ar, as forças terrestres aliadas na Birmânia não conseguiram conter os japoneses. Rangum caiu em março e o AVG retirou para o interior da Birmânia.
Mas tinham ganho tempo vital para o esforço de guerra aliado, prendendo aviões japoneses que poderiam ter sido usados na Índia ou noutras frentes na China e no Pacífico.
Reclamar a fama
Embora as notícias não circulassem rapidamente em 1941-42, os Estados Unidos – ainda a recuperar do devastador ataque japonês a Pearl Harbor, a 7 de dezembro de 1941 – ansiavam por heróis. Os Tigres Voadores encaixavam na perfeição.
A Republic Pictures escolheu John Wayne para o papel principal do filme “Flying Tigers” em 1942. Os cartazes mostravam um P-40 com boca de tubarão em mergulho de ataque.
Entretanto, os patrocinadores do AVG em Washington pediram à Walt Disney para criar um logótipo.
Os artistas da Disney conceberam “um Tigre-de-Bengala alado a saltar através de um estilizado símbolo ‘V de Vitória’”, refere a história oficial norte-americana.
O logótipo não incluía a icónica boca de tubarão que figurava nos aviões dos Tigres Voadores.
Chennault escreveu que a boca de tubarão não teve origem no seu grupo, mas foi copiada dos P-40 britânicos no Norte de África, que, por sua vez, podem tê-la copiado da Luftwaffe alemã.
“Como o termo Flying Tigers derivou dos P-40 com nariz de tubarão, nunca saberei”, escreveu.
Por que país lutar
Quando os EUA entraram na guerra, os líderes militares norte-americanos quiseram integrar os Tigres Voadores no Exército do Ar dos EUA.
Mas os próprios pilotos preferiam ou regressar às suas forças de origem – muitos vinham da Marinha ou do Corpo de Fuzileiros – ou permanecer como contratados civis do governo chinês, onde o pagamento era muito superior.
A maioria disse a Chennault que se demitiria antes de aceitar o que Washington exigia. Quando o Exército ameaçou recrutá-los como simples soldados rasos se não se voluntariassem, aqueles que tinham pensado assinar desistiram.
Chennault foi promovido a general de brigada no Exército dos EUA e concordou que os Tigres Voadores se tornariam uma unidade militar norte-americana a 4 de julho de 1942.
Embora os Tigres Voadores continuassem a causar estragos nos japoneses na primavera de 1942 – atacando alvos terrestres e aviões desde a China até à Birmânia e ao Vietname – era claro que a força se aproximava do fim, segundo a história militar norte-americana.
O AVG realizou a sua última missão no mesmo dia em que deixou de existir: 4 de julho.
Quatro P-40 dos Tigres Voadores enfrentaram uma dúzia de caças japoneses sobre Hengyang, na China. Os americanos abateram seis dos japoneses sem sofrer baixas, de acordo com a história norte-americana.
Uma contribuição nunca esquecida
Apesar das relações tensas com Washington nos últimos anos, o laço que os mercenários americanos criaram com a China há 80 anos permanece intacto.
Existem pelo menos meia dúzia de museus dedicados aos Tigres Voadores ou com exposições sobre eles na China, e já foram tema de filmes e desenhos animados contemporâneos.
O Parque Patrimonial dos Tigres Voadores encontra-se no local de um antigo aeródromo em Guilin, onde Chennault chegou a ter o seu posto de comando numa gruta.
Nos EUA, o site do museu da Louisiana que tem o nome de Chennault resume o que ele esperava que fosse o seu legado logo no topo da página principal, citando as últimas linhas das suas memórias:
“É a minha mais profunda esperança que o símbolo do Tigre Voador permaneça no ar enquanto for necessário e que seja sempre recordado em ambas as margens do Pacífico como o símbolo de dois grandes povos a trabalhar para um objetivo comum, em guerra e em paz.”
