A cidade mais azarada do mundo: Chengdu está em lockdown e sofreu um terramoto de 6.8 (e enfrentou uma vaga de calor e cortes de eletricidade)

6 set, 05:44

Tremor de terra na província chinesa de Sichuan fez 46 mortos e dezenas de feridos. Muitos dos 21 milhões de habitantes da maior cidade da região saíram de casa em pânico, contra as ordens oficiais de confinamento por causa da covid

Chengdu, a principal metrópole da província chinesa de Sichuan, pode, por estes dias, reclamar o título de cidade mais azarada do mundo. Em julho e agosto, enfrentou uma vaga de calor e seca extrema, que suspendeu a atividade industrial e provocou cortes de energia. Na semana passada, os seus 21 milhões de habitantes receberam ordens para ficarem em confinamento, por causa da política de “covid zero”. O lockdown lançou o pânico entre a população, que esvaziou completamente as bancas dos mercados e as prateleiras dos supermercados, numa fúria de compras de alimentação cujas imagens correram mundo. Depois, durante o fim de semana, o sistema de testagem obrigatória de covid-19 colapsou, obrigando milhares de pessoas a esperar longas horas em filas, pela noite dentro, até poderem fazer os testes a que estavam obrigados pelas autoridades. E esta segunda-feira, a cidade foi atingida por um violento sismo que abalou toda a província de Sichuan, no sudoeste do país.

Segundo as informações mais atualizadas, 46 pessoas morreram devido ao forte terramoto, que atingiu 6.8 na escala de Richter. As mortes foram todas registadas na Prefeitura Tibetana Autónoma de Garze e na cidade de Ya’an, que fica a cerca de 130 quilómetros de Chengdu. As autoridades apontam ainda a existência de mais de 50 feridos, e cerca de vinte desaparecidos. O sismo provocou derrocadas, destruiu casas e estradas, e cerca de duzentas pessoas ficaram isoladas numa reserva natural, cujo único acesso ficou intransitável. Diversas linhas de comunicação foram cortadas, e algumas centrais elétricas foram obrigadas a encerrar nas áreas de Garze e Ya'an, segundo a televisão oficial chinesa. Cerca de 40 mil utilizadores terão ficado sem eletricidade. Mas as autoridades asseguraram na terça-feira que nenhuma barragem ou central hidroelétrica foi afetada num raio de 50 quilómetros do epicentro. 

O epicentro do terramoto foi em Luding, uma cidade numa remota região montanhosa localizada a cerca de 226 km a sudoeste de Chengdu, de acordo com a autoridade chinesa de monitorização de terramotos. 

Apesar de não ter registado vítimas mortais, a capital provincial Chengdu sentiu um forte abalo, que fez tremer inúmeros edifícios e lançou o pânico entre a população. Laura Luo, uma habitante de Chengdu, contou à Reuters que estava a caminho do seu apartamento quando viu pessoas a saírem a correr das suas casas em pânico após receberem avisos de terramoto nos seus telefones. "Havia muitas pessoas que estavam tão aterrorizadas que começaram a chorar", disse Luo. Quando a terra tremeu, "todos os cães começaram a ladrar. Foi realmente bastante assustador", relatou.

Outra habitante de Chengdu, Samantha Yang, contou que estava na cama prestes a dormir uma sesta quando o terramoto ocorreu. "O edifício continuava a tremer, cada vez mais intensamente", disse Yang. "Verdadeiramente, este foi o mais assustador desde o terramoto de Wenchuan de 2008".

Muitos habitantes da capital provincial ainda guardam memória do maior terramoto a atingir a província, em 2008: um abalo de magnitude 8.0, com epicentro em Wenchuan (a 140 quilómetros), que matou mais de 70 mil pessoas e causou enormes danos em Chengdu, mas sobretudo nas regiões em torno da metrópole. 

O sismo de ontem foi o mais intenso a atingir a província de Sichuan desde 2017, quando ocorreu um terramoto de magnitude 7.0. Sichuan, que faz fronteira com o planalto tibetano, onde as placas tectónicas se encontram, é regularmente atingida por terramotos - ainda em junho, dois sismos de menor intensidade causaram pelo menos quatro mortos.

