Xi quer mesmo controlar Taiwan, mas esse é um objetivo a longo prazo

21 set, 04:20
Xi Jinping (Getty Images)

No próximo congresso do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping deverá reafirmar a importância da “reunificação” de Taiwan com a China, mas num horizonte de longo prazo. Governo de Pequim promete tudo fazer por uma "reunificação" pacífica

O presidente chinês, Xi Jinping, tenciona apresentar a “reunificação” de Taiwan com a China como um objetivo estratégico de longo prazo, dissipando receios de que Pequim se esteja a preparar para concretizar esse objetivo pela força nos próximos anos. Esta linha temporal mais alargada deverá ser apresentada perante o congresso do Partido Comunista Chinês (PCC), que arranca a 16 de outubro, em Pequim.

Segundo fontes do PCC e do governo, citadas pela agência de notícias japonesa Kyodo News, Xi deverá aproveitar o congresso - que só se realiza de cinco em cinco anos - para atualizar os seus planos em relação à ilha de Taiwan, que a China reclama como território seu, mas que tem autogoverno desde 1949, ou seja, há tanto tempo como a existência da atual República Popular da China. 

O plano de Xi Jinping, segundo estas fontes, é apresentar a “reunificação” como um ponto indispensável para a concretização do “grande rejuvenescimento da nação chinesa", que o líder chinês colocou como grande objetivo nacional até meados deste século. Porém, tudo indica que Xi não quererá comprometer-se com calendários concretos, nem acelerar qualquer ação pelo lado de Pequim, apesar da súbita escalada da tensão no Estreito de Taiwan neste verão.

Esta quarta-feira, já após a divulgação da informação da Kyodo News, um porta-voz do governo chinês assegurou que o país está disposto a fazer o máximo esforço para garantir uma "reunificação" pacífica com Taiwan. A garantia deste responsável do governo de Pequim surge também em resposta a Joe Biden, que reafirmou a disposição norte-americana de defender militarmente Taiwan em caso de agressão chinesa, tendo remetido para os taiwaneses qualquer decisão sobre uma declaração de independência.

Numa das suas últimas intervenções sobre os planos da China para Taiwan, em julho, o diretor da CIA, William Burns, sublinhou “a determinação do Presidente Xi para garantir o controlo da China [sobre Taiwan]”, embora tenha admitido que a experiência de Vladimir Putin com a invasão da Ucrânia possa obrigar Pequim a rever planos e calendários.

Embora não acredite uma invasão por parte da China possa acontecer a curto prazo, Burns considerou que, após o congresso do PCC, em que Xi será reconduzido para um imprevisto terceiro mandato de cinco anos, o presidente chinês se dedicará a planear a concretização do objetivo assumido de retomar o controlo de Taiwan. A questão é “quando e como, não é ‘se’”, disse o diretor da CIA. Na opinião de Burns, os riscos para Taiwan “aumentam conforme avançarmos por esta década.”

“Grandes transformações” e prioridades políticas

No congresso do PCC, o líder chinês deverá, como é tradição, apresentar um relatório de atividades, que deverá incluir não apenas a revisão daquilo que foi alcançado na última década sob a sua liderança (e que será apresentado como "grandes transformações"), mas também as prioridades políticas do país no médio e longo prazo. É nesta parte que deverá ser incluída a referência à “reunificação” com Taiwan.

O projeto de relatório de atividades a apresentar ao congresso terá sido concluído por Xi durante o verão, e passará por ajustes finais na sétima sessão plenária do Comité Central do PCC, convocada para 9 de Outubro em Pequim.

De acordo com fontes partidárias e governamentais, ao sublinhar o objetivo da reunificação com Taiwan, Xi apresenta uma justificação adicional para prolongar a sua permanência no poder, que de acordo com as regras do PCC deveria cessar este ano. A limitação a dois mandatos de cinco anos aplicou-se aos antecessores de Xi na liderança do partido e do governo, mas o atual líder chinês alterou essa regra em 2018, abrindo caminho ao que poderá ser, no limite, a sua eternização no poder.

No último congresso do PCC, em 2017, Xi apresentou a “reunificação” com Taiwan como uma das tarefas históricas que o partido ainda terá de cumprir, se necessário pela força. Porém, sem apresentar calendários. O horizonte de “transformações” da China em que Xi e o PCC costumam trabalhar tem como marco principal o ano de 2049, quando a República Popular da China celebra o seu primeiro centenário - que será também, se se mantiver o status quo, o ano do primeiro centenário do autogoverno de Taiwan.

Em Julho, Xi disse numa reunião de altos funcionários do partido que o próximo congresso irá elaborar um plano sobre tarefas e políticas importantes para os próximos cinco anos e mais além, no sentido do desenvolvimento tanto do partido como da nação chinesa.

Navios dos EUA e Canadá atravessam estreito

Entretanto, esta terça-feira um navio de guerra da Marinha dos Estados Unidos e uma fragata canadiana realizaram um trânsito de rotina do Estreito de Taiwan. Trata-se da segunda vez que forças dos EUA percorrem aquelas águas após o pico de tensão no Estreito durante o mês de agosto, motivado pela visita de Nancy Pelosi à ilha. A 28 de agosto, já dois navios norte-americanos haviam feito o mesmo percurso, ao longo de águas internacionais, mas que a China considera serem suas águas territoriais.

A Marinha dos EUA informou que um contratorpedeiro norte-americano e uma fragata da Marinha Real Canadiana transitaram através de um corredor no estreito que fica fora das águas territoriais de qualquer estado. A ministra da Defesa do Canadá, Anita Anand, afirmou que o seu país, enquanto nação do Pacífico, está “profundamente empenhado” em defender a estabilidade e prosperidade na região do Indo-Pacífico.

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