Enquanto os navios de guerra americanos enfrentam uma dura prova no Estreito de Ormuz, Donald Trump chega a Pequim numa das posições mais frágeis da sua presidência. Em jogo poderá estar o futuro estatuto de Taiwan
Se a cimeira de Busan, em 2025, marcou o momento em que Donald Trump e Xi Jinping decidiram baixar as armas comerciais, o encontro que agora se aproxima pode ser bem mais complexo. Ao contrário do equilíbrio relativo de há um ano, os EUA chegam à mesa de negociações numa posição de fragilidade inédita, desgastados por quase três meses de uma guerra no Irão que esgota arsenais e paciência política. Com o peso de "um estreito por resolver", a chegada a Pequim do presidente americano mais conhecido pela sua natureza transacional faz com que os analistas temam um recuo estratégico noutro estreito, precipitando a maior invasão naval da história.
"Os Estados Unidos vão para esta cimeira numa posição de desvantagem. Não me parece que Trump vá ter uma vida fácil lá. Acredito que estamos num momento decisivo, porque os EUA parecem mesmo estar num momento de perda da sua hegemonia e esta cimeira pode reforçar isso", afirma à CNN Portugal Cátia Moreira de Carvalho, especialista em Relações Internacionais.
Em cima da mesa estarão temas como as tarifas alfandegárias, as terras raras e os semicondutores. Empresas como a Tesla, Apple, BlackRock e Boeing farão parte da comitiva através dos seus CEOs. Mas, ao contrário de Busan, este ano o foco incide sobre a ligação entre dois pontos geográficos: os estreitos de Ormuz e de Taiwan.
Isto acontece porque Donald Trump aterra na China com o Estreito de Ormuz bloqueado, o preço do barril de petróleo a pressionar a economia mundial e com um cessar-fogo "por um fio", que arrisca voltar a desencadear uma guerra que consome recursos americanos cada vez mais escassos. Esta posição dá a Pequim, o principal parceiro comercial do Irão, a possibilidade de oferecer a Trump algo de que ele precisa.
É neste cenário de vulnerabilidade que a questão de Taiwan arrisca deixar de ser um tema de rotina para se tornar uma possível moeda de troca. Historicamente, a relação entre as duas superpotências sobre a ilha tem sido gerida através de uma "ambiguidade estratégica" que remonta a 1979. No papel, os EUA reconhecem a política de uma só China, mas mantêm o compromisso de fornecer meios de defesa a Taipé sem nunca clarificar se interviriam militarmente num conflito. No entanto, Pequim pode olhar para este como o momento certo para quebrar essa nuance a seu favor.
"O que se passa com o facto de Trump estar a trair Taiwan é que isso não tem realmente qualquer consequência para ele. Ele não se vai recandidatar. Não tem essa preocupação ideológica com o futuro da democracia. Ele encara as coisas apenas em termos económicos práticos", revela uma fonte anónima da administração americana em declarações ao Politico.
Do ponto de vista chinês, uma simples mudança semântica proferida em público seria o suficiente para ser considerado uma grande vitória. O antigo analista da CIA Jonathan Czin alerta que a China quer mover Washington do tradicional "não apoiamos a independência" para um compromisso de que os EUA "se opõem à independência" de Taiwan. Para Trump, que encara a política externa como uma balança comercial, a tentação de trocar uma palavra num comunicado por um cenário mais favorável no Médio Oriente pode ser uma proposta demasiado boa para recusar.
Mas a questão pode não ser tão simples quanto isso. Apesar de Pequim querer cedências da parte dos americanos, não é claro que Xi Jinping esteja disposto a querer ajudar o rival americano a reabrir o Estreito de Ormuz, mantendo o seu poder e a sua influência na região. E isso pode criar um braço de ferro difícil de sustentar.
"Donald Trump precisa que a China deixe de apoiar implicitamente o Irão e a China não quer que os Estados Unidos mantenham a sua hegemonia no Golfo [Pérsico]. São duas questões que não têm resolução. Há uma fricção autêntica", aponta à CNN Portugal Rui Henriques Santos, especialista em Relações Internacionais.