O pânico antes do lockdown

A cidade de Chengdu está em lockdown desde o final da semana passada, devido à subida do número de casos de covid. Por essa razão, muitos habitantes relataram que, depois de sentir a terra tremer, em vez de sairem dos respetivos prédios de habitação para a rua, optaram pelos pátios interiores ou jardins dos condomínios, com receio de violar a ordem de confinamento.

No dia 1 de setembro, quando as autoridades decidiram o confinamento e a testagem generalizada da população de Chengdu, tinham sido detetados menos de mil casos de transmissão local - o que não impediu que mais de 21 milhões de pessoas ficassem impedidas de sair de casa.

O anúncio do lockdown provocou uma onda de pânico entre a população, que se apressou a açambarcar toda a comida que pôde, deixando as bancas dos mercados e as prateleiras dos supermercados completamente vazias.

As imagens de Chengdu, recolhidas por cidadãos nos seus telemóveis, correram mundo: um automóvel carregado de galinhas amarradas no tejadilho; outro com o banco de trás cheio de carne não embalada; gente a acotovelar-se num talho, onde os pedaços de carne iam sendo atirados aos clientes; dezenas de pessoas em cima das bancadas de um mercado; multidões a agarrar toda a comida que pudessem; estabelecimentos sem um único alimento para venda, e com aspeto de terem sido varridos por um tufão.

O confinamento foi decretado até domingo passado, e toda a população estava obrigada a fazer teste - quem testasse negativo podia ir às compras, mas boa parte do comércio estava fechado e sem abastecimento. 

Porém, durante o fim de semana, o sistema de testagem colapsou, devido ao pico de procura, que sobrecarregou o sistema informático. As autoridades de Chengdu viram-se obrigadas a pedir desculpa ao público pelas perturbações, que obrigaram milhares de pessoas a ficar em longas filas, nalguns casos à chuva, até de madrugada, para conseguirem cumprir com a testagem mandatória.

"Houve uma atividade anormal no sistema de testes de ácido nucleico em toda a cidade, levando a um progresso lento e longas filas na chuva fria", disse o governo municipal num comunicado emitido no sábado à noite. "Sentimo-nos preocupados, envergonhados e aceitamos as críticas do público. Pedimos sinceras desculpas e agradecemos ao público pela sua compreensão e apoio".

As falhas na testagem acabaram por obrigar ao prolongamento do lockdown, até toda a população ser testada uma segunda vez - neste momento, o confinamento geral está previsto até amanhã, quarta-feira.

Seca e vaga de calor

Antes do lockdown, do pânico de abastecimento de comida e do terramoto, Chengdu já tinha sido atingida por cortes de energia elétrica durante julho e agosto, devido à seca e à vaga de calor que atingiu a província de Sichuan, uma das mais atingidas pelas temperaturas extremamente altas que têm fustigado o sudoeste da China.

Sem chuva e com vários dias sucessivos de vagas de calor, Sichuan viu a capacidade das suas barragens severamente atingida, o que obrigou as autoridades a medidas de racionamento de energia elétrica. Quase todas as fábricas da província estiveram fechadas durante vários dias em agosto, o consumo público de eletricidade foi restringido, e a população aconselhada a reduzir ao mínimo o uso de energia - quando mais precisava de ligar ventoinhas e ar condicionado.

Sichuan é a província chinesa com a maior rede de hidroelétricas, que fornecem 80% da energia consumida localmente - sem chuva, essa produção foi muito afetada, e mesmo o acesso a água para uso doméstico tornou-se mais difícil.

Resumindo: desde junho, a população de Chengdu sentiu dois terramotos, enfrentou uma seca severa e vagas de calor, teve cortes de energia elétrica, viu as fábricas da região todas fechadas, foi mandada ficar em casa em confinamento por causa da política de “covid zero”, desesperou para comprar comida para fazer face ao lockdown e… foi abalada por um forte tremor de terra. 

"Houve um terramoto em Junho, mas não foi muito assustador. Desta vez tive muito medo, porque vivo num andar alto e o tremor fez-me sentir tonta", disse Jiang Danli, residente da cidade, à Associated Press. E concluiu que os últimos meses em Chengdu "têm sido estranhos".

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