A China já não quer só acompanhar os EUA na evolução tecnológica - quer liderar a corrida

CNN , John Liu
28 mar, 18:00
China (CNN)

Presidente chinês apresentou um Plano Quinquenal, que foi eaborado à porta fechada pelo seu círculo próximo durante meses e serve de guia para o desenvolvimento do país na próxima meia década

Numa era marcada por ações militares norte-americanas em países estrangeiros e pela turbulência comercial, o presidente chinês, Xi Jinping, aposta num plano para proteger o seu país da tempestade internacional: impulsionar a inovação para transformar a China na principal superpotência tecnológica do mundo.

Nos próximos cinco anos, a China procura modernizar o seu já poderoso setor industrial, reforçar a “auto-suficiência” tecnológica e incubar setores que ajudarão a acelerar a supremacia tecnológica do país, desde a inteligência artificial e robótica à aeroespacial e à computação quântica.

“Pela primeira vez, a China quer liderar em várias tecnologias. Antes, o foco era sempre chegar ao Ocidente”, sublinha Dan Wang, diretor para a China da consultora de risco político Eurasia Group.

Os detalhes da estratégia de Xi para o futuro foram aprovados pelo parlamento chinês, em Pequim. O documento político, conhecido como Plano Quinquenal, foi elaborado à porta fechada pelo círculo próximo de Xi Jinping durante meses e serve de guia para o desenvolvimento do país na próxima meia década.

“Esforcem-se por alcançar novos avanços na promoção da inovação original, no combate às principais tecnologias essenciais e na conquista da posição estratégica na ciência e na tecnologia”, declarou Xi, dirigindo-se às autoridades locais numa reunião sobre o novo plano.

Enquanto a economia chinesa enfrenta desafios estruturais profundos, incluindo uma persistente crise imobiliária e a baixa confiança dos consumidores, Xi está a concentrar-se no reforço do setor tecnológico, apostando proativamente em tecnologias emergentes para impulsionar o crescimento do país nas próximas décadas. Na semana passada, a China estabeleceu a sua meta de crescimento económico mais baixa desde que começou a adotar estes números.

O presidente chinês, Xi Jinping, na a sessão de encerramento da Assembleia Popular Nacional (APN), o órgão legislativo meramente formal do país, em Pequim, a 12 de março de 2026. Andres Martinez Casares/AFP/Getty Images

“Perante a dinâmica internacional turbulenta e uma série de riscos e desafios, devemos concentrar-nos em fazer bem o nosso trabalho, (...) consolidar e expandir os nossos pontos fortes, remover os estrangulamentos e restrições e fortalecer as nossas fraquezas”, pode ler-se no documento.

Embora se espere que Xi Jinping receba o presidente dos EUA, Donald Trump, em Pequim, ainda este mês, para discutir, entre outros assuntos, o prolongamento da trégua comercial, os especialistas afirmam que as relações entre as duas maiores economias do mundo vão continuar a concorrer uma contra a outra nos próximos cinco anos.

“A colaboração diminuirá em todos os aspetos, desde a academia às indústrias. Ambos os lados querem reduzir a dependência de cada um e, por isso, a desvinculação é mútua”, teoriza Wang, do Eurasia Group, alertando que as tensões bilaterais podem reacender-se após um período de calma trazido pela trégua comercial.

Num mundo incerto, a China está a posicionar-se como uma “âncora estabilizadora para a economia global”, descreve Henry Huiyao Wang, presidente do Centro para a China e a Globalização, um grupo de investigação sediado em Pequim.

“A China com que os EUA lidam hoje é um país altamente organizado, ainda impulsionado por uma forte vitalidade e ritmo de crescimento, e que avança com uma clara determinação estratégica através de sucessivos planos quinquenais”, explica o analista, que anteriormente desempenhou funções de conselheiro do gabinete chinês, o Conselho de Estado.

A estratégia de longo prazo

O modelo chinês, liderado pelo Estado, está a ajudar o país a reduzir rapidamente a diferença nos gastos em investigação e desenvolvimento em relação aos Estados Unidos.