Até porque a China já conseguiu algo bastante valioso do seu rival, antes mesmo de um possível conflito começar. A guerra no Médio Oriente permitiu aos analistas militares chineses observar com grande detalhe o comportamento dos Estados Unidos no campo de batalha num território longínquo, com grande foco nas ações da Marinha. Um cenário muito semelhante ao que as forças chinesas teriam de enfrentar, caso Washington decida defender a soberania taiwanesa num cenário de invasão.
Ao mesmo tempo que as forças americanas no Golfo Pérsico consomem inventários inteiros de mísseis de precisão e de defesas antiaéreas mais rápido do que conseguem repor, o Exército chinês continua a fazer contas. Este consumo não afeta só a capacidade americana de intervir no Pacífico, como também está a atrasar significativamente todas as entregas de material a Taiwan. Do ponto de vista chinês, se o Irão, com tecnologia de custo reduzido, conseguiu sobrecarregar sistemas de defesa de ponta como o Patriot, a China, o maior fabricante mundial de drones, descobriu que pode ter mais força do que pensava.
De acordo com especialistas militares americanos, a China tem capacidade de produzir mil milhões de drones por ano, caso decida converter parte das suas fábricas civis para esse efeito. Para percebermos a real dimensão destes números basta dizer que a Ucrânia, um dos maiores produtores de drones a nível mundial, tem sido capaz de travar um Exército russo com mais de 700 mil soldados com a capacidade de produzir entre três a cinco milhões de drones por ano.
"Rockets de longo alcance e enxames de drones irão certamente desempenhar um papel fundamental nas operações militares conjuntas da China contra Taiwan", afirma Chieh Chung, investigador associado do Instituto de Investigação de Defesa Nacional e Segurança de Taiwan, à CNN.
O receio em Taipé é que a ilha não esteja preparada para lidar com números desta magnitude, especialmente quando o "guarda-chuva" de proteção americano parece estar a ser utilizado para tapar furos noutras latitudes. Esta realidade pode mesmo ditar o fim da era em que Washington podia projetar força em múltiplas frentes sem comprometer a sua integridade estratégica.
"Os Estados Unidos não desistiram de proteger Taiwan, mas a partir do momento em que os recursos são utilizados em determinadas esferas, depois não podem ser utilizados noutras latitudes. O que está aqui em causa é um overstretching", afirma Manuel Serrano, especialista em Relações Internacionais.
Ainda assim, a China pode encontrar no Estreito de Taiwan um dilema semelhante ao que os Estados Unidos encontraram em Ormuz. "Um bloqueio do Estreito de Taiwan seria comparável ao que está a acontecer em Ormuz e, em muitos casos, podia ser pior, devido à questão dos semicondutores", nota Manuel Serrano.
Um conflito no Estreito de Taiwan interromperia a produção global de tudo o que é tecnológico, desde smartphones a sistemas de defesa avançados, afetando tanto Pequim quanto Washington. Este equilíbrio pode inclusive ser uma das últimas barreiras que resta contra a tentação de Xi Jinping em aproveitar a atual exaustão americana.
Ainda assim, o fator tempo joga contra a diplomacia. Os relatórios dos serviços de informações militares americanos apontam para 2027 como o ano em que a China estará disposta a invadir. Segundo Manuel Serrano, essa invasão está limitada por uma janela física e climática. "O Estreito de Taiwan é transitável entre abril e maio e setembro e outubro. É nessa janela temporal que se podia realizar uma invasão", explica.
"Longe vai o tempo em que a China se limitava ao crescimento económico. Já se percebeu que acham que os EUA estão em decadência", reforça Manuel Serrano. No entanto, para o especialista, Xi Jinping pode não precisar de começar já um confronto aberto, sobretudo enquanto vir o seu adversário a "dar tiros nos pés". Se Trump regressar desta cimeira com uma vitória económica de curto prazo, mas tiver deixado cair a clareza sobre a soberania de Taiwan, terá trocado a hegemonia global americana por um alívio momentâneo.