Pequim comprometeu-se com um aumento de 10% no orçamento anual para a ciência e tecnologia – em linha com o ritmo de crescimento dos últimos dois anos. O plano estabelece ainda o objetivo de aumentar o investimento anual em investigação e desenvolvimento em pelo menos 7%.

Jovens fazem fila para instalar o OpenClaw, um assistente de IA de código aberto, nos seus computadores portáteis na sede da Baidu em Pequim, a 11 de março de 2026. Adek Berry/AFP/Getty Images

“A China lidera agora o mundo em investigação, desenvolvimento e aplicação em áreas como a inteligência artificial, a biomedicina, a robótica e a tecnologia quântica, e foram feitos novos avanços na investigação e desenvolvimento independentes de chips”, lê-se num relatório governamental divulgado na semana passada.

O termo “inteligência artificial” foi mencionado no plano mais de 50 vezes – e é uma área em que a China já provou ser um dos jogadores de topo, dominando grandes modelos de linguagem de código aberto e arrecadando somas enormes em lançamentos no mercado.

Além dos chatbots, as ambições de Pequim vão desde robôs com IA a “IA agente”, ou sistemas que podem lidar com tarefas além da conversação. O plano promete ainda construir clusters de computação em hiperescala para colmatar a escassez de capacidade computacional avançada para a IA.

Em conjunto, as iniciativas visam expandir a indústria chinesa relacionada com a IA para um valor superior a 10 biliões de yuans (cerca de 1,3 mil milhões de euros) até ao final de 2030.

Obstáculos não resolvidos

A decisão de Pequim de redobrar os esforços em prol da autossuficiência mostra a urgência da China em querer libertar-se da dependência da tecnologia ocidental. Apesar de destacar os progressos nas tecnologias nacionais, o plano previa “medidas extraordinárias” para alcançar “avanços decisivos” em setores essenciais, particularmente nos chips avançados.

Os controlos de exportação impostos por Trump durante o seu primeiro mandato, e posteriormente reforçados pela administração Biden, têm sufocado os setores de semicondutores do país e as indústrias que deles dependem, incluindo o desenvolvimento de modelos de IA de ponta.

Kendra Schaefer, parceira da consultora Trivium China, com sede em Pequim e especializada em políticas tecnológicas, afirmou que o país considera “libertar-se da alegada influência dos EUA como uma necessidade estratégica imediata” no setor dos chips de IA, embora não pareça ter “qualquer ilusão” de que seja capaz de produzir um chip equivalente aos da gigante norte-americana Nvidia nos próximos cinco anos.

Em vez disso, acrescenta Schaefer, Pequim voltou a sua atenção para "partes da cadeia de fornecimento de semicondutores ou tecnologias futuras de semicondutores que ainda não amadureceram completamente", procurando obter vantagem nestas áreas.

Uma mão robótica prepara a embalagem de chips semicondutores na Shandong NEM Semiconductor Co., Ltd., em Binzhou, China, a 28 de janeiro de 2026. Guo Zhihua/VVCG/Getty Images

“A busca da China pela soberania tecnológica vai além do atual controlo, pois não se trata de um mero jogo de recuperação", pode ler-se num artigo publicado na agência de notícias estatal Xinhua.

Mas o foco interno reflete também a realidade económica da China. O país tem-se apoiado, durante décadas, no seu papel de fábrica do mundo e nas suas exportações para impulsionar o crescimento, embora os seus crescentes excedentes comerciais tenham atraído cada vez mais a fúria dos seus parceiros comerciais. Entretanto, a economia chinesa tem enfrentado, nos últimos anos, uma prolongada crise imobiliária, uma fraca procura interna e um excesso de capacidade industrial, o que resultou em pressões deflacionistas.

Lynn Song, economista-chefe para a Grande China no banco holandês ING, diz que o forte foco doméstico do plano sinaliza tanto uma crescente reação aos desequilíbrios comerciais da China como o reconhecimento, por parte de Pequim, de riscos externos elevados.

Isto “pode ser visto como uma forma de a China garantir que as bases para o seu crescimento são controladas internamente, em vez de depender da manutenção de um ambiente externo construtivo”, sugere Song..

*Rae Wang contribuiu para este artigo

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